O quê que a blogueira tem?

Por Ana Luisa Araujo

Não é a primeira vez que falamos sobre Instagram aqui no SOS Imprensa. Mesmo que a maior parte do nosso foco esteja nele, o tema não pertence exclusivamente a ele. Famosos sempre influenciaram a vida das pessoas, mas, com a internet e as mídias sociais, passou a acontecer de forma mais ampla. Outros personagens apareceram e ganharam visibilidade nos últimos anos e é deles que vamos falar no texto de hoje. Deles não, delas: as blogueiras.

Ser influente atingiu um novo patamar. Para ditar tendências atualmente, você não precisa ser atriz ou cantora, como necessário há alguns anos. As blogueiras, que não necessariamente têm blog, provaram que, para influenciar, é essencial, basicamente, ter muitos seguidores e falar sobre moda, beleza e/ou vida saudável, por exemplo, seja no Instagram, seja no YouTube.

Pagas por marcas para fazer publicidade ou publipost (postagem publicitária, em tradução livre), elas, em sua maioria mulheres, inspiram pessoas ao usar o Instagram, postando fotos e algumas delas usam YouTube para publicar vídeos sobre os temas que abordam. Mas até que ponto essa influência é positiva?

No fim de agosto, saiu uma notícia no O Globo e em outros jornais sobre o novo reality show que a blogueira fitness Gabriela Pugliesi teria sobre sua rotina. Na época, o projeto contava com autorização da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e apoio da Lei Rouanet, que permite às empresas dar suporte financeiro a iniciativas culturais.

Discordando da utilização de recursos públicos para este tipo de produto midiático, 30 mil pessoas assinaram uma petição online para o cancelamento da atração. Poucos dias depois da recepção negativa, Pugliesi desistiu do programa.

Acusada de encorajar transtornos alimentares ao incentivar seguidoras a comer chocolate e cuspir; comer nua em frente ao espelho para ficar com vergonha da própria gordura e desistir de comer; tirar nudes e combinar com uma amiga para espalhar a foto caso engorde, Gabriela Pugliesi exerce profissões de nutricionista e educadora física sem diploma. Mesmo assim, ainda tem quase 4 milhões de seguidores no Instagram, por postar sua rotina fitness e dar dicas de como manter uma vida saudável.

Em fevereiro de 2015, o caso da blogueira fitness mirim Anna Clara Lagares Mansur provocou polêmica na mídia pelo fato de a criança ir à academia com apenas nove anos, contando com apoio dos pais. Noutras palavras, até que ponto a vida dessas produtoras de conteúdo influencia a de outras pessoas? Até uma menina de 9 anos querer se tornar uma delas.

Em fevereiro, o portal iG fez uma matéria abordando todas essas questões polêmicas de blogueiras fitness, com o questionamento: “Há um limite para a atuação das musas fitness?”. Isso mudou até mesmo para jornalistas de entretenimento, que hoje podem usar o Instagram e fazem, frequentemente, divulgação de marcas. É o caso de Hugo Gloss, Fernanda Catania, mais conhecida como Foquinha, e Carol Moreira.

Quanto às famosas de moda e beleza, elas também têm grande responsabilidade. É só perceber como a maioria dessas influenciadoras digitais tem cabelo curto, loiro da metade do comprimento para as pontas e cacheado com baby liss e como cada vez mais eles vêm sendo reproduzidos por mulheres comuns. O que tem de errado? Um dos problemas com padrões de beleza é que nem todos tem o mesmo biotipo, nem todos podem seguir um padrão.

Blogueira de beleza e fitness, Mariana Sampaio publicou uma foto com a legenda “tentando dar uma secada, essa semana engordei 3 kg”. Ela, ao que parece, não precisava emagrecer. Após muitos comentários, mudou a legenda. No tuíte abaixo, é possível ver como blogueiras atingem negativamente as pessoas com padrões que, ocasionalmente, só existem no mundo delas. Ser magra é comum para elas, mas na vida real reflete uma quantidade mínima de mulheres.

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Não há só um lado negativo. Blogueiras de beleza são aplaudidas por suas seguidoras, com comentários mostrando o quanto ajudaram essas pessoas a melhorar a própria autoestima, a partir, por exemplo, de dicas e vídeos sobre maquiagem, que as ensinam e ajudam a se sentir melhor consigo.

Em síntese, blogueiras têm diversas oportunidades de fazerem a coisa certa, de influenciarem e incentivarem as pessoas. Instagram é o universo delas, mas é necessário tomar cuidado. A ideia é usá-lo da melhor maneira para não reforçar padrões que, pouco a pouco, vêm se desconstruindo e não incentivar transtornos alimentares, como é o caso de Gabriela Pugliesi.

 

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