Amor ou pedofilia? A polêmica relação de Caetano Veloso e Paula Lavigne

Por Melissa Duarte

Que Caetano é um dos maiores cantores e compositores brasileiros, todo mundo sabe. Que lutou contra a Ditadura Militar, também. O que muitas pessoas talvez desconheçam é que o músico começou a namorar e tirou a virgindade da segunda esposa, a produtora cultural Paula Lavigne, quando ela tinha 13 anos e ele, 40. Eles se casaram em 1986, se separaram em 2005 e retomaram o enlace no ano passado. Juntos, tiveram dois filhos: Tom, 20, e Zeca, 25.

Depois de ela fazer essa grande revelação em entrevista à Playboy, em 1998, a mídia passou a citar o caso quando o casal é noticiado ou entrevistado, como no Uol e na Marie Claire, em 2016. Meios de comunicação devem ter responsabilidade social com o conteúdo publicado. Por isso, é vital levar os leitores a refletir sobre a romantização desse tipo de relacionamento e a questionar se foi pedofilia.

Entretanto, infelizmente, não é o que acontece: a informação é explorada por seu valor-notícia, uma vez que Paula ser tão nova na época e a grande diferença de idade entre eles chamam muito a atenção e causam estranhamento em quem lê. Apesar disso, vale lembrar que os 27 anos entre eles não são o ponto central da questão. Se fosse atualmente, fariam uma diferença muito menor, já que ele tem 75 e ela, 48.

O assunto tomou conta das mídias sociais quando o Movimento Brasil Livre (MBL) lançou a #caetanopedófilo no Twitter após o cantor defender a exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e criticar a posição do movimento. A hashtag atingiu os trending topics temas mais comentados — do Brasil no site, em 21 de outubro, e ambos processaram o MBL e o ator Alexandre Frota pelas acusações sofridas. A sentença lhes foi favorável.

Dessa maneira, é importante questionar se o grupo liberal e de direita possui interesses na campanha: foi uma ação, sem dúvida, contra a pedofilia ou, indiretamente, contra a ideologia de esquerda, pela qual Caetano milita? Enquanto formadora de opinião, qual o papel da imprensa no fato de a sociedade ter condenado a mostra de arte por alusão à pedofilia e não o relacionamento entre um homem de 40 anos e uma garota de 13?

Na sexta-feira (27), o dramaturgo Sérgio Maggio publicou artigo em sua coluna para o portal Metrópoles. Nele, defende o músico ao afirmar, logo na manchete, que culpá-lo do crime seria ignorar o contexto histórico. Porém, que contexto histórico é esse? Não há anacronismo quando o assunto é estupro de vulnerável. Apesar de o artigo 217, contra esse tipo de crime, no qual a vítima tem menos de 14 anos, é de 1990, antes disso, já poderia haver condenação, a depender do parecer dos juízes.

A falta de pensamento crítico, que o autor julga estar nessa acusação de pedofilia, se encontra, na realidade, no fato de permitir que uma lei (ou a ausência dela) se sobreponha à proteção de menores de idade. Só porque situações parecidas eram comuns na época de nossos avós e bisavós não quer dizer que devam ser consideradas normais. O fato de ambos terem namorado, se casado e concebido filhos, com aprovação da família dela, também não eliminaria o crime.

A matéria se foca em enaltecer o músico e se esquece de mostrar vários lados do caso. Não questiona, também, o que levaria um homem de 40 anos, divorciado e com filhos, a se interessar por uma adolescente, apenas quatro anos mais velha que seu primogênito. Quanto à imprensa, sobra erotização e adultização da infância — é o que acontece também, por exemplo, com as atrizes Larissa Manoela, 16, do SBT, e Millie Bobby Brown, 13, da série Stranger Things (Bagulhos Sinistros, em português).

Por isso, se os veículos de comunicação continuarem a tratar esses assuntos com naturalidade e sem promover reflexão, podem normalizá-los e banalizá-los, o que só ajuda a torná-los mais invisíveis. Segundo dados do Governo Federal, houve 37 mil denúncias de estupro de menores de idade em 2015 e 2016. Desses, quase um terço (30,3%) era contra jovens de 12 a 14 anos — faixa etária de Paula na época — e esses foram apenas os casos contabilizados.

Além disso, existem outros casos como o de Paula e Caetano no ramo da arte. Quem não se lembra de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães ou de Woody Allen e Soon Yi-Previn? O ex-integrante do Los Hermanos e a cantora passam a se relacionar quando ela, fã dele, tinha 16, e ele, 30. Atualmente, são casados, têm filha e dividem a Banda do Mar. Já o diretor de cinema se casou com a enteada — filha adotiva da ex-esposa, a atriz Mia Farrow, com o pianista André Previn. A diferença é de 34 anos: ela, aos 47, e ele, aos 81. Juntos, têm dois filhos. Apesar de tudo, ela já era maior de idade no começo da relação.

A questão, aqui, também é muito maior do que as idades desiguais: as mulheres eram muito jovens no início da relação. Mais do que isso, diferentemente do primeiro caso, a grande mídia cobriu com afinco esses outros dois e questionou sobre pedofilia, machismo, manipulação e relacionamento abusivo.

O que dá o tom do texto de Maggio, no fim das contas, é o machismo. Ele exalta Caetano, ainda, como “um dos artistas contemporâneos mais importantes da história brasileira” e revolucionário, devido ao movimento tropicalista. Não existe, entretanto, o Caetano da Paula e o Caetano do Tropicalismo; ambos são um só. Por isso, não se pode separar o artista da pessoa física. Arte, muitas vezes, é uma extensão de quem a vive e produz. Ignorar esses fatos em prol dela é ser conivente com a cultura do estupro.

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40 comentários sobre “Amor ou pedofilia? A polêmica relação de Caetano Veloso e Paula Lavigne

      • José Maria disse:

        Depende.
        Se fosse cometido por alguém de direita será classificado como pedofilia, mas como foi praticado pela quadrilha da esquerda será sempre visto como “paz e amor”..

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      • ANDRE LUIZ MENDONCA ALVES disse:

        Não tem como separar o artista da obra, mas o cidadão do artista, sim. A obra de Caetano é magnífica e sempre será. O resto é discutível, mas eu proponho que prestemos mais atenção no que está acontecendo agora, e na música que a nossa juventude anda ouvindo, que vem sim acompanhada de muito sexo à toa, crianças, adolescentes, bebida, drogas, gravidez precoce, estupros… ta tudo acontecendo, e acho q ngm aqui anda muito a fim de falar disso e de toda a companhia ltda. que vem junto.

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    • Phelipe Ferreira Garcia disse:

      Muito preto no branco os comentários assim como o proprio texto, o que não vi ninguém mencionar é o que ELA, a VÍTIMA tem a dizer. Ela se separou e VOLTOU com ele, agora uma mulher adulta de quase 50 anos, e o defende das acusações, que são de fato verdade, ele foi/é sim pedófilo, e não deveria ter entrado em uma relação com uma adolescente, mas aconteceu e eles se amam. A lei e punição deve impedir que algo ruim aconteça, assim ele deve ser preso se ter relações com uma adolescente, mas a lei não deve punir algo que PODERIA ter sido ruim. A lei tem que PROTEGER as pessoas, não controla-las. Se a suposta vitima defende ele, como alguém tem coragem de tentar lincha-lo no nome dela, uma mulher adulta, mãe, divorciada e reatada???

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      • Sonia disse:

        Paula e a tábua de segurança de Caetano. Qdo si sente só. Procura por Paul a. está esta ali p lhe acolher, e bem assim, nesses vinte e poucos anos? …

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      • Roger disse:

        Se hoje eles vivem bem, não invalida o fato que ele abusou dela anteriormente, mesmo com o consentimento dela. Tenho uma filha de 13 anos e sei do que estou falando. Não é por causa da lei, mas na prática, por mais que uma menina de 13 anos se ache “descolada”, ela não é. Não viveu o suficiente para adquirir conhecimento o suficiente para tomar decisões tão importantes para sua vida.

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    • Mario disse:

      Imagine não se poder separar a pessoa do artista. O que faríamos ao ouvir uma linda música e 2 anos depois descobrirmos que o autor é um assassino? Seríamos forçados a DESGOSTAR da música 2 anos depois?

      Só na cabeça desse pessoal pueril mesmo.

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  1. Oliveira disse:

    Se vc está preocupada com essa problemática… pq repisar a história do Caetano e de outros famosos em casos consensuais (do ponto de vista legal)? Fale dos casamentos precoces dos seus avós e bisavós… Prefere falar do Caetano pq dá ibope neh?! “O fato de terem namorado…, com aprovação da família dela, não eliminaria o crime.” Pelamor… rs de onde vc tirou isso? “Não existe crime sem lei anterior que o defina” e deve-se ponderar toda a legislação aplicável. A idade de consentimento também varia conforme a cultura e os custumes… e a legislação costuma refleti-los!

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    • melissaduarte disse:

      Até que ponto uma menina de 13 anos é capaz de consentir, de fato, uma relação sexual? Preferi falar do Caetano porque a história voltou à tona agora, com a campanha do MBL — e, como observatório da mídia, o SOS Imprensa analisa o que é veiculado. Sobre os avós e bisavós. não é porque casamentos infantis eram comuns que devessem ser considerados normais, como dito no texto. Em muitos lugares — África e diversos estados dos EUA —, não há legislação contra esse tipo de crime. No Brasil, durante a década de 1980, também não; no entanto, a condenação se baseava nos juízes, que utilizavam o Código Penal de 1940 como base.

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      • Mario disse:

        Uma pessoa de 13 anos de idade não pode ser chamada de “menina”. É uma adolescente com órgãos sexuais desenvolvidos e pronta para ser estimulada pela masturbação ou com sexo. O que deve existir é uma preocupação dos pais quanto a ser muito cedo que uma adolescente dessa idade namore. Não por ser vulnerável, não por não estar sexualmente madura, mas por ser nova demais, tendo muitos anos de vida pela frente.
        Se os próprios pais consentiram, não serei eu, um estranho a condenar. Isso é problema dos envolvidos.

        Estupro de verdade consiste em sexo contra a vontade do outro. Não nessa banalização que a mídia e certos magistrados apregoam sobre qualquer ato sexual ser chamado de estupro. Um homem alisou as coxas de uma moça de 14 anos, aparece nos jornais: estupro. Uma professora fez sexo com um aluno, aparece nos jornais: estupro. Tudo pra imprensa de hoje é estupro. Parem de banalizar um crime!

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    • momeps disse:

      Eu não entendo como é possível alguém olhar para essa situação e não achar completamente abominável, crianças são crianças, não há discussão! Se ela ou a família deram consentimento, se há lei a tratar do assunto ou não, isso é irrelevante! O fato é que um homem adulto manteve relações sexuais com uma criança de 13 anos!!! O que há pra discutir? Pedofilia é algo hediondo e será sempre, independente do contexto.

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      • reflex4feet disse:

        Concordo com vc, vou ainda além: não há problema algum no fato de ela ser uma moça/adolescente e se por acaso um homem de 40 anos tivesse sexo com um menino/adolescente da mesma idade? Será que os pais iriam dar consentimento pra tanto? Acredito que tudo seria completamente diferente. Aí sim no caso do menino de 13 anos isso seria pedofilia e cadeia iria rolar.

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    • Roger disse:

      O que está certo? A lei sem ética ou a ética sem lei? Em meu entender, não precisa ter uma lei dizendo que é proibido matar, por exemplo. Se não houvesse esta lei, então matar não seria um crime???

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  2. Otavio disse:

    então se eu tiver relação sexual com uma criança (13 anos) e continuar com ela tudo bem. Só se eu nao continuar com ela que está errado.
    ridículo ao cumulo do absurdo. É pedofilia e ponto. Pare de defender seu queridinho artista colocando “outros casos tambem”. Outros casos cabem aos outros processos investigar. Estamos falando DESSE CASO.

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  3. LIA SILVA DE CASTILHO disse:

    Depois de muito tempo encontrei o seu texto. Excelente! Propôs à época uma reflexão importante. Roman Polanski é achincalhado na Europa. As idades são as mesmas. A situação é a mesma: sombria! Parabéns

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  4. Jp Santsil disse:

    Sem sombra de dúvidas isso é pedofila. Um homem de 40 anos ter relação sexual com uma criança de 13, não tem como passar a mão na cabeça. Para ser pai dela diminuindo os 13 anos dos 40, seria 27 anos, significando um abismo de diferença. Digamos que o razoável aceitável era ela ter 22 anos e ele 49. Mas, uma menina de 13 anos não tem capacidade madura para avaliar um compromisso sério, quanto mais a experiência sexual. Vocês imaginam em qualquer época e regime um homem de 40 anos no ato sexual com uma menina de 13? Julguem por vocês… não importa se é famoso ou não. Isso é inadmissível! Um estupro!

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  5. Deivd Asaphe disse:

    É triste que um artista tão talentoso como Caetano tenha dado um exemplo desses ao país, e o pior é que esse será mais um dos casos da justiça falha no Brasil, pois ainda que hoje ele seja casado com Paula, e ela jamais deseje processa-lo, um crime como esses não poderia ter saído impune, afinal uma garota de 13 anos jamais teria maturidade para aceitar uma relação sexual.

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  6. luciana cesconetto disse:

    A questão que não foi abordada na reportagem é que neste caso (do Caetano e da Paula) é que não foi uma relação puramente sexual. Houve a construção de uma relação amorosa , tanto que eles se casaram. se fosse só sexo, entendo que seria abuso, mesmo ela sendo uma adolescente. Mas havia uma relação que foi sendo construída e, dentro desta relação que envolvia família, eles se relacionaram sexualmente. Podemos pensar uma hipótese: .os dois namoram, os pais a emancipam para que se casem, eles se casam…e aí…a partir de quando vocês acham que esse casal poderia ter relações sexuais sem que isso fosse um abuso (ponto de interrogação). Eu não emanciparia minha filha, não a encorajaria a se casar tão cedo. Mas estou tentando entender a situação posta pela materia.

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  7. António Pacheco disse:

    QUERIA VER UM HOMEN DE 40 ANOS ENGRAVIDAR A FILHA DE 13 DE QUEM ACHA ISSO NORMAL FAZER ESSA CRIIANCA COM 14 ANOS CUIDAR DE UM BEBE UMA CASA UM MARIDO . NÃO FOI SÓ FICAR .HOUVE SEXO .NORMAL É NA CASA DOS OUTROS NA SUA GARANTO QUE NÃO ACEITARIA.

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  8. Christian disse:

    Pedofilia. Um homem de 40 anos seduzir e desvirginar uma criança de 13 anos é pura pedofilia.
    Pelo menos assim eu entendo..fosse o Zé da borracharia da esquina…teria sido linchado.
    Um canalha.

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  9. Ronaldo disse:

    A atitude desse indivíduo demonstrou a sua forma de pensar. Um adulto de mente saudável não admite a possiblidade de um relacionamento sexual entre um homem (ou mulher) de quarenta e um(a) jovem de 13. Esse tipo de ocorrência deve ser tratado em uma delegacia e em um consultório médico.

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