Arte drag na cena brasileira

Por Larissa Lins e Victor Cesar

Expressão artística que existe há séculos, a arte drag tem ganhado grande destaque midiático ultimamente. O termo drag vem de dressed resembling a girl, que significa “vestido como uma menina” e existem registros do uso do termo desde 1870. Apesar de ser muito presente na militância LGBT+ (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais etc) nacional — com ícones como Rogéria, Márcia Pantera e Silvetty Montilla –, apenas recentemente a performance passou a ser divulgada de forma positiva em grandes programas de TV, como RuPaul’s Drag Race, da Logo TV, e Amor & Sexo, da Globo.

A cantora Rogéria era conhecida por suas participações em novelas, como Tieta (1989-1990), da Globo, enquanto a personagem de Jorge Lafond, Vera Verão, ficou famosa em A Praça é Nossa e programas de Silvio Santos, ambos do SBT. As aparições mais frequentes eram em humorísticos, nos quais quase sempre usavam drags como motivo de risada em piadas homofóbicas e transfóbicas. Contudo, nem todas eram pejorativas.

Em Tieta, novela considerada muito inovadora para a época, Ninette, personagem de Rogéria, causa alvoroço ao chegar à pequena cidade de Santana do Agreste. Uma situação marcante é quando é assediada por um morador da cidade: em vez de aguentar calada como era esperado, ela se defende e impõe respeito.

Amor & Sexo, por exemplo, é um programa que tem pautado questões de gênero e sexualidade com frequência. Apresentado por Fernanda Lima, já exibiu transformações de homens héteros em drag queens, abordou a questão LGBT+ e trouxe drags queens e artistas queer, como a cantora Liniker, no ano passado.

Em tempos nos quais o Brasil é onde mais se mata LGBT+ no mundo, o programa é tido como progressista em assuntos de sexualidade. Entretanto, essas pessoas enfrentam o preconceito há muito tempo. Logo, vale pensar no porquê de essas questões serem abordadas apenas agora e do interesse que existe por trás da veiculação deste conteúdo.

Desde a Antiguidade, passando por peças de Shakespeare até a contemporaneidade, homens se vestiam como mulheres para poder interpretá-las. Foi só a partir do século XX que, além de arte, a prática drag alcançou seu cunho político, especialmente depois da Revolta de Stonewall (1969).

O que era uma operação policial violenta para prender pessoas LGBT+, acontecimento comum na época, se tornou uma revolta espontânea, que deu início a esse movimento, protagonizado por drag queens, quando frequentadores do Stonewall Inn, bar gay em Manhattan, resistiram à prisão. As mulheres transgênero e drag queens Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera foram as primeiras a lutar contra a polícia e são creditadas como vanguardistas na causa LGBTQ por suas ações naquela noite. Hoje em dia, mantém o lado político, porém, a perspectiva artística extrapolou a imitação feminina e a performance.

Atualmente, mantém o lado político, porém, a perspectiva artística extrapolou a imitação feminina e a performance: elas usam o drag como diferencial para se lançarem em outros mercados, principalmente o fonográfico, a fim de inserir a cultura LGBTQ em gêneros musicais majoritariamente heterossexuais. No Brasil, os exemplos são vários: Lia Clark, Aretuza Lovi, Glória Groove e, sobretudo, Pabllo Vittar.

O cantor maranhense começou cantando paródias de músicas conhecidas e foi convidado a trabalhar como um dos cantores principais de Amor & Sexo, mas alcançou a fama com o álbum de estreia Vai passar mal e as colaborações com artistas conhecidos na música pop, como Anitta e o grupo de DJs americanos Major Lazer. Além da música, Phabullo Rodrigues da Silva, seu verdadeiro nome, usa o alter ego para combater a homofobia por meio da visibilidade que dá para os LGBTQs, abordando pautas pertinentes ao movimento de forma acessível ao público, em sua maioria, jovens.

Anterior aos artistas da música, um dos maiores mercados brasileiros para drag queens é o humorístico. Uma das mais conhecidas artistas deste meio é Nany People. Humorista, atriz, apresentadora e repórter de TV, Nany começou a carreira como stripper até ascender no mercado de entretenimento, quando participou do Programa da Hebe e d’A praça é nossa, ambos do SBT. Contracenou com grandes nomes da cena drag, como Silvetty Montilla, que tem grande importância no ativismo LGBTQ brasileiro e apresenta, atualmente, um concurso no YouTube, chamado Academia de Drags.

Muito da visibilidade atual dessa comunidade no Brasil se deu com a popularização do programa de RuPaul. A atriz e cantora é considerada a maior drag da atualidade. Dona de um reality show com nove edições e estrela de dez discos, ela é uma das drag queens mais conhecidas no mundo e usa o programa como plataforma para difundir a arte.

A ideia é apresentar outras transformistas ao mundo pela dança, comédia, música, atuação e tudo o que seria requerido da próxima estrela drag dos Estados Unidos. Bordões, memes e músicas relacionados a ele são massivamente reproduzidos na internet. O programa é uma febre entre o público e traz várias questões sobre identidade de gênero e cultura LGBTQ.

Apesar de toda a representatividade, o preconceito também vem à tona quando figuras como Pabllo ocupam lugares relevantes na mídia tradicional. Vários comentários maldosos e memes circulam na internet com o propósito de difamar e destilar preconceito contra esses artistas. O caso mais recente foi a invasão à sua conta no YouTube por hackers que excluíram o clipe de K.O e colocaram foto do deputado Jair Bolsonaro no perfil. Felizmente, o clipe foi recuperado e, agora, atinge o marco de 180 milhões de visualizações.

Drag transcende verdades e indagações sobre identidade sexual e de gênero. Satiriza papéis de gênero impostos pela questão biológica e brinca com construção de identidades tidas como masculinas ou femininas. Busca, além do ativismo na pauta da diversidade, quebrar e alterar completamente concepções, ajudando a difundir e construir uma cena fortalecida. A arte drag resiste.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s