Morte: o circo

Por Maria Ferreira

A espetacularização da morte não é tema recorrente na mídia, tampouco discutido e tratado como relevante. Em tempos de horror, a empatia das pessoas parece adormecer e trazer à tona o espírito irracional que só vê benefícios no número de curtidas. Quanto mais “amém” na foto, melhor e mais salvo, ou curado, o indivíduo será. A banalidade de compartilhar ou, no caso de jornais mais populares, noticiar imagens e vídeos de mortes, suicídios e violência, vem disfarçada de boa vontade e preocupação em tornar o assunto conhecido pela sociedade para receber curtidas ou mais leitores e consequentemente, mais lucro.

De fato, a mídia tem responsabilidade social e deve mostrar, principalmente, pontos ocultos, assuntos que não estão sendo, mas devem ser falados e debatidos. Entretanto, segundo o Prevenção do suicídio: um manual para profissionais da mídia (2000), criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o veículo de comunicação deve se policiar para não haver exageros ou sensacionalismo e, principalmente, não divulgar fotos do falecido, da cena e dos métodos utilizados.

Tal fato mostra que a informação deve ser veiculada, a fim de que se conscientize a população. Porém, deve ser feito com parcimônia, para que aqueles que se encontram em momento de vulnerabilidade e que pensam em cometer suicídio, não se sintam incentivados a fazê-lo.

Segundo a BBC Brasil e o Mapa da Violência 2017, a taxa de suicídios em jovens de 15 a 29 anos subiu de 2002 à 2014 quase 10%. O mapa é um estudo publicado anualmente pelo Ministério da Saúde. Além do estudo, o Departamento de Informática do SUS (DATASUS) desenvolveu o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), no qual é possível ver as causas de mortes do país. As taxas sobem, é claro, por fatores externos; porém, a mídia também pode ter seu papel, mesmo que mínimo, nesse aumento. Informação é arma poderosa e, por isso, é necessário tomar cuidado, tanto a mídia, como o cidadão no exercício dela.

Uma das primeiras teorias da comunicação, a Teoria Hipodérmica — que vem da agulha hipodérmica e faz alusão ao fato de que a informação “entra” sem barreiras — diz que toda ação da mídia tem reação no público. Apesar de a teoria ser menos considerada atualmente, porque exclui fatores externos e antropológicos, pode ajudar a entender a situação de como noticiar ou compartilhar conteúdos violentos, que retratem mortes ou suicídio, pode atingir um todo.

Ao compartilhar informação — e, agora, não estamos falando somente do Facebook — não sabemos a dimensão que irá tomar, quem e como vai atingir. Não se tem controle se ela será recebida de forma positiva ou negativa. A partir do momento em que sai das mãos do emissor, não se tem mais controle da informação.

O Facebook é lar de vários vídeos e fotos sobre tais assuntos. As pessoas compartilham muito, alguns para pedir que as pessoas se conscientizem, outros, para criticar as ações. Mas o lado pior é o dos comentários: pessoas criticam, xingam e dão as próprias soluções aos feitos, como se todos fossem iguais.

Um caso relativamente recente foi o do jogo Baleia Azul, uma série de desafios que culminam com o jogador se matando. O teor dos comentários vão de críticas à mente fraca dos adolescentes à falta de serviços domésticos na educação. Os usuários dessa mídia social deixaram de lado a humanidade e, por estarem protegidos pela privacidade, falam o que querem, sem pensar nas consequências, nos motivos ou até na família desses jovens. A indiferença chega a ser cruel e falta empatia.

Entretanto, ainda há pessoas querendo, de fato, ajudar. Segundo o Gazeta do Povo, o blogueiro do jornal Júlio Boll tentou entrar em um grupo do Facebook e se deparou com pessoas disfarçadas de curadores do jogo, querendo ajudar e incentivar os jovens a não participarem do desafio. Diferentemente desse veículo, o site Três Passos News listou, na íntegra, os 50 passos em detalhes, com o argumento de que é importante reconhecer sinais. No entanto, eles podem ser vistos por outras pessoas com olhos não tão conscientes.

A grande questão é como todos os assuntos, não só morte, suicídio e violência são retratados. A internet é muito poderosa e deve ser refletida por cada usuário a cerca de como está sendo usada, mesmo sem saber como fotos de pessoas mortas ou mutiladas ou comentários podem afetar outra pessoa. É necessário pensar em quem está do outro lado da tela, mesmo sem conhecê-la. A empatia começa pelo respeito a si e ao outro. Não conhecemos ou fazemos ideia de como as pessoas atingidas de forma negativa podem ser. Não ajudar a cavar a cova de outro ser humano e ter o mínimo de respeito antes de um clique destruidor são necessários.

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