Somália existia ou acabamos de inventá-la?

Por Filliphi da Costa

O jornalista mais atento aos aspectos da sua formação pode perceber, durante o exercício do ofício, que diversos recursos são dissimulados para mascarar um descompromisso às vezes presente. Uma razão para o uso dessas ferramentas é a manutenção da ociosidade intelectual a que nossa sociedade foi condicionada. Essa é a estratégia para manter sempre vivos os inimigos da cidadania incutidos no imaginário coletivo.

Estes veículos abdicam da responsabilidade que é informar (bem) aos cidadãos, em função de outros interesses, sejam econômicos, sejam ideológicos. Um recurso comumente evocado pelo jornalismo do senso comum é o valor notícia, que nada mais é do que um conjunto de critérios que definem a noticiabilidade ou não de um fato. É o que designa que um ataque terrorista na Europa Ocidental merece maior cobertura midiática do que um grande massacre no Noroeste Africano. Isso, aliado ao pensamento imperialista e racista comum em países como Brasil, cultiva desinteresse pelas questões do povo da África.

Quando são acusados de preterirem certas camadas da sociedade — e, com elas, certas visões de mundo — é muito comum que a mídia recorra à garantia da noticiabilidade. É uma isenção quase concreta da irresponsabilidade cometida. Infelizmente, o fenômeno é cotidiano e afeta todos os que dependem da grande mídia para se informar. Além disso, carrega valores ideológicos que impedem uma visão racional dos fatos e põe em risco a saúde intelectual da população à medida em que desencadeia uma deficiência de conhecimentos sobre o mundo que a cerca.

A forma com que a mídia tratou o atentado ocorrido na capital da Somália, que ceifou mais de 300 vidas e afligiu violentamente outras 500, é um ato político. Reside na indiferença a naturalização da violência contra determinadas pessoas por sua condição de existência. Aos negros, pobres, africanos, não houve solidariedade. Os grupos não reagiram com campanhas. Não fomos mais uma vez alertados sobre o perigo do terrorismo, tal qual no ataque às torres gêmeas. Não houve comoção.

E mesmo se houvesse, por que vias buscaríamos aproximar os cidadãos somali da nossa ideia de humanidade, frequentemente reservada aos cidadãos de Primeiro Mundo, se não conhecemos as condições as questões contemporâneas do país? Como bem salientou o jornalista Gabriel Rocha Gaspar em texto para o Justificando, na revista Carta Capital, a pouca manifestação de empatia deu-se pela exclusão, como se fosse impossível manifestar empatia genuína e positiva ao sofrimento daqueles indivíduos se não por meio da repulsa ao assassinato e à sanguinolência.

O desinteresse pelas questões da herança do colonialismo, do imperialismo, do racismo, da ambição e da crueldade desmascara o cinismo dos setores mais privilegiados da população, confortáveis em suas posições de ignorância. Afinal, não é na Somália onde passeios de férias de verão são feitos, nem é lá o grande centro de efervescência cultural do mundo.

O extremo descompromisso ignora o fato de que o artifício da relevância da notícia deve levar em conta também o critério da proporção e não apenas o da proximidade, uma vez que este ataque supera em números e gravidade os ataques ao norte da América ou à Europa. Apesar disso, o que parece valer é apenas a identificação com realidades supostamente próximas da nossa.

Mas, afinal, não são os estereótipos construídos em torno dos países africanos, sempre retratados como paupérrimos, que nos distanciam deles? Esse foi o maior ataque terrorista em número de vítimas desde o de 11 de setembro. Por que, então, não recebeu uma cobertura jornalística tão intensa quanto a dele? Cor da pele, localização geográfica e poder econômico influenciam no valor notícia?

O que se quer dizer não é que não deva haver comoção num ou noutro caso, mas que está incutida uma visão normativa do sofrimento de pessoas pretas e pobres. Do contrário, seria possível ver a sujeira da violência com amplitude, livre do condicionamento do qual estamos reféns e que estimula nossa visão não-racional do mundo.

E por que não é tão fácil? Porque isso se oporia à lógica imperialista tão enraizada na grande mídia. O problema não é que falte mercado para esse tipo de abordagem, mas que a imprensa convencional não se responsabilize devidamente por aflorar pensamento crítico nos cidadãos. E mesmo que haja um despertar para as incongruências da mídia, várias peças precisam ser mudadas de lugar.

Um comentário sobre “Somália existia ou acabamos de inventá-la?

  1. ADMYS FRANCISCO DE SOUSA GOMES disse:

    Em quanto o cifrão fizer parte da auto estima, vai ter uma “Faixa de Gaza” sempre em qualquer esquina.
    “Em quanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerras.”
    (Bob Marley)

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