#Meumotoristaabusador e o poder da hashtag

Por Luíza Akemi e Victor Barbosa

“O mundo é um lugar horrível pra ser mulher”, afirma a escritora Clara Averbuck, de 38 anos, na segunda-feira (28), em seu relato sobre ter sido estuprada dentro de um Uber. Assim como em diversos casos de violência contra a mulher, a situação causou revolta em internautas, levando à criação da campanha #meumotoristaabusador.

O recurso da hashtag, atrelado a movimentos sociais na internet, é uma tendência recente que busca criticar diretamente a sociedade. A exemplo de campanhas anteriores que evidenciavam a cultura de estupro, #meumotoristaabusador cumpre o papel de botar em pauta temas que normalmente não são veiculados na mídia tradicional. Além disso, ela demanda uma representação mais fiel do lado da história das vítimas, por vezes culpabilizadas e mal representadas.

O caso de Clara

Assim como aproximadamente 40% da população feminina brasileira acima de 16 anos — segundo dados do Levantamento Datafolha de 2017 —, Clara foi vítima de agressão sexual. Segundo ela, requisitou os serviços do aplicativo de transporte Uber para voltar para casa de uma festa e, ao chegar ao destino, foi empurrada pelo motorista. Com o pretexto de ajudá-la a se levantar, cometeu o estupro.

clara

Relato na íntegra da escritora Clara Averbuck em sua conta pessoal no Facebook. (Fonte: Reprodução/Facebook)

Após o ocorrido, ela relatou o acontecimento à empresa, mas optou por não prestar queixa às autoridades por descrença no sistema jurídico. Apesar disso, a partir da repercussão causada pelo caso, Clara viu a oportunidade de ajudar e apoiar outras mulheres na mesma situação de vulnerabilidade criando a campanha #meumotoristaabusador nas mídias sociais. O objetivo é que as mulheres possam compartilhar seus relatos por meio de um sistema de sororidade, que é a ideia de apoio coletivo entre elas.

O poder da hashtag

O surgimento da internet e das mídias sociais mudou significativamente a maneira com a qual as pessoas se posicionam politicamente frente aos problemas sociais. Quando o tema é violência contra a mulher, é essencial se manifestar num meio de forma segura e sem métodos burocráticos.

Casos como o de Clara são mais comuns do que se imagina. O número de mulheres que sofrem algum tipo de abuso, principalmente de cunho sexual, e que optam por não prestar queixa à polícia, seja por medo de retaliação, seja por não acreditar na justiça, é grande. Segundo dados de 2015 do projeto Via Lilás, 70,9% das vítimas não chegaram a denunciar seus agressores.

O porquê está claro: segundo a organização não-governamental Rape, Abuse & Incest National Network (RAINN) — em tradução literal, Rede Nacional de Assistência a Vítimas de Estupro, Abuso e Incesto — somente 2% dos estupradores são condenados à prisão. Após o ocorrido, Clara afirma em artigo para a revista Claudia:

“O sistema é um conto de fadas mal contado, as cadeias estão explodindo de gente que, em muitos casos, nem deveria estar lá. E a polícia é despreparada para lidar com essas questões delicadas. É por isso que, coletivamente, pensamos, esta tarde, na campanha #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador.”

A utilização de hashtags em movimentos sociais na internet não é exclusiva desse caso. Em outubro de 2015, surgiu a campanha #primeiroassédio como resposta ao caso da participante do programa MasterChef Junior, Valentina Schulz, que tinha 12 anos na época e foi vítima de comentários de teor sexual nas redes sociais. O objetivo era que as mulheres contassem seus relatos sobre a primeira vez em que foram assediadas. Logo depois, surgiu a #meuamigosecreto, com objetivo de denunciar comportamentos machistas de homens próximos do ciclo de convivência da mulher.

Segundo o grupo feminista Think Olga, criador da #primeiroassédio, existe um constrangimento muito grande por parte das mulheres assediadas. Isso ocorre por causa do machismo enraizado na sociedade, que tende a culpabilizar as vítimas. Esse medo só é combatido quando as vítimas entram em contato com relatos de outras mulheres que passaram por situações iguais. Dessa maneira, elas se sentem acolhidas e compreendidas o suficiente para entender quem é o verdadeiro culpado nessa situação.

Mas o impacto da hashtag vai muito além da transformação individual na vida dessas mulheres. Esse recurso é capaz de gerar mudanças significativas na sociedade ao ampliar a possibilidade de determinados assuntos, que, possivelmente, não seriam abordados pela grande mídia, entrarem em pauta.

O processo de agendamento – quando alguém ou algo influencia no assunto debatido em determinado espaço – da mídia pelas redes sociais subverte a lógica comum entre emissor e receptor e amplia o poder decisivo de quem consume a informação para torná-los empoderados. Consequentemente, tornam o debate público mais rico e plural.

Um bom exemplo desse fenômeno foi o movimento #EstuproNãoÉCulpaDaVítima, de 2016. A hashtag foi utilizada nas redes sociais como forma de protesto contra a culpabilização de uma adolescente de 16 anos, vítima de estupro coletivo no Rio de Janeiro. Grande parte das tentativas de descredibilizar a vítima foram efetuadas pelos veículos de comunicação, os quais optaram por palavras como “suposto” para se referir ao crime. Também usaram descrições que levavam à vulgarização e à culpabilização da adolescente.

A cobertura da imprensa, nesse caso, se iniciou horas após a viralização do tópico na internet, revelando possível desinteresse midiático quando se tratam de casos de violência contra a mulher. Todos esses graves deslizes foram fortemente combatidos por meio de debates gerados pela campanha #EstuproNãoÉCulpaDaVítima, que comprovou a necessidade de colocar o tema da cultura de estupro em pauta.

A elaboração dessas campanhas online, no entanto, não diminui a necessidade de fazer denúncias formais à Justiça. Elas não têm o intuito de desencorajar as mulheres a procurar amparo na lei, mas de se tornar um ponto de apoio em uma situação traumática. “O sistema, como está, não funciona; basta ver o número de mulheres assassinadas mesmo tendo vários boletins de ocorrência e medidas protetivas. O que eu faço é uma crítica”, reafirma Clara Averbuck, em sua coluna na Revista Donna.

Outras campanhas

#chegadefiufiu (2013): campanha criada pela ONG Think Olga para criticar o assédio sexual e verbal sofrido pelas mulheres nas ruas. O objetivo era gerar um debate sobre a seriedade do assunto, muitas vezes caracterizado como “elogio”.

#HeForShe (2014): campanha criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de conscientizar homens para que eles não perpetuem atitudes machistas contra mulheres.

#vamosfazerumescândalo (2015): criada pela youtuber Julia Tolezano, do canal Jout Jout. Nele, afirma que as mulheres não podem se calar frente a situações de assédio e encoraja firmemente a denúncia desses casos.

#vamosjuntas (2015): a ideia partiu da jornalista Babi Souza, do Rio Grande do Sul, que, por meio de uma página criada no Facebook, encoraja mulheres desconhecidas a se unirem em situações perigosas no transporte público e nas ruas.

#EstuproNãoÉCulpaDaVítima (2016): surgiu como uma retaliação nas redes sociais contra o caso de estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos, no Rio de Janeiro. A hashtag tinha o objetivo de se contrapor a comentários que reforçavam a culpabilização da vítima.

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