Manic Pixie Dream Girls: idealização masculina no cinema

Por Beatriz Castro

A produção cinematográfica ainda é um ambiente muito masculino. Isso explica porque representação feminina nos produtos audiovisuais, muitas vezes, segue um estereótipo irreal e inalcançável. Antigamente, as personagens se pautavam pela linha femme fatale. Como os gostos mudaram, o padrão de referência fantasioso também se modificaram. Agora, as idealizações masculinas se condensam nas Manic Pixie Dream Girls (MPDG).

Com certeza, você já se deparou com este enredo: um personagem se encontra em meio de uma crise existencial e, magicamente, aparece outra disposta a fazê-lo viver várias aventuras, mudar completamente sua perspectiva sobre o mundo. Logo após, ela sai de sua vida, deixando apenas um grande ensinamento. Essa sinopse descreve a principal característica das MPDG: elas existem apenas para dar sentido à jornada do protagonista, sem aprofundamento ou traços de personalidades reais.

Nas obras, as Pixie Girls não são tidas como referência de beleza, apesar de seguirem todos os padrões estéticos. Elas atiçam a curiosidade do protagonista exatamente por sua “estranheza”. São vistas como mulheres excêntricas e com gostos peculiares, capazes de transformar completamente a jornada do herói, mas nada além disso.

O termo foi usado pela primeira vez pelo crítico Nathan Rabin, em 2007, para descrever o padrão observado no papel de Kirsten Dunst em Tudo Acontece em Elizabethtown, assim como em tantas outras criações femininas do cinema. No longa-metragem, o protagonista Baylor perde o emprego e descobre que o pai faleceu. Em viagem para a cidade natal, onde ocorrerá o enterro, conhece a aeromoça Claire, reconhecida pelo jeito peculiar e alegria quase excessiva. Mesmo sem conhecê-lo, ela se esforça para organizar uma jornada de autoconhecimento para ele e, depois, nunca mais encontrá-lo, deixando-lhe apenas reflexão.

Uma das principais expressões de MPDG na atualidade é a personagem Summer, de 500 Dias Com Ela. No filme, o protagonista Tom acredita que os gostos pessoais e as características aparentemente singulares dela sejam um indicativo de que devem ficar juntos, sem levar em consideração os sentimentos da moça. Após ter as expectativas desoladas, ele narra sua jornada para superá-la e a lição que aprendeu, até o momento em que conhece outra mulher e recomeça o ciclo da idealização.

As MPDG, inicialmente, foram entendidas como alternativa para fuga dos padrões. Na realidade, representam uma adaptação de idealizações masculinas, que continuam orientando a representação feminina nas artes até os dias atuais. Apesar de não tratar apenas de valores estéticos, mas de um conjunto de características ainda assim, superficiais , a falta de profundidade dessas personagens mostra a dificuldade masculina em enxergar mulheres como pessoas completas e autônomas. A ideia de “lição passageira” que esses filmes atribuem a elas contribui para a desvalorização feminina por parte dos homens e para a objetificação da mulher.

Apesar de o termo ter surgido como crítica, passou a ser usado de forma positiva por pessoas de dentro e de fora da comunidade artística, e a ser entendido como referência de comportamento. Mulheres reais começam a tentar reproduzir o modelo estabelecido pelas MPDG, que, na verdade, são irreais. Assim, além de acentuar os problemas de autoestima gerados na comunidade feminina devido às expectativas inalcançáveis, esses padrões as induzem a diminuir, cada vez mais, sua expressividade social, para que possam alcançam a superficialidade tão exaltada pelo cinema.

 

 

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