Até que ponto os reality shows são entretenimento?

por Ana Karoliny Barros

Entre se divertir com programas de TV e apoiar comportamentos nocivos, precisamos pensar no que estamos consumindo

Imagine o seguinte cenário: certa quantidade de pessoas confinadas em uma casa, sem contato com o exterior, por três meses; câmeras espalhadas por todos os cantos, monitorando cada movimento e comportamento dessas pessoas; e tudo sendo transmitido pela televisão da sua casa. Esse é o formato da maioria dos reality shows, programas televisivos que consistem em criar uma realidade mais próxima possível da vida real, fazendo com que os telespectadores imaginem como reagiriam a tal situação.

Envoltos em brigas, paixões, inveja, amizades, fama e competição, esse tipo de show desperta grande interesse no público, talvez por seus participantes serem pessoas comuns, o que dá a quem assiste a visão de representação.

John de Mol, idealizador dos reality shows The Voice e Big Brother, disse, em entrevista a revista IstoÉ, que esses programas são o espelho da sociedade. Considerando essa fala e o fator de identificação do público com as atitudes dos participantes, que conclusões podemos tomar sobre a nossa sociedade?

Na décima sétima temporada do Big Brother Brasil, exibido pela rede Globo, foi necessária a intervenção da polícia do Rio de Janeiro quanto ao relacionamento de dois dos participantes do programa, a estudante Emilly Araújo e o médico Marcos Harter. Na última briga do casal, a diretora da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher do Rio de Janeiro (DEAM), Marcia Noeli Barreto, determinou o registro de ocorrência e a solicitação das imagens para apurar as queixas de Emilly quanto aos machucados causados por Marcos.

Em uma das cenas mais marcantes, que gerou grande repercussão, Marcos encurrala Emilly contra a parede, enquanto grita e aponta o dedo para o rosto dela. Apesar desse ter sido o ápice, a jovem, sem se dar conta, já vinha sofrendo uma série de violências psicológicas sutis transmitidas em rede nacional.

”A tortura psicológica que ele pratica é considerada violência doméstica, se enquadra na Lei Maria da Penha. É assim que tudo se inicia. Ele não a ameaçou de morte, por exemplo, mas houve constrangimento tão forte, que ela ficou acuada”, disse Viviane da Costa Ferreira Pinto, delegada encarregada do caso, em entrevista ao jornal O Globo. Com a investigação, Marcos foi expulso da casa.

Em sua defesa, o participante escreveu e publicou uma carta em seu perfil pessoal no Facebook. Nela, ele não assumia culpa e muito menos pedia desculpas, mas sim enchia de floreios e romantizava sua relação com Emilly. Vestiu o papel de homem apaixonado e cego de amor, que ignorou todos os defeitos da moça, e mesmo assim foi traído. Característica típica de parceiros abusivos.

Recentemente, foi divulgada a suposta lista dos próximos participantes do reality show A Fazenda, realizado pela rede Record, na qual Marcos Harter seria um dos participantes e ganharia o maior cachê: 100 mil reais, sem contar os direitos em merchandising. Apesar do ocorrido no Big Brother Brasil, Marcos tem um grande fã clube, uma das razões por ele ter sido convidado a participar de A Fazenda.

A posição da emissora em convidar Marcos obviamente tem um objetivo financeiro. Ela aposta em um elenco composto por pessoas polêmicas como receita para alcançar um maior número de telespectadores. Assim como fez ao convidar Rafael Ilha – conhecido por ser ex-integrante do extinto grupo Polegar, ter envolvimento com drogas e apresentar um comportamento agressivo – para participar de outro reality show, o Power Couple Brasil.

Nessa mesma temporada, o Power Couple Brasil atingiu, pela primeira vez, a liderança na audiência, em um dos episódios que foi protagonizado por uma briga envolvendo Rafael Ilha e Ana Paula – outra participante. Ou seja, a emissora continua investindo nesse tipo de pessoa porque sabe que o público vai dar retorno, assistir, comentar e compartilhar nas redes sociais instantaneamente.

Voltemos à pergunta feita no início: considerando a fala de John de Mol e a identificação do público com as atitudes dos participantes, que conclusões podemos tomar sobre a nossa sociedade?

Mais uma vez, temos evidências do machismo enraizado e naturalizado, em que Marcos Harter, um homem que agrediu psicologicamente e fisicamente uma mulher, recebe tanta visibilidade a ponto de ser chamado a aparecer novamente em rede nacional. O investimento e a presença dele no programa reforça a cultura da banalização da violência contra a mulher, a passividade e o conformismo quando se trata do machismo, a impunidade e o medo que atinge todas as mulheres.

É realmente válido ganhar dinheiro com audiência, considerando que os comportamentos perpetuados por essas pessoas podem colocar em risco a segurança dos demais participantes e das mulheres fora do reality, já que tal atitude pode influenciar quem assiste?

Em tempos nos quais os movimentos sociais ganham força e tornam visíveis as suas lutas, até que ponto vai o apoio da mídia quando está em jogo o lucro? Convidar um participante com o perfil de Marcos Harter, e oferecer-lhe o maior cachê, não é apenas um “Investimento em um participante polêmico pra render audiência”, é um reforço e incentivo implícito a determinadas atitudes e ideais extremamente prejudiciais.

Mas, se por um lado a mídia ainda é palanque pra tal comportamento, a audiência é, de fato, plateia que acaba por nutrir seu desejo de entretenimento com comportamentos que em nada retomam a ideia de divertimento, e sim torna-se um embasamento para a naturalização de abusos que, por vezes, ceifam a vida de mulheres Brasil afora.

A qual tipo de conteúdo estamos sendo expostos e nos deixando expor? Afinal, tentar redimir um agressor, e possibilitar que essa redenção aconteça em rede nacional, é dizer de maneira implícita que perdoamos os dados cada vez mais crescentes de feminicídio no Brasil?

Em um país onde mais de 500 mulheres sofrem agressões físicas – cometidas por seus parceiros – por hora, sentar-se no sofá da sala e aceitar que a TV aberta nos ofereça misoginia como entretenimento, é fechar os olhos pra uma realidade que, por vezes, acontece do nosso lado, quando na vizinhança, no mesmo horário nobre do reality, alguma mulher é agredida pelo marido que acaba de chegar em casa.

O que anda nos entretendo? É a pergunta que fica no ar.

Um comentário sobre “Até que ponto os reality shows são entretenimento?

  1. Elba Simone disse:

    Pura realidade, quantas mulheres são agredidas não só fisicamente mais verbalmente. E sentamos em nossas salas dando audiência a um programa do qual expoente uma série de ações das quais exibem comportamentos ridículos.

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