Em tempos de Instagram, cada clique é notícia

Por Melissa Duarte

Talento, aptidão, ensaios. Novelas, séries, filmes, shows, desfiles, dinheiro. Qual a fórmula de sucesso para celebridades? Não é novidade que elas sejam produtos midiáticos e ganhem fama e visibilidade. O trabalho e, mais ainda, a vida pessoal dos artistas geram interesse no público. Flashes, câmeras e fotos são causa e consequência dessa exposição — e as mídias sociais têm papel fundamental nisso. Dessa maneira, não são raras matérias de fofoca sobre eles. Porém, até que ponto podem ser consideradas notícias?

Facebook e Twitter são as ferramentas pelas quais as pessoas mais acessam notícias. Paralelamente, Instagram nasceu em 2010 e vem crescendo muito ao longo dos anos. Assim, desponta como uma das maiores mídias sociais: 700 milhões de usuários, sendo 45 milhões no Brasil, segundo dados da própria empresa. A plataforma revoluciona não só o modo de produzir celebridades — com blogueiras e influenciadoras digitais — mas passa a reformular o chamado jornalismo rosa, que trata do universo dos famosos, e lhes dá poder para decidir o que, como e quanto se expor na mídia.

Diferentemente de anos atrás, cada vez menos notícias desse tipo surgem de flagras de paparazzi. Se a exposição de Paris Hilton, Britney Spears e Lindsay Lohan vinha deles na década de 2000, a das irmãs Kim, Khloé e Kourtney Kardashian e Kendall e Kylie Jenner vem do reality show Keeping Up With The Kardashians, do canal E! News, e de seus perfis no Instagram.

Muitas matérias se tornaram icônicas pela falta de relevância e de noticiabilidade e se elevaram à categoria meme. Quem não se lembra de Caetano Veloso estacionando o carro no Leblon, do Terra, ou de Thiago Lacerda repetindo bermuda na praia, do Ego? A situação extrapolou a fofoca e chegou às fake news. É o caso da famosa manchete “Carol Nakamura afirma estar contente: ‘Estou contente’”. A notícia falsa se propagou pela internet, virou meme e foi creditada ao Ego, mas nasceu de uma conta falsa do portal no Twitter.

Se, antes, capas de revista davam grande visibilidade aos famosos, hoje, as mídias sociais suprem muito bem  essa demanda. Gisele Bündchen ficou famosa graças à sua primeira capa, na Capricho, em 1995, ao passo que as irmãs Kendall e Kylie Jenner e Bella e Gigi Hadid construíram a carreira na moda com base no sucesso e no número de seguidores no Instagram — juntas, somam 232 milhões — nos últimos anos.

Por isso, vale lembrar, também, que a ascensão do Instagram levou gradativamente à queda de veículos de notícia de celebridades e, consequentemente, a um menor número de empregos para jornalistas na área. No entanto, a popularização das mídias sociais não representa o fim do jornalismo, mas sua transformação — cada vez mais multimídia e inseparável de Facebook, Twitter e Instagram. Assim, é preciso repensá-lo; não se pode fazê-lo como há dez anos.

Além disso, é fato que brasileiros, geralmente, se expõem mais que estadunidenses, o que diminui, mas não exclui, a chance de haver furos de reportagem e notícias inéditas sobre famosos no Brasil — Leo Dias consegue em sua coluna n’O Globo. Se o jornalismo não traz novidades e conteúdos que envolvam o público, perde leitores e lucro.

Ego deixou de ser publicado em abril e a revista Quem Acontece se tornou exclusivamente online desde agosto. Enquanto isso, a revista americana People e o site TMZ coexistem bem com as mídias sociais, são lucrativos, e trazem, ainda, conteúdos especiais e novidades sobre artistas, como a gravidez de Kylie — um verdadeiro furo de reportagem do TMZ.

Revistas tradicionais de moda e beleza, como Capricho, Vogue e Glamour, vêm baseando parte de seu conteúdo em publicações de artistas, blogueiras e influenciadoras digitais no Instagram. Nesse contexto, o perfil da Marie Claire republica postagens de famosos em formato de mini-notícia. Grandes expoentes do jornalismo rosa, Quem e Caras intensificam o processo. Portais como Pure People e Blasting News trabalham exclusivamente nessa linha e complementam a notícia com fatos anteriormente publicados sobre a celebridade em questão.

Marina Ruy Barbosa cresceu como atriz, mas já atuou como modelo, designer de joias e é uma das garotas-propaganda brasileiras mais bem pagas, também, no Instagram. Com 20,1 milhões de seguidores, é a 3ª com mais público nessa mídia no Brasil. Por isso, várias de suas publicações originam notícias e alimentam fofocas. O casamento com o piloto da Stock Car Xandinho Negrão é um dos assuntos mais comentados, enquanto os trabalhos e conquistas profissionais ficam em segundo plano. Se fosse um homem, perguntariam mais sobre a nova novela ou um relacionamento amoroso?

A Glamour publicou a manchete “Marina Ruy Barbosa rouba a cena em casamento com vestido rosa”. A matéria, que só possui dois parágrafos, resume a atriz à própria beleza, não possui fala ou entrevista dela e todas as fotos foram reproduzidas de seu perfil. A apuração não vai além do que se encontra nele: não se sabe de quem é o casamento ou onde foi realizado, por exemplo. Apesar disso, por que tais informações são relevantes a ponto de se tornarem notícia?

Giovanna Ewbank, Chanel Iman, Chiara Ferragni, Paris Hilton e Kendall Jenner. O que essas celebridades têm em comum? Bastou que usassem um vestido muito parecido e que Giovanna publicasse uma foto no Instagram na quarta-feira (20) para que Glamour realizasse uma matéria. A revista indicou a coincidência com fotos de cada uma num texto informal, levando as leitoras à comparação sobre quem vestiu melhor. Mais uma vez, não se fala sobre trabalhos e conquistas profissionais; tudo se resume à beleza, o que acaba por reforçar os padrões estéticos da mídia.

Já Nikki Reed (Rosalie Hale, de Crepúsculo) e Ian Somerhalder (Damon Salvatore, de Diários de Vampiro) costumam ser um casal mais reservado. No entanto, protagonizaram uma polêmica na sexta-feira (22) quando deram entrevista sobre a gravidez da filha, Bodhi, ao podcast Dr. Berlin’s Informed Pregnancy (Gravidez informada do Dr. Berlin, em tradução livre). Em vídeo, o ator descarta todas as pílulas da esposa na privada durante uma viagem à Barcelona. Diversos veículos noticiaram a história e o assunto tomou conta das mídias sociais.

O título da Capricho, “Ian Somerhalder jogou fora anticoncepcional de Nikki Reed”, já prende a atenção dos leitores. A matéria traz falas apenas de Ian, retiradas do podcast, e não problematiza o contexto da gravidez. Como veículo voltado para adolescentes, deveria ter maior responsabilidade social com o conteúdo. Todavia, tenta justificar a atitude com o fato de serem casados e não levanta o debate sobre maternidade compulsória, liberdade de escolha da mulher e relacionamento abusivo, por exemplo. A Quem mostra um trecho da resposta da atriz no Twitter — pode ser conferida, na íntegra, no perfil dela —, mas também não aborda os tópicos acima.

É necessário lembrar, contudo, que a administração de um veículo influencia, também, em seus ganhos financeiros. O jornalismo vive tempos de crise, com menor número de profissionais e maior concorrência com mídias sociais, porém, nesses momentos, surgem soluções criativas e inovadoras. Encontrar o caminho para a coexistência saudável e, mais do que isso, usar essas mídias a seu favor e trazer novos olhares para entrevistas e abordagens para matérias, por exemplo, se mostram boas opções.

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5 comentários sobre “Em tempos de Instagram, cada clique é notícia

  1. MÁCIMO DUARTE disse:

    Quase nada mais é tão contemporâneo. E é por não mais existirem fins de mundo onde tais atualidades não sejam disponibilizadas que é tão objetivo esse olhar crítico/analítico. Parabéns!!!

    Curtido por 1 pessoa

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