Novela fora do Plano

Victor Barbosa e Luíza Akemi

Belíssima, Páginas da Vida, A Favorita, Caminho das Índias, Viver a Vida, Fina Estampa, Salve Jorge, Amor à Vida, Babilônia e A Lei do Amor. Além do horário em que foram transmitidas, o que mais essas telenovelas teriam em comum?

Gostaria de responder que é o fato de todas terem a mesma estrutura, com mocinhos e vilões, com um núcleo cômico e outro de responsabilidade social. Infelizmente, esse não é o motivo pelo qual elas estão juntas neste texto.

O ponto de encontro dessas dez tramas, na realidade, é geográfico: os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Explico melhor. Das últimas vinte novelas transmitidas no principal horário comercial da maior emissora de tevê do Brasil, dez transcorreram integralmente no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

Nas outras dez, algumas cenas – não muitas – foram rodadas em diferentes estados brasileiros, porém sem a mesma evidência que é dada para os dois estados do sudeste brasileiro.

Geralmente, as outras localidades aparecem no início da trama, como um local menor, de onde os personagens principais saem para ganhar a vida nas metrópoles paulista e fluminense. Aconteceu em América, Paraíso Tropical, A Regra do Jogo, Duas Caras, Império, Insensato Coração e A Força do Querer.

Para piorar a situação, em alguns desses casos em que outros estados apareceram, as localidades foram utilizadas não para representar a cultura local, mas porque existia uma necessidade cenográfica.

Na novela Avenida Brasil, por exemplo, Murilo Benício, ator que interpretava o jogador Tufão, foi a Minas Gerais gravar em um estádio. No enredo da novela, no entanto, a cena se passou no Rio de Janeiro, local onde o famoso jogador ganhou fama no Divino Futebol Clube.

Com a exceção da novela Velho Chico, que se passou quase integralmente às margens do rio São Francisco, todas as outras 19 não focaram em localidades de outras regiões do Brasil.

Qual é o problema disso?

Com a intenção de problematizar esse monopólio geográfico, começarei com uma frase muito comum na Comunicação que é  “um fato só existe se for mediatizado”. Ou seja, para algo ser notável perante a sociedade, ele precisa aparecer na mídia.

Os exemplos que endossam a veracidade dessa frase são diversos: desde políticos que fazem tatuagens falsas, com a intenção de ganhar os holofotes, até ex-BBBs que mentem em redes sociais, tentando prolongar o fim da fama.

Tanto o parlamentar quanto a subcelebridade desejam aparecer, pois compreendem que isso é essencial para continuarem onde estão ou para chegarem onde almejam.  

O que isso tem a ver com as novelas?

No caso dos folhetins, o problemático está no fato de uma novela vista por todo o Brasil não dar representatividade às culturas fora de seu eixo mais forte. As diversas manifestações culturais do país, que se encontram, em sua maior parte fora de São Paulo e do Rio, perdem força no cenário nacional.

Todo mundo sabe qual é o sotaque que se fala em São Paulo, mas quase ninguém sabe como se fala no Acre.

Todo mundo sabe o nome de pelo menos três praias do Rio, mas quase ninguém sabe o nome de uma praia em Sergipe.

Todo mundo sabe como é o calçadão de Copacabana, mas, no Recife, tem calçadão?

O problema da representatividade não para por aí. Quando não damos valor a uma cultura, enquanto supervalorizamos outra, tendemos a apagar e, consequentemente, homogeneizar grande parte do espectro social que traduz o que é ser brasileiro.

Funk é bom, mas o Brasil não é só isso.

Mas será que a Globo não faz as novelas no Rio por que o projac é no Rio?

Poderia ser. Entretanto, grande parte das novelas é filmada em cenários construídos dentro do Projac, o estúdio da globo, não nas ruas da cidade.

Além do mais, se a questão fosse dinheiro, as novelas não teriam cenas gravadas fora do país. Falando nisso, das 20 novelas citadas anteriormente, 12 tiveram gravações internacionais, em locais como o Peru, a Turquia e os Emirados Árabes Unidos.

Você não está exagerando colocando toda essa responsabilidade nas novelas?

Obviamente, existem outras formas de termos contato com as outras faces do país, mas as telenovelas têm, sim, um grande poder cultural.

Apesar de perderem audiência ano a ano, os folhetins brasileiros, principalmente o das 21h, ainda possuem grande poder entre nós.

Um exemplo disso é uma pesquisa feita em 2009 pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que mostrou que, entre 1970 e 2000, as novelas exerceram grande influência na forma que as mulheres viam temas como divórcio e natalidade.

Outro bom argumento é o final de Avenida Brasil. O capítulo final da trama foi exibido em 19 de outubro de 2012, nesse dia, parte das principais rodovias do país estavam sem muita movimentação durante a exibição do capitulo. Reportagens, dos mais diversos veículos de comunicação, explicaram o fenômeno: estavam todos assistindo a Carminha.

 

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