O fim e os meios

Por Filliphi da Costa

Como a aliança entre representantes religiosos e governo sustentam a investida cristã sobre os povos indígenas até hoje.

I.

Quando chegaram ao Brasil em 1549 com a missão educadora da evangelização, os missionários europeus tinham um método nítido. Não só sabiam que a Terra de Santa Cruz havia sido inaugurada sob signos cristãos houve aqui, em 26 de abril de 1500, a celebração oficial de uma missa , como já haviam rejeitado o mito do bom selvagem. Os relatos dos padres José de Anchieta e Manuel da Nóbrega emanados à colônia ressaltavam os elementos que faziam da cultura indígena algo tão incivilizado. “A embriaguez constante, a influência maligna de pajés e feiticeiros, a antropofagia, a poligamia e até o comunismo de mulheres” se opunham cabalmente aos princípios do Evangelho. Era necessário, portanto, que se moldasse o caráter daqueles indivíduos, purificando seus costumes e suas crenças.

O método jesuíta se sustentava nas instruções do papa Gregório I, entre as quais se destaca a diretriz de não destruição dos templos nativos. O aperfeiçoamento da cultura indígena, e não sua destruição, é que representava o processo de cristianização. Desse modo, fala-se em aculturação, reinterpretação de ritos e crenças.

Como se sabe, porém, a adoção do paradigma jesuíta por parte dos missionários é mais alegórica do que real. Em carta enviada ao presidente da Província do Paraná, frei Timoteo de Castenovo demonstrou sua insatisfação pessoal ao sistema de aldeamento, concluindo que os indígenas nada tinham a aprender com os brancos.

“[…] é bom que se saiba que se desejo tanto pôr os índios em contato com nossa sociedade, é porque o bem-estar material dos mesmos assim o requer; no mais, dou razão aos antigos jesuítas de os quererem segregar das sociedades ditas civilizadas. Porque os índios dos contatos com as mesmas, na moral nada aproveitam de melhor. E Deus nos livre que os índios fossem tão corrompidos como as nossas camadas mais baixas.”

II.

22 de agosto.

Ano: 2017.

Em sua página no facebook, um pastor exibe orgulhoso uma fotografia. Nela, o homem de óculos escuros e roupas brancas posa de braços abertos e erguidos atrás de um grupo de Macaxalis, índios da aldeia Água Boa, localizada no município de Santa Helena de Minas, nordeste de Minas Gerais. A legenda diz: “Hoje batizamos uma aldeia inteira. Foram 38 índios batizados, inclusive o cacife e seu pai”.

As roupas brancas dos aldeões combinam com as vestes do pastor sugerindo a solenidade. Fora isso, as expressões contrastam demasiado. O pastor, efusivo, ostenta um sorriso grande e uma postura entusiasmada, enquanto os indígenas, acanhados, seguram as mãos juntas na frente do corpo e mantêm as cabeças baixas.

Foto
Post na íntegra no Facebook. (Fonte: reprodução).

A fotografia pode não saltar de pronto aos olhos. Ela em muito se assemelha às imagens das missões jesuíticas do século XVI que vemos nos livros didáticos. Seu conteúdo está quase irremovível em nossas pálpebras e mostra que a prática da massiva e sistemática investida cristã sobre outras crenças não só ainda existe como se amplia continuamente.

Ilustrando o fato ponho o Congresso Brasileiro de Missões, criado há mais de vinte anos. Este surgiu da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), responsável por reunir organizações ligadas às missões religiosas, e tem angariado religiosos ao chamado às missões transculturais. Os workshops têm reunido trienalmente entre 1500 e 2000 pessoas sob o mote “Realidades que não podemos ignorar”. A edição de 2017 tem o valor de inscrição de 200 reais e um vale diário (day-use) de 100. O ingresso dá acesso à programação e não inclui material, alimentação ou hospedagem.

Oficialmente, as entidades religiosas estão impedidas de adentrar territórios indígenas no Brasil. A Convenção número 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), sancionada pelo presidente Lula, assegura que “Os povos indígenas e tribais deverão gozar plenamente dos direitos humanos e liberdades fundamentais sem obstáculos nem discriminação…” Mesmo assim os grupos religiosos têm traçado estratégias diversas para atingir o ideal evangelizador.

Em 2013, o deputado Pastor Eurico (PSB/PE) propôs o debate sobre a liberdade das almas indígenas. O tema que esteve em pauta na Comissão de Direitos Humanos era a atuação das instituições religiosas entre os povos indígenas. A finalidade de punha de maneira clara: descobrir a melhor forma de participação de instituições religiosas em detrimento do que permite a legislação brasileira.

O que estava posto ali era a busca pelo imperativo do Evangelho apesar de conhecidos os eventos conturbados envolvendo esse tipo de missão. Em 1991, durante gestão de Sidnei Possuelo, a Funai expulsou as missões das terras indígenas sob acusações de abusos. Porém, uma retomada deste tipo de atividade está em curso graças a estratégias governamentais.

III.

Nos primeiros dias do ano de 2017, o ministro Alexandre de Moraes, sob ordem do presidente Michel Temer, nomeou às pressas o pastor evangélico Antônio Fernandes Toninho Costa   como presidente da Funai. Costa é conhecido como membro da Primeira Igreja Batista no Guará e assessor parlamentar do Partido Social Cristão.

Isso foi apenas uma das medidas assoladoras de direitos camponeses e indígenas tomadas por Michel Temer, que em poucos dias nomeou também um ruralista para o mesmo órgão no Mato Grosso do Sul e um grileiro para o Incra.

Essas concessões a grupos evangélicos são planejadas e escondem por trás de si uma estratégia para favorecer o agronegócio. O jornalista e ambientalista Felipe Milanez explica, em texto para a CartaCapital, que o PSC investe na pasta porque “é onde se definem investimentos em parcerias (como ONGs ou missões religiosas) e, sobretudo para os interesses econômicos por trás do golpe, é onde se operam os licenciamentos ambientais”. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) declarou que o governo de Michel Temer está colocando a Funai e os indígenas uns contra os outros. “Não vamos permitir que nosso próprio órgão indigenista, que existe para proteger e promover nossos direitos, venha contra nós”, disse.

Embora sutis, as investidas sobre os domínios indígenas são duradouras. Para muitos, a importância da questão reside nas próprias facilidades que são criadas pelo governo. Diante das tentativas de evangelização por agências missionárias, os indígenas buscam formas de manter sua cultura e tradições apesar da frente hegemônica. Figura na lógica indígena criar táticas para versar com as transformações que lhe são impostas, de modo que as noções colocadas não desestabilizem por completo a dinâmica cultural. As manifestações impelidas aos grupos indígenas adquirem significados distintos em resposta à incansável investida do cristianismo.

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