Jeitosinha e o cinema na contramão da evolução

Por João Miguel Bastos

Filmes em um único plano sequência, flash mob realizado em praça pública, pessoa vestida de palhaço parada no meio da rua e alguém vestindo camiseta com o rosto do Naldo Benny pintado pelo Romero Britto. Tudo isso chama atenção. Em uma quarta-feira da 50ª edição do Festival de Cinema de Brasília, um longa-metragem despertou os olhares.

O filme em questão é Jeitosinha, dirigido por Johil Carvalho e Sérgio Lacerda. Conta a história de uma família interiorana, cujo patriarca sonhava em ter uma filha. Após vários filhos homens, a esposa estava grávida mais uma vez. Ao dar à luz, a mãe percebe que a criança tem um pênis, mas decide criá-la como menina, escondendo o “pequeno segredo” da criança do resto da família.

É em torno desse segredo que o filme se passa. Nem a própria Jeitosinha — que é o nome da personagem principal — sabe que tem um órgão sexual masculino. Ela é criada como menina e se enxerga como tal. Em certo momento do filme, ao ter a sua primeira relação sexual — com um homem —, entende que deveria possuir uma vagina, por ser mulher. Esse é o pretexto para a maioria das piadas do filme. O que impressiona é a irresponsabilidade com que o filme trata a questão da transexualidade no país onde mais se mata travestis e transexuais em todo o mundo.

Ainda que com um humor rasteiro e extremamente caricato, o longa arrancou risadas do público durante a exibição no festival. A reação da plateia preocupa, já que demonstra conivência e certa despreocupação com a realidade trans no Brasil. Em determinado momento, gritaram, durante a exibição do filme, que transexualidade não é engraçado. De nada adiantou, já que o comentário passou despercebido pelo grande público.

Chama atenção o filme ter ganhado financiamento do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) e, também, Jeitosinha ter sido selecionado para exibição na Mostra Brasília do Festival. Afinal, esse é o retrato do cinema brasiliense?

Ao final da obra — alerta de spoiler, para o caso de alguém ainda querer assistir ao longa — Jeitosinha conquista o amor de Bruno, primeiro homem com quem teve algum tipo de relação íntima. Bruno foi o maior responsável por fazê-la querer uma cirurgia de redesignação sexual. O filme acabou aplaudido por parte significativa do público no Cine Brasília.

Sem dúvidas, Jeitosinha chamou atenção. Após assistir ao filme, trajar o rosto de Naldo pintado por Romero Britto não parece tão ruim. Não é exagero dizer que o longa é ainda mais chulo do que essa comparação. O cinema brasileiro realiza grandes obras, mas, enquanto o público continuar a aplaudir filmes rasos e preconceituosos, mais “Jeitosinhas” serão produzidos.

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