Mídia e corrupção no futebol

Por Vitor Martins

Até quando os meios de comunicação vão jogar algumas sujeiras para debaixo do tapete?

O jornalista Jamil Chade disse, em entrevista, que o futebol é uns dos meios mais fáceis para lavar dinheiro. Casos conhecidos mostram que ele estava correto. Não só pela facilidade em realizar as operações, mas também pela tolerância da mídia e dos jogadores, na maioria das situações.

Após adquirir o Chelsea – clube londrino que até então detinha uma história modesta, com apenas um título nacional e migrava entre a primeira e a segunda divisão inglesa -, o empresário Romam Abramovich passou a realizar transferências milionárias de jogadores em ascensão, como o jovem Robben e o artilheiro Hernán Crespo. Comentava-se nos noticiários da época que o capital das transferências era fruto de lavagem de dinheiro.  Essas suspeitas chegaram a gerar certa polêmica, mas, com o tempo, tornaram-se esquecidas, até virarem apenas curiosidade sobre o homem que ergueu o clube de Stamford Bridge e o levou aos quatro títulos da primeira divisão inglesa, além da desejada UEFA Champions League.

Caso semelhante ocorreu com o Paris Saint Germain (PSG), clube que, historicamente, nunca esteve entre os cinco maiores da França, apesar de seu período vitorioso na década de 1990 .

Em 2011, Nasser Al-Khelaifi, empresário e “embaixador” do Catar adquiriu o clube e o impacto foi imediato. Logo após sua chegada, o PSG trouxe o argentino Pastore do Palermo – ITA por 33,5 milhões de euros, valor recorde na época, futuramente superado pelo próprio clube em outras transferências.

Com o tempo, o clube passou a trazer outros nomes relevantes do futebol internacional com preços acima do mercado, como o sueco Zlatan Ibrahimovic, os brasileiros Thiago Silva e David Luiz e o uruguaio Edinson Cavani. O principal símbolo do poderio do clube francês, no entanto, veio nessa última janela de mudanças. A contratação da estrela da seleção brasileira Neymar Jr., por um valor de 222 milhões de euros (aproximadamente 820 milhões de Reais).

É verdade que, após a troca, alguns jornalistas questionaram a origem de tanto dinheiro. Poucos tentaram entender o porquê da transição do brasileiro. A próxima Copa do Mundo será na Rússia, em 2022, e quem melhor do que a nova contratação para ser o garoto propaganda? Menos ainda se preocuparam em relembrar as polêmicas envolvendo o dono do clube e a Copa em 2022. Al-Khelafi é acusado de lavar dinheiro com a empresa que controla o clube. Recentemente, saiu uma notícia em que o país do Oriente Médio era acusado de utilizar mão de obra escrava na construção de estádios e de ter comprado os votos para sediar o mundial.

Mesmo os veículos que questionaram a transferência, após uma semana, se juntavam à agenda do “desafio de Neymar” em jogar em um campeonato que o Madureira (clube do interior do Rio de Janeiro) teria sérias chances de não ser rebaixado.

Nenhum caso, no entanto, é tão significativo como o de outro clube inglês, o Manchester City. Historicamente um anão perto do rival United, o Manchester City, desde que foi adquirido por Mansour Nahyan – membro da família real de Abu Dhabi -, em 2008, o clube passou a ser um dos novos ricos e desde então passou a acumular títulos e polêmicas.  Desde o “naming rights” de seu estádio até problemas com o ex- dono do clube.

Fato é que, como outros novos ricos, o clube pratica valores acima do mercado em suas transferências, e enfrenta problemas com o “Fair Play” Financeiro, mecanismo da Federação de Futebol Europeia (UEFA) para evitar que clubes gastem mais do que arrecadam, a fim de impedir o uso das agremiações como ferramenta de lavagem de dinheiro. Os “Citzens”, apelido do clube, foram punidos em 60 milhões de euros em 2013, valor menor que muitas das transferências do clube, como a recente aquisição de Kyle Walker.

Caso “Chinesão”

Desde 2008, o governo chinês vem dando benefícios políticos a proprietários de empresas que investem no futebol. Esses empresários, principalmente donos de empreiteiras, passaram a comprar clubes e investir massivamente neles. Com valores muito acima do mercado, os chineses buscam trazer os melhores jogadores do mundo para o país, visando tornar o campeonato local um dos maiores do mundo. A aceitação do público e da mídia, no entanto, é bem menor do que nos casos europeus. A suspeita de lavagem de dinheiro é constantemente lembrada por torcedores e por, oras, jornalistas.

Diante disso, devemos pensar: por que a mídia é tão conveniente com os clubes europeus e tão cética com os chineses?  Essa indiferença para com a origem do dinheiro dessas equipes se transfere aos fãs de futebol. Ao comprarem as camisas desses clubes, não pensam se parte do dinheiro vai para instituições envolvidas em corrupção e trabalho infantil.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s