Há alguma novidade na ideia de fake news?

Termo possui raízes antigas, mas se reveste de novas características na era digital

Por Rafiza Varão
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília
Coordenadora do projeto SOS Imprensa

O ano é, talvez, 1984. Não há mais como confiar na contagem objetiva do tempo. Na realidade distópica criada por George Orwell em seu maior clássico, Winston Smith cumpre seu trabalho cotidiano de rearranjar e reescrever a história. Funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, Winston, curiosamente, não altera o passado em livros de referência, mas nas páginas do Times. No departamento, os fatos pretéritos são embaralhados, sublimados, omitidos, floreados, inventados – o que torna impossível, mesmo para quem os modificou, dizer com precisão o que, nas informações noticiosas divulgadas pela imprensa, seria verdade ou mentira.

 

A alegoria criada por Orwell, como parte de suas críticas ao stalinismo e ao controle da informação pelo Estado, tem voltado a ilustrar discussões e opiniões num cenário em que os termos pós-verdade e fake news tornam premonitória a escrita do britânico em 1984, publicado pela primeira vez em 1949. Com quase 70 anos, a narrativa orwelliana nos mostra, com sua recorrente atualidade, que a ideia de distorção dos acontecimentos, manipulação de informação, enviesamento da notícia ou a simples invenção de conteúdos não é uma realidade nova, mas que acompanha os media desde muito tempo.
Dessa forma, mesmo que a palavra fake news tenha sofrido, entre 2016 e 2017, uma supervalorização, concorda-se que ela não encerra em si um fenômeno inteiramente novo. Neste mês, por exemplo, a hashtag #globolixo veio acompanhada da hashtag #fakenews, em milhares de tuítes – como consequência do posicionamento da vênus platinada em relação à onda conservadora no Brasil, no dominical Fantástico. Contudo, se nos lembrarmos de quase todas as épocas em que a TV brasileira viveu sob domínio da Globo, a acusação de grande mentirosa, dirigida à emissora, quase nunca esteve ausente.

Mas, se é assim, por que apenas agora a noção de informação falsa parece ter alcançado atenção maior? O que faz com que as fake news apareçam como uma preocupação crescente que mereça ressalvas até do papa Francisco, que escolheu o assunto como tema da Jornada Internacional de Comunicação (sob inspiração do versículo “conhecerás a verdade, e a verdade os libertará”)? O que há de novidade no uso da expressão fake news?

O primeiro ponto mais visível é que quando falamos de fake news, hoje, a palavra está relacionada muito mais aos modos de produção e circulação das informações do que propriamente àquilo que é sua matéria – e que estes primeiros, sim, são novos. Embora o conteúdo que elas carreguem seja importante para definí-las, as fake news se espalham e se consolidam como praga exatamente porque não se necessita mais, em várias instâncias, de um profissional especializado para promovê-las ou de organizações formais, como editoras e emissoras. Pelo contrário, sem a necessidade da chancela de um profissional ou uma esfera superior, pode-se publicar qualquer coisa, inclusive com formatos que lembrem a produção de notícia tradicional. Isso não significa dizer que os media tradicionais são/eram incólumes ao falseamento de informações, apenas que a partir do momento em que a produção e a divulgação dessas informações foi descentralizada, sua quantidade sobe (como efeito da multiplicidade de emissores no meio digital) e o controle dos conteúdos cai.

O segundo ponto é um reflexo do primeiro. Se a publicação não passa mais por organizações formais nem por profissionais especializados, podemos ter as mais variadas versões de um fato, fugindo inclusive às questões deontológicas da produção jornalística, incluindo a mentira e a opinião disfarçadas de relato dos acontecimentos tal e qual eles são (sem ao menos tentar uma objetividade nos relatos, mito há muito discutido, mas vigente na atividade jornalística como ideal, ainda que inalcançável em sua totalidade).

Aqui, outro fator merece atenção: a permanência das bolhas informacionais, cuja existência já havia sido estudada na século passado em relação ao que hoje chamamos meios de comunicação de massa tradicionais. O sociólogo Paul Lazarsfeld, em meados da década de 1950, afirmava que, quando em contato com os meios de comunicação, a audiência busca consumir aquilo que reforça suas opiniões, rejeitando o contraditório. Em tempos de redes sociais e de livre publicação, essa atitude é reforçada não pela simples rejeição a conteúdos, mas pela formulação de novos, defendendo a posição quem emite a mensagem, o que anteriormente caberia mais amiúde aos jornalistas de opinião e, num aspecto macro, às linhas editoriais dos veículos.

Toda essa diversidade de origens de fala acaba levando a um último aspecto a ser ressaltado sobre as fake news: é cada vez mais difícil saber como formar opiniões num mundo em que a verdade está suspensa muitas vezes pelas crenças pessoais. Nesse caso, até mesmo profissionais de comunicação passam a se valer dessas prerrogativas. Onde a verdade é relativa, a defesa da mentira se torna, ela própria, um ponto de apoio para quem vê vantagem nas informações inventadas ou distorcidas. Assim, a nomenclatura fatos alternativos, utilizada pela ex assessora de Donald Trump, Kellyanne Conway, para justificar as imagens manipuladas da posse do presidente americano, soa para alguns como plausível, apesar do cinismo.

Essas situações mostram que há, de fato, um espectro nas fake news que as distingue da manipulação que existia no passado, tão bem representada no trabalho do Ministério da Verdade, onde Winston Smith se aboletava em sua mesa para trabalhar. Antes centralizada e profissionalizada, a distribuição de informações via meios de comunicação de largo alcance agora foi pulverizada e customizada, tornando o processo de aferir a confiabilidade das fontes um pouco (ou muito) mais complicado. O imediatismo na transmissão digital também se torna um aspecto dificultador, uma vez que a velocidade de compartilhamento e a assunção a jato de posições elimina muitas possibilidades de barrar as fake news em sua origem. Cria-se um ambiente repleto de fatos alternativos, gerando a impressão de que usuários das redes agora habitam em universos paralelos, no qual a verdade está do lado em que cada um desses universos está.

O problema, enfim, não é que existam fake news, mas sim que tanta gente acredite nelas e, pior, que as produzam e/ou compartilhem como informação de valor. É, portanto, na produção, difusão e consequências das fake news que reside sua novidade. Cada um de nós, sem vigilância, acaba tendo potencial para se tornar uma alegoria do Ministério da Verdade, invertendo a lógica orwelliana e carregando as particularidades atuais dos fatos alternativos. Aliás, eis aí um termo constrangedor: vigilância. A Internet é o Grande Irmão.

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