Racismo: até quando?

Por Pedro Canguçu 

No sábado (7), a Dove protagonizou uma polêmica nas mídias sociais. Após lançar anúncio do sabonete líquido, a marca de cosméticos que pertence à empresa holandesa multinacional Unilever, foi alvo de críticas por parte de internautas. Eles perceberam uma mensagem preconceituosa na campanha e prometeram deixar de consumir os produtos da linha.

A propaganda que foi postada no Facebook da empresa consistia em uma mulher negra que, depois de passar o produto, se transforma em uma branca, a qual, por sua vez, vira morena de cabelos pretos, como mostra o vídeo:

Após as imagens serem veiculadas, geraram grande repercussão nas mídias sociais.a empresa retirou rapidamente as imagens da internet. Pelo Twitter, a companhia declarou, em tradução para o português, que “a imagem que recentemente publicamos no Facebook não conseguiu representar as cores de pele das mulheres de forma respeitosa. Lamentamos profundamente as ofensas que podem ter sido causadas”.

twittettet

Tuíte original em inglês.

Entretanto, não é a primeira vez que a empresa se envolve em campanhas racistas. Em 2011, ao anunciar sabonetes líquidos, havia duas imagens de fundo: uma de pele ressecada e outra, hidratada após o uso do produto. A questão era que, na primeira, estava uma mulher negra e, na evolução da pele macia, a branca. Abaixo da imagem, contém a seguinte frase, traduzida para português: “Pele visivelmente mais bonita através do lugar mais inesperado de todos — o seu chuveiro”.

dove anes

Campanha original com frase em inglês.

Mais uma vez, a Dove foi criticada nas redes sociais o que dava a entender que a pele branca é melhor do que a negra., uma vez que é o padrão estabelecido pela mídia, pois,  a maioria dos papeis que o negro interpreta nos produtos mediáticos é de escravos, motoristas, seguranças, domésticos. É facilmente contabilizada a quantidade de vezes que o negro é protagonista em novelas, séries. No Brasil, a primeira protagonista negra de um folhetim foi apenas em 1996, na Rede Manchete, com Taís Araújo como “Xica da Silva”.

Por meio da hashtag #BoycottDove, os internautas pediam que os produtos da Unilever fossem boicotados. Na Bolsa de Valores de Londres, às 7h30 (4h30 em Brasília), o preço da ação da Unilever caia ligeiramente 0,39% em um mercado estável.

Entretanto, a protagonista da campanha, Lola Ogunyemi, se pronunciou no jornal britânico The Guardian:

“Se eu percebesse a menor inclinação de que seria retratada como inferior, ou como o ‘antes’ em uma imagem de ‘antes e depois’, seria a primeira a dizer um enfático ‘não’. “Ainda que eu concorde com a resposta da Dove em se desculpar por qualquer ofensa causada, eles também poderiam ter defendido sua visão criativa, e a escolha de me incluir, uma mulher negra de pele escura, como rosto da campanha. Não sou apenas uma vítima silenciosa de uma campanha equivocada. Sou forte, sou linda e não serei apagada”.

Aa própria modelo alega não ser vítima do racismo. O mundo está tão acostumado a ser racista, que Lola não percebeu ( ou parece que não) a que papel seria submetida. No artigo, ela deixa bem claro que “I am the woman in the ‘racist Dove ad’. I am not a victim”, em tradução, “eu sou a mulher no comercial racista da Dove. Eu não sou uma vítima”. Então, estaria o racismo internalizado, absorvendo coisas consideradas como “simples”?  A questão do preconceito tem grande bagagem histórica que ainda está enraizada nos dias de hoje. É nítido que as grandes protagonistas de comerciais são mulheres brancas, loiras, e esse seria o padrão representativo? As negras não querem ser brancas, mas sim representatividade, onde há espaços para todos os padrões.

Campanhas racistas

Não é possível falar em polêmica sem citar o publicitário e fotógrafo Oliviero Toscani Oliveiro Toscani e suas campanhas da Benetton, transnacional italiana de moda. No livro A publicidade é um cadáver que nos sorri, Toscani aponta a publicidade como “vendedora de um estilo de vida tão idiota quanto irreal”, pois consumidores estavam mais interessados em usá-la voltada à moda e ele, para conscientização.

Em 1991 e 1992, no contexto do apartheid, a Benetton lançou a imagem “Anjo e Diabo”, em que uma menina branca e uma negra se abraçam, conforme mostra a figura:

img_8118
A imagem fala por si, o que fica evidente por conta do formato dos cabelos. A garota branca tem cachos que se assemelham à figura angelical enquanto a negra possui duas ondulações como chifres de diabo. Outro ponto a destacar são as forças antagônicas do bem e mal, presentes nas figuras de anjo e diabo. Enquanto a cor branca é associada a coisas boas, a preta tem caráter negativo. Seria esse mais um reflexo do racismo?

A peça “Anjo e diabo” não é o único trabalho polêmico de Toscani. No Brasil e nos Estados Unidos, a figura de uma mulher negra amamentando um bebê branco teve ampla repercussão, acusada de reproduzir o antigo sistema de ama de leite negra amamentando uma criança branca na época da escravidão no País.

img_8120

Campanha original em inglês.

Várias são as fotos que retratam a figura de negros e brancos, em que os recursos estilísticos chocam a sociedade. Nas imagens, Toscani levanta discussões sobre a cor da pele. Se ela não é relevante, por que tanta polêmica em torno das fotos?

Confira algumas das campanhas da Benetton publicadas no livro A publicidade é um cadáver que nos sorri:

Em 20 de novembro, é comemorado o Dia da Consciência Negra. O feriado tem o objetivo de lembrar e discutir efeitos do racismo na sociedade. Por conta disso, há propagandas especiais sobre ele, que devem ser compartilhadas na data, como reflexão sobre o racismo, pois o papel do negro em comerciais ainda é secundário. Segundo a equipe Heads propaganda, o  Brasil, possui 90% de pessoas brancas como protagonistas em comerciais. Para chegar essa conclusão, a Heads monitorou, durante os dias 25 a 31 de janeiro, mais de  2,3 mil inserções de 30 segundos exibidas em intervalos comerciais de duas emissoras: a TV Globo e o Megapix (canal de filmes incluído em pacotes básicos de empresas de televisão por assinatura).

Agência: DM9Rio
Anunciante: Anistia Internacional

Agência: Fox Sports
Anunciante: Fox Sports
Campanha: Jogadores ganham cores em ação da Fox Sports contra o racismo

Outras campanhas estão disponíveis no site Adnews. 

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s