Vegas merece mais que Mogadíscio?

A cobertura midiática dos ataques terroristas acompanha a dimensão das tragédias?

Por Rebeca Borges

O maior ataque terrorista desde o 11 de setembro deixou 358 mortos, 400 feridos e 56 desaparecidos. A tragédia ocorreu há pouco mais de uma semana, em 14 de outubro, quando dois carros-bomba explodiram em regiões movimentadas de Mogadíscio, capital da Somália. Esse é o maior atentado terrorista da história do país. 

Desde então, o evento tem gerado críticas e indignação a respeito do comportamento midiático. O fenômeno de invisibilidade dos fatos que ocorrem fora do pólo Estados Unidos-Europa é perceptível a cada atentado que chega a nosso conhecimento. Com a Somália, não foi diferente. 

rr-horz.jpg

À esquerda, página dupla da Folha de S. Paulo, dedicada ao ataque em Las Vegas. À direita, matéria do mesmo veículo sobre o atentado na Somália.

Para compreender a carente cobertura da imprensa ao ataque, basta analisar a programação do Jornal Nacional, principal telejornal brasileiro, exibido de segunda a sexta-feira no horário nobre da televisão aberta, sobre o caso. A edição na data do atendado na Somália, exibida às 20h30, não reservou espaço para noticiar o ataque. Em 16 de outubro, a primeira segunda-feira após o ataque, o JN dedicou pouco espaço para tratar do atentado — apenas 1m48. 

Comparando o caso da Somália com o de Las Vegas, ocorrido também neste mês, é possível perceber a indiferença com que eventos que ocorrem fora dos Estados Unidos e da Europa são tratados. A tragédia nas terras estadunidenses deixou cerca de 58 mortos e 500 feridos, quando um homem atirou em direção ao público que assistia a um festival de música country.

O atentado, ocorrido em 1º de outubro, ganhou amplo espaço na imprensa. A edição do Jornal Nacional do dia seguinte, primeira segunda-feira após o ataque, dedicou os primeiros 18 minutos para tratar do caso. Além de informações sobre ele, as matérias exibidas abordaram diversos temas relacionados à tragédia, como discursos de autoridades famosas, porte de armas nos Estados Unidos e casos semelhantes, como o massacre de Columbine, em 1999.

Pólo do terrorismo

De acordo com o banco de dados sobre terrorismo Global Terrorism Database, das 34623 mortes relacionadas a ataques terroristas em 2016, 71% se concentraram no Iraque, no Afeganistão, na Síria e na Somália. Os casos analisados são de ataques que tiveram motivações políticas, sociais ou religiosas, que foram concebidos para gerar grandes estragos e que não aconteceram durante guerras reconhecidas internacionalmente. Dentre todos, apenas 2,5% se concentram no Ocidente.

Além disso, pesquisas do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Reações ao Terrorismo, do Departamento de Segurança Interior dos EUA, mostram que 75% dos ataques terroristas que ocorrem no planeta estão concentrados em países como Iraque, Afeganistão, Índia, Paquistão, Filipinas, Somália, Turquia, Nigéria, Iêmen e Síria. Tal fato se deve a conflitos históricos regionais, guerras e a grupos terroristas que atuam nessas áreas, como o Al Shabab, responsável pelo ataque em Mogadíscio.

Por mais que África e Oriente Médio abriguem os territórios mais afetados por ataques terroristas, países que compõem essas localizações ainda são esquecidos pela imprensa. Basta analisar a cobertura sobre a série de ataques que ocorreram na Europa, como o de Paris, em 2015, os de Bruxelas, Nice e Berlim, em 2016, e o de Barcelona, em 2017.

Esses eventos tomaram conta da imprensa internacional, com vastas programações sobre os atentados. Enquanto isso, casos como o ataque em Bagdá, no Iraque, que deixou 382 mortos em 2016 — mais que o dobro de vítimas dos ataques em Bruxelas, Nice e Berlim que, juntos, somaram 134 mortes — desaparecem diante das agendas midiáticas.

Até quando?

A invisibilidade de acontecimentos em países como Somália e Iraque é reflexo da longa exclusão histórica e cultural no Ocidente de tudo que não está nos moldes europeus. Não se ensina profundamente sobre cultura e história da África e Oriente Médio nas escolas, não se celebram datas e personalidades importantes dessas regiões e não se aprende sobre os hábitos e o estilo de vida de seus habitantes.

Consequentemente, conteúdos sobre esses lugares não recebem o devido espaço na agenda de veículos de comunicação. Com o fenômeno do agenda setting, em que a imprensa seleciona os assuntos que serão abordados, a situação crítica por qual essas nações passam em meio ao terrorismo não vira preocupação mundial. Se a mídia não trata desses temas, a tendência é de que a população também não fale sobre esses assuntos.  

Entretanto, com os avanços tecnológicos e o crescimento da internet, das mídias sociais e do acesso à informação, a intolerância da mídia tradicional não passa despercebida. O caso de Mogadíscio gerou mobilização nas redes sociais, em que internautas questionaram razões da escassa cobertura e do esquecimento de eventos que ocorrem fora das localidades consideradas relevantes para a imprensa.

O problema não está no tamanho, quantidade de vítimas ou proporção dos ataques. Não é sobre Mogadíscio ser mais ou menos importante ou relevante que Vegas — ambos os eventos são tragédias que merecem indignação da população. As falhas se encontram justamente no tratamento carregado de racismo e segregação que acompanha o conteúdo veiculado na imprensa ocidental. Essa, portanto, pode ser uma prova de que a grande mídia precisa urgentemente se atualizar e se desgarrar dos moldes coloniais.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s