Quão importante é a cor do mês?

Por Isabela Gouveia 

Matérias, reportagens, discussões, abordagens, palestras e outras inúmeras formas de conscientização, mas que infelizmente desaparecem com o tempo, ou melhor, com o fim do mês. Vamos falar do mês de setembro, surgiram várias campanhas de prevenção ao suicídio, mas que desapareceram já na segunda semana de outubro. Conhecido como “setembro amarelo”, o mês de setembro tem como objetivo a conscientização contra o suicídio. A campanha teve grande alcance nas redes sociais, principalmente no Instagram, onde usuários da plataforma postavam em seus stories “meu direct está aberto para conversas” junto à hashtag #setembroamarelo. Mas até aonde pessoas que não entendem do assunto seriam eficazes em tratar de uma questão tão delicada?


O suicídio está na quarta colocação em maior número de mortes entre jovens de 15 e 29 anos, segundo o Ministério da Saúde. Em cada dez pessoas com depressão, nove dão sinais que querem se matar, mas nunca se acredita que elas são capazes, classificando-se seus sentimentos como drama, fase ruim ou a velha forma de querer chamar atenção. Em entrevista para Agência do Brasil, Karen Scavacini, psicóloga coordenadora do instituto Vita Alegre de Prevenção do Suicídio, ressalta que sinais de alerta só fazem sentido depois do suicídio, pois são muito complexos de serem percebidos. Para ela, ‘’Por mais que haja um contato virtual, o contato significativo tem diminuído… Nas redes sociais todas as pessoas aparentam estar felizes sempre”. As redes sociais não são os grandes e únicos causadores de frustrações, é claro, mas são um meio que vem influenciando cada vez mais os jovens, pois digital influencers postam, em seus stories, fotos de momentos felizes, comidas saudáveis e corpos perfeitos. É quando jovens em depressão ou em processo, acompanham e comparam suas vidas “normais”, sentindo-se inferiores, e é quando começa a existir pressão com a vida acadêmica, vida social e familiar. Um outro grande agravante do problema é a forma que o transtorno psicológico é tratado como tabu pela própria família. Jovens por resistência familiar demoram a receber tratamentos. A falta de empatia e críticas a certos problemas alheio são grandes influenciadores na situação. Não é porque um problema não lhe afete que ele não seja difícil ou doloroso para quem esteja passando por ele. Dizer para pessoas com depressão “você é forte, você vai conseguir”, “procura uma igreja”, “isso é uma fase”, não é nada colaborativo. Pelo contrário, pode desencadear uma crise de ansiedade em quem se encontra nesse cenário, por isso não se sabe até onde é saudável estar aberto para aconselhar alguém, talvez o melhor seja ouvir, e saber como buscar formas realmente eficazes de ajuda.
Ao invés de se veicular apenas matérias sobre o mês colorido, os veículos poderiam publicar como identificar sintomas e conscientizar seus leitores de que rir do estado emocional de terceiros menospreza a dor de alguém, que é importante respeitar, mais, até mesmo, do que abrir o bate papo para conversas sobre um assunto tão delicado. A preocupação deveria ser saber o que fazer quando encontrar pessoas com depressão. Saber como conscientizar as pessoas de que não é vergonhoso precisar de ajuda. O mês é para prevenção, mas e o resto do ano?
Em outros meses, não deve se diminuir o término de um relacionamento ou uma reprovação na escola porque você foi capaz de superar, pessoas são diferentes. Com a vida não se brinca, depressão e transtornos de ansiedade não são apenas fases. Sem tratamento não vão passar. Colorir o mês não diminui o índice de suicídio durante todo o ano, é claro que deve sim acontecer conscientização, mas até que ponto embelezar algo que é necessário, nos faz defensores da causa contra suicídio? Esse assunto deve ser tratado e destacado durante todo ano, pessoas podem sofrer de ansiedade e têm fases diferentes da vida, não escolhem um mês para arrancar a dor, o mês ser amarelo não faz dele especial. O que é um fator de risco é a dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Tão importante quanto o acesso a saúde com especialistas é o lado mais humano que os profissionais da área devem exercer sobre os pacientes que conseguem o tratamento, pois há falta de formação em prevenção para a área especializado no assunto, e isso tem um grande lado negativo, devem saber que além de transtornos, eles estão lidando com dor. Além do suicídio, surge também grandes dificuldades para o tratamento emocional dos envolvidos, pois há um julgamento transferido, que é quando se julga quem fica, porque não foi capaz de perceber aos sinais. É preciso ter, também, mais empatia com quem perdeu.
A prevenção não deve ser apenas para que não se cometa suicídio, mas para que menos pessoas passem a ter depressão, pois quem perde um familiar mesmo sabendo que não teve culpa, muitas vezes não consegue aceitar o fato de que poderia ter evitado, surge um certo sentimento de incompetência, e a maioria das vítimas nesse caso escode esse autojulgamento, o que pode ser perigoso. Volto a citar a importância da fala cotidiana sobre o suicídio, e não apenas a sua prevenção no mês de setembro. Quanto mais se falar no assunto, quanto mais se ensinar a lidar com ele com menos tabu será tratado, e assim menos receio as pessoas terão em buscar ajuda. O suicídio pode até cessar com a dor, mas cessa a vida e afeta a todos.
No Brasil, a taxa de suicídio tem aumentado nos últimos dez anos. Encontramos-nos em oitava colocação dos países com maior histórico de suicídios no mundo. Estima-se que até 2020 cinquenta por cento (50%) do índice de mortalidade anual seja por suicídio, o que equivale a 32 casos por dia. E segundo o diretor da APBr (Associação Psiquiátrica de Brasília), Carlos Guilherme, as maiores causas de suicídio entre os jovens são: afastamento dos pais biológicos, divórcios, suicídio de parentes próximos ou amigos, dependência química e, para as mulheres, a gravidez precoce.
Existe alguns fatores mais fáceis que podem ser observados em pessoas com depressão, como, a mudança de comportamento em diversos meios de convívio (escolar e familiar), queda no rendimento academico, isolamento, desinteresse em atividades que gosta, falta de apetite, auto reprovação, se cobrar demais, dentres outros fatores. Além da importância de se observar, indentificar e tratar com cuidado e sabedoria esses sintomas, é importe também a procura de tratamento adequado. No Brasil, hoje, existem 2.500 Caps (Centro de atenção psicossocial) que atende gratuitamente pacientes com trastorno mental, quase 100% dos casos de suicídio estão ligados ao trastorno mental.
O assunto ainda é tratado como tabu pela mídia, pela conta da sua difícil abordagem. Quando feita de maneira indevida, pode-se induzir à ação, como aconteceu com a veiculação irresponsável da pauta sobre o jogo baleia azul (um jogo de desafios e auto mutilação). Depois de uma cobertura sem os devidos cuidados, o jogo ganhou materialidade entre os jovens do país.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que as taxas de mortes por suicídio teve um aumento de 60% nos últimos 45 anos. A partir disso, podemos afirmar que o suicídio é sim um assunto procupante e de interresse social. Novamente de acordo com a OMS, 90% dos casos podem ser evitados por meio de ajuda, é onde entra o grande papel dos veiculos de comunicação que é trasmitir com mais frequência e resposnsabilidade pautas que abordam esse tema, durante todo o ano, não apenas no mês de prevenção ou quando alguém se mata. Há diversas formas de transformar a abordagem do assunto uma partica de resposnssabilidade social nos veiculos. O jornalismo pode sugerir novas formas de entender o suicídio e como mudá-lo, pode manter seus leitores informados do quão grave é, e a importancia de tocar no assunto, eliminando o tabu e promovendo debates saudaveis entre a socidade.
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) dá apoio a pessoas com depressão ou transtornos psicológicos 24h por dia, voluntários treinados no assunto pelo telefone 141 ou diretamente no posto regional de sua cidade. O atendimento é mantido em sigilo. “A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: onde dói? E como posso ajuda-lo”, afirma Edwin Schneidman, psicólogo clínico.

 

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