Lente de aumento sobre jornalismo esportivo: por que atletas do gênero feminino são (re)tratadas de forma diferente?

Por Jackeline Spies

A mulher vem lutando a cada dia para conquistar espaço no ambiente profissional. No esporte, lugar tachado por parte da sociedade como predominantemente masculino, não é diferente. Nas primeiras Olimpíadas da Grécia Antiga, as mulheres eram proibidas de participar dos jogos sob pena de morte. Hoje, o empoderamento feminino se apresenta no cenário esportivo e enfrenta inúmeros obstáculos, dentre eles a representação midiática.

A diferença abrupta no tratamento que se dá à mulher e aos homens nos meios de comunicação não é novidade. Mas quando até o repertório de perguntas muda pelo fato de a entrevistada ser mulher, há um problema. A pergunta “como é seu treino?” passa a ser ocupada por “como você mantém sua beleza?”, por exemplo. E “como consegue ser mãe e atleta?” substitui “como é sua rotina?”. É curioso como é raro encontrar esse tipo de pergunta no repertório preparado aos homens. “Como concilia a paternidade e os treinos” pode até soar estranho.

Essa parte de entrevistas pode ser relacionada ao que acontece no tapete vermelho com, por exemplo, as roupas: os vestidos deslumbrantes das celebridades femininas sempre são o maior alvo dos repórteres, enquanto seu trabalho fica em segundo plano. Em paralelo, a vestimenta masculina, também diversa, não é, aparentemente, a pergunta primordial dos jornalistas. Então, de maneira natural, o “e como foi fazer esse filme tão trabalhoso” vira “e o que – ou melhor, quem – está vestindo hoje?”

O problema que assola as jogadoras também atinge outras profissionais da área do esporte. Quando paramos para analisar algumas coberturas ruins, que advém de uma reprodução do machismo sofrido nas redações, a realidade dessa diferença de abordagem começa a ficar mais clara. Um exemplo é a forma como as próprias jornalistas são tratadas, onde há relatos de assédio moral e sexual sofridos por essas profissionais da área esportiva.

A maneira como jornalistas esportivas são tratadas é um exemplo. Mayra Siqueira, repórter da Rádio Globo/CBN e comentarista do SporTV, em um depoimento dado em uma matéria do Uol sobre o jornalismo esportivo na TV, disse:

“Os xingamentos não são a coisa mais comum, em geral o problema são as cantadas e os comentários grotescos e sexuais. Mas já aconteceu de ouvir de “puta” pra baixo, especialmente nos estádios em que há maior proximidade com torcedores. Em geral, me calo. Já respondi uma vez, no Moisés Lucarelli. Cheguei a temer que os torcedores arrebentassem a grade para me agredir.”  

reporter-charissa-thompson-causou-polemica-nos-eua-apos-mudanca-na-cor-dos-cabelos-1479308748925_300x420Existe, ainda, uma padronização a ser cobrada quando a beleza da mulher é destacada. Na mesma matéria do Uol citada acima, há destaque no caso de Charissa Thompson, que enfureceu alguns espectadores da Fox Sports americana ao trocar a cor dos cabelos de loira para morena. A repórter afirmou que queria se livrar do “estigma de Barbie” e ser levada a sério, mas se arrependeu e voltou aos tons mais claros. Após as duas mudanças estéticas, a jornalista foi alvo de um noticiário sensacionalista do país e recebeu uma série de mensagens de ódio e preconceito na internet. 

Pode-se notar que as desigualdades não param apenas na diferença de salários, como mostra o caso da jogadora Marta, que quando foi jogar na Suécia ganhava R$ 3 mil reais. Em entrevista a revista Tpm ela disse: “As pessoas acham que o contrato das jogadoras que se destacam chega perto do contrato do Neymar, mas isso é fora da realidade do futebol feminino”.

A desigualdade se reflete quando a atleta é objetificada, assediada e diminuída, o que pode acontecer também por consequência de abordagens midiáticas. Até nos uniformes esportivos, os femininos não priorizam o conforto e a funcionalidade, mas parecem ser feitos apenas para agradar o público masculino e sexualizando ainda mais as jogadoras. Por que no vôlei de praia, por exemplo, as mulheres usam biquínis cavados enquanto os homens camisetas e shorts largos? O jogo, em si, se torna coadjuvante e o corpo feminino é o verdadeiro espetáculo.

Uma matéria de O Globo, em que é apresentada uma das jogadoras de futebol americano, Ângela Rypien (atleta “musa” do futebol americano, como é descrita), começa com o texto assim: “Uma morena alta, de longos cabelos escuros, formas generosas e perfeitas, em plena forma e dona de um olhar determinado, de quem sabe o que quer e onde deseja chegar. Poderia ser a descrição de uma artista ou uma top model internacional, mas é um pouco do que se percebe ao ver as imagens de Angela Rypien, de 21 anos, a quarterback (armadora) do time do Baltimore Charm, da Legends Football League (LFL).” 

Como em muitos outros pedaços de entrevistas ou matérias sobre esportistas mulheres, o conteúdo do trecho citado acima gira em torno de beleza, corpo e características femininas que acabam se sobressaindo aos treinos pesados, medalhas, campeonatos, suor e o que realmente faz um atleta profissional – que deveria estar em foco também quando se trata de uma atleta mulher.

A falta desse foco deixa a mulher cada vez mais invisível profissionalmente. Traz à tona diversas discussões que envolvem o fato de que a beleza não pode ser a única característica a se falar nas notícias a respeito da mulher e que a mulher que faz notícia no esporte também tem seu lugar de respeito.

O porquê de toda essa divergência explícita nas notícias, na TV, nos jogos e até nos uniformes das jogadoras necessita de uma análise, para que não pareça, dessa forma, que a mídia realmente só tenha uma lente para as atletas. Pois há outros ângulos conquistado por muitas dessas esportistas, como o enorme esforço e dedicação para atingir classificações, campeonatos, medalhas e tantas vitórias que não fazem as atletas apenas musas para medir beleza.

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