Ode à representatividade feminina: primeiros passos rumo ao protagonismo

Por Fernanda Gonçalves

Através dos séculos, mulheres vêm sendo representadas, na maioria das vezes, como coadjuvantes na história e na mídia. Uma pesquisa realizada pelo Center For The Study of Women in Television and Film (Centro para o Estudo de Mulheres na televisão e no cinema, em tradução livre) indica que somente 29 dos 100 filmes de maior bilheteria em 2016 tiveram uma protagonista feminina. Nos livros de História, o cenário não é muito diferente: raras exceções de mulheres são conhecidas por seu protagonismo, como Joana D’Arc, princesa Isabel e Cleópatra. Todavia, com a ascensão de movimentos feministas e maior liberdade informacional, a mídia vêm pouco a pouco realocando-as na História.

Em Novo Mundo, atual novela das 18h da Rede Globo, a imperatriz Leopoldina, interpretada por Letícia Colin, vai de desencontro à normalidade feminina imposta pela sociedade, ao representar, em rede nacional, uma mulher do século 19 como líder tão importante quanto o marido, D. Pedro I. Até a última década, grandes nomes da independência brasileira eram masculinos, como o imperador e José Bonifácio.

Leopoldina só se destaca no meio acadêmico com a publicação de biografias. Dois exemplos são D. Leopoldina: A história não contada: A mulher que arquitetou a independência do Brasil (2017), de Paulo Rezzutti, e A Biografia Intima de Leopoldina: a Imperatriz que conseguiu a independência do Brasil, de Marsilio Cassotti. Ambos secundarizam a ideia de esposa traída e dão novas luzes à nobre. Hoje, seu protagonismo aparece na sociedade e nas casas brasileiras a partir da novela. “Acho que tem a ver com o fato da Leopoldina ter sido uma mulher que se doou para o Brasil”, justifica Letícia Colin para a revista Quem.

Leopoldina já ganha apelidos nas mídias sociais, como Princesa Leo. Sua história se torna assunto para conversas diariamente, assim como movimentações na internet pedem alteração na trama para o fim trágico da princesa. A causa da morte é incerta, mas se suspeita de depressão em decorrência da morte do filho e das traições de D. Pedro I. Clama-se, ainda, por uma presença mais significativa dela nos livros e aulas de história.

O que poucos sabem é que, mesmo com a República, o Brasil continua a ter uma Casa Imperial. Em entrevista à revista Donna, A atual princesa do Brasil, Paola de Orleans e Bragança, , afirma que “é muito lindo ter essa história por trás e poder me inspirar nisso” e ressalta a relevância da princesa:

“Dona Leopoldina foi quem assinou a Independência do Brasil, e ela era defensora dos direitos das mulheres, sendo negras ou não, escravas ou não. Ela tinha uma visão muito avançada naquele tempo, e isso tem me inspirado muito – já que tenho uma posição um pouco melhor na mídia – em poder fazer isso também.”

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Obra de Giorgina de Albuquerque. Sessão do Conselho de Estado que decidiu a Independência, 1922.

Como já apontado pelo SOS Imprensa, novelas tem grande poder sobre a população brasileira. Não dá para se negar que, num país como Brasil, no qual a educação básica é precária, a novela precisa ter cuidado com a personagem, podendo a trama ser encarada como aula de história. Isso pode levar à crença de que todos os fatos são verdade absoluta, não ficção. Contudo, novelas são produtos culturais. Mesmo que detenham licença poética para alterar os rumos da trama e inserir personagens, a emissora e os autores tem liberdade de aproveitar sua posição de palco como meio educativo.

O indicado ao Oscar de Melhor Filme, em 2016, Estrelas Além do Tempo, é outro exemplo de representatividade positiva. A trama se passa na década de 1960, período da corrida espacial da Guerra Fria. Conta a história de três mulheres negras e cientistas apelidadas pela Agência Espacial Americana de “computadores humanos”. Elas colaboraram imensamente para a conquista espacial norte-americana, mas foram apagadas da história não só pelo seu gênero, como também pela supremacia racial existente no país na época.

Em entrevista para o site da Universidade Duke, na qual leciona, a física americana Ayana Arce reforça a ideia e o sucesso do filme, pois acredita que ajuda a encorajar o posto feminino nas ciências. “Quando mulheres e minorias, especificamente, interpretam papéis em matemáticas e ciências no cinema, colabora com mudar o que as pessoas acham sobre quem pode ter esses tipos de carreiras”, diz ela.

A atriz principal do longa-metragem, Taraji P. Henson, reitera que não conhecia a história dessas mulheres até ser cotada para o papel. “Eu não sabia que essas mulheres existiam. Cresci em uma época que matemática e ciências eram para garotos, então eu ficava no fundo da sala de aula quando era aula de matemática ou ciências porque isso era o que se entendia até então”, disse Henson para o E! News.

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Dorothy Vaughan, Katherine Johnson e Mary Jackson, as cientistas representadas em Estrelas Além do Tempo. Foto: Getty Images.

A movimentação para a representatividade feminina de mulheres desconhecidas da história não ocorre só nas grandes mídias. No Facebook, existem páginas como Mulheres Importantes na História e Mulheres na História da Arte que contam  a história de cada mulher em pequenos textos. Há, também podcasts, como o do site Mundo Freak Ponto G, que seguem a linha dessas páginas, mas em áudio.

O título original do filme Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, em tradução livre, Figuras Ocultas) sugere o poder que a mídia tem para colocar na história mulheres que não tiveram essa oportunidade. De fato, o caminho é longo e, muitas vezes, parece que retrocede, mas é papel nosso, como cidadãos, apoiar essas novas abordagens e cobrar por mais delas. O tempo certo de se dar crédito para personagens como as do filme ou para Leopoldina, por exemplo, esquecidas historicamente, não passou. Usá-las para entendermos o passado e inspirar o futuro é o mais inteligente que nós como sociedade podemos fazer.

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