Simbolismo por trás dos comerciais de brinquedos

Por Ana Karoliny Barros

Brincar de ser mãe é apenas brincadeira ou ensaio para um futuro premeditado pela sociedade?

“Por trás de cada pequena, há uma grande mamãe” é o slogan das bonecas Little Mommy, da Mattel. Assim como em outras marcas de brinquedos, as bonecas dessa linha se caracterizam por se assemelharem e terem as necessidades de uma criança real, como, por exemplo, aprender a andar de bicicleta, a usar o banheiro ou precisar de alguém que as ponha para dormir e dar comida. Para isso, elas contam com a ajuda das “pequenas mamães”.

Considerando que os brinquedos representam a sociedade na qual estão inseridos, eles carregam consigo símbolos ligados à cultura e têm certa responsabilidade em apresentar os códigos sociais às crianças para incluí-las na comunidade. Sendo assim, assumem caráter não só de entretenimento, mas também educativo.

A psicologia explica que a brincadeira para a criança é tão importante quanto o trabalho para o adulto. Ela não é apenas um passatempo, porém, é de grande importância para o desenvolvimento infantil. Estimula socialização, linguagem, coordenação motora e criatividade, desenvolve autonomia, memória e, principalmente, aprendizagem de papéis sociais.

A ideia da linha Little Mommy, assim como as outras, surge do estereótipo de que maternidade e domesticidade são características inatas à mulher e, para as meninas “mamães”, são como um treinamento para o futuro que lhes aguarda. Por serem veiculadas em canais da televisão aberta, as publicidades desses brinquedos acabam sendo cúmplices da perpetuação de rótulos que limitam o papel feminino na sociedade. Por terem crianças como público-alvo, não encaram com responsabilidade a formação dessa geração, considerando que esta tem uma relação cada vez mais precoce e estreita com a televisão, a internet e logo, a publicidade.

No livro Psicologia do gênero: psicobiografia, sociocultura e transformações, a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília, Maria Helena Fávero, afirma que o conceito que conhecemos hoje de gênero é inteiramente uma construção social. Ela explica que a distinção entre o que é masculino e feminino é representada nas brincadeiras infantis, na moda, nas novelas, e que até o discurso da Psicologia é usado para fundamentar estereótipos do que é inato ao homem (força e inteligência, por exemplo) e à mulher (delicadeza, fragilidade, maternidade). De acordo com a teoria do desenvolvimento psicossexual de Freud, crianças só fazem diferença entre os gêneros após a fase fálica (três a seis anos).

Contudo, a maioria dos brinquedos é dividida por gênero. Para garotas: em tons de rosa e lilás, bonecas, fogões, panelas, ferros de passar, liquidificadores, dentre outros. Para garotos: carros, navios, armas imitando as do personagem de desenho, aviões, grande parte em tons de azul e verde. Sabe-se que, desde os anos 70, época de ascensão da televisão, essa divisão rende bastante lucro à indústria de brinquedos, justamente por se enquadrar nos padrões sociais e, consequentemente, fortalecida pelo crescente alcance televisivo.

A problemática não se restringe a quem produz, mas também a quem faz divulgação e de que forma. A publicidade não deve se limitar apenas a uma comunicação mercadológica, que quer vender produtos e incentivar uma sociedade cada vez mais consumista. Precisa se preocupar em não passar a mensagem errada ou ser conivente com normas sexistas que impõem um padrão de comportamento às crianças, ditando como devem brincar, com o quê e de quais cores devem ser os objetos.

Entretanto, esse não é um campo sem lei. Atualmente, além do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), do Código de Defesa do Consumidor (CDC) e da resolução nº163/2014 do Conanda, que protegem a criança diante da publicidade, por serem indivíduos que ainda não conseguem se defender, há o programa Criança e Consumo do Instituto Alana. Ele tem como objetivo analisar publicidades infantis e entrar com ações jurídicas para proibi-las caso sejam identificadas como abusivas. Todavia, o projeto de lei nº 5921/2001, conhecido como lei da publicidade infantil, que regula especificamente qualquer comunicação mercadológica feita para crianças com menos de 12 anos, ainda está em tramitação pela Câmara Federal e se faz cada dia mais necessário.

O slogan “Por trás de cada pequena, há uma grande mamãe” é apenas uma amostra do vasto campo de comerciais de produtos infantis que, de certa forma, continuam a sustentar estereótipos. Além disso, brincar de ser mãe não contribui para uma boa infância, afinal, meninos também têm filhos e não são incentivados a tais brincadeiras. Os clássicos brinquedos para meninas são mais adultos do que parecem: eles antecipam um processo que deveria ser vivenciado num futuro distante, caso elas queiram casar e se tornar mães.

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