Mídia como difusora de preconceito

Por Beatris de Deus

Até quando telejornais e novelas serão utilizados como meios de propagação do racismo. É inegável que eles façam parte da cultura dos brasileiros. Entretanto, é evidente também que, apesar de serem consumidos por pessoas das mais variadas classes sociais, ainda são produzidos de acordo com padrões retrógrados e discriminatórios.

Está previsto no Art.7° do Código de Ética da Radiofusão Brasileira que “os programas transmitidos não advogarão discriminação de raças, credos e religiões, assim como o de qualquer grupo humano sobre o outro”. Todavia, não é preciso ser estudioso da mídia para notar a abordagem tendenciosa em relação aos crimes de ódio contra negros, que são encarados como fatos isolados, levando o público a entender que preconceito não faz parte da cultura brasileira.

Ao analisar esses veículos com mais atenção, é possível reparar, também, que são apresentados, em sua grande maioria, por jornalistas brancos. É de se esperar que, como integradora social, a mídia promovesse igualdade. Porém, os meios de comunicação utilizam sua grande influência para fomentar, de maneira “sutil”, o preconceito racial.

Não é novidade, ainda, que telenovelas possuem grande influência sobre o comportamento do público. As pessoas vestem as roupas que são usadas pelos personagens dela, por exemplo. E independentemente do estado brasileiro em que vivem, tomam para si gírias dos heróis de televisão. Os anos passam e, infelizmente, o preconceito se mantém de pé. Os atores negros que participam de telenovelas são, raras algumas exceções — como Lázaro Ramos e  Taís Araújo –, colocados em papeis secundários e terciários.

Esses personagens possuem estereótipos racistas, sendo retratados como escravos, malandros, que estão sempre bebendo, sambando e vivem alheios ao contexto social em que estão inseridos. As mulheres, por sua vez, são vistas como objetos sexuais. Levando em consideração esses aspectos, é possível observar que ambos os sexos são colocados constantemente em situações inferiores tanto intelectualmente quanto socialmente na ficção.

Segundo a pesquisa “A Raça e o Gênero nas Novelas dos Últimos 20 Anos”, realizada pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares de Ação Afirmativa (GEMAA) da IESP e UERJ, nas novelas da Rede Globo, cerca de 90% dos personagens são representados por atores brancos e 10%, por pretos ou pardos. São proporções ultrajantes, considerando que a população brasileira é majoritariamente negra: de acordo com dados do Instituto de Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), negros e pardos somam 54% da população brasileira.

Nesse contexto, fica claro que o racismo nunca acabou, apenas mudaram as formas de discriminação. A sutileza dos meios de comunicação em demonstrar o preconceito é um reflexo da sociedade, que ainda é, nos dias atuais, fundamentada no senso comum. Quanto mais os negros vão precisar lutar para se inserirem no espaço que é deles por direito?

 

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