De quem é a culpa, afinal?

Por Ana Luisa Araujo

O recente caso da auxiliar administrativa Kelly Cristina Cadamuro, de 22 anos, morta na última quarta-feira após dar uma carona combinada em grupo de WhatsApp, tem relevância para a mídia por diversas causas. A imprensa, muitas vezes, se foca no fato de ela ter dividido o trajeto com um desconhecido. Por isso, diversas manchetes tendem a culpabilizá-la pelo crime e comentários das reportagens também seguem essa linha.

Um dos fatores a ser mencionado é que toda matéria precisa ter valor-notícia, uma razão que leve aquele acontecimento a ser veiculado. Mas se tratando de jornalismo de trauma, o que cobre tragédias e crimes hediondos, é necessário tomar cuidado para não atingir ainda mais as pessoas que sofreram com aquilo.

De forma majoritária, a atenção é voltada para a notícia usando o fato de ela ter dado carona, não por ela ter sido estrangulada e morta. O engenheiro civil Jonathan Pereira, 33, confessou ter matado Kelly. Antes disso, era foragido da polícia. O veículo cita, ainda, o namorado dela em sua manchete, dizendo que pediu para que ela tomasse cuidado.

O Estado de Minas alerta, também, para os cuidados que se deve ter ao dar carona a desconhecidos. Realidade presente no Brasil, existem até mesmo aplicativos, como Bynd e Caronetas, com intuito de conhecer pessoas que vão para o mesmo lugar e partilhar o caminho com eles. Se ela não tivesse dado carona, o assassino poderia buscar outra vítima. Dessa forma, por que são sempre as mulheres que têm que se proteger? Por que a culpa não pode recair inteiramente no assassino? Por que, mesmo quando não tem culpa, a sociedade tenta encontrar uma maneira de culpá-las?

De acordo com a Folha de S. Paulo, Kelly morava em São Paulo e costumava dar carona quando ia à casa do namorado, que mora em Minas Gerais, pois, sozinha, não conseguia bancar o custo da gasolina todas as vezes. O combinado, desta vez, seria levar um casal, mas, na hora, apareceu apenas um homem. A última vez em que foi vista e mandou mensagem para conhecidos foi em um posto de gasolina. 

Os efeitos dos enquadramentos de jornais podem ser escolhidos minuciosamente, porém, não quer dizer que sempre funcionem. A matéria do O Globo noticiou a tragédia de maneira mais adequada e fiel aos acontecimentos, dando ênfase ao assassinato em vez de culpar a vítima. Mesmo assim, é comum ver comentários que questionam a jovem, não o agressor. 

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Comentário retirado da matéria do site do O Globo.

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Comentário retirado da matéria do site do O Globo.

Os jornalistas dão mais relevância à Kelly ter dado carona do que ao fato de Jonathan tê-la matado, por que é como a sociedade se porta diante desse tipo de acontecimento? Ou os cidadãos fazem comentários como esses citados acima, porque a mídia os incentiva a pensar assim?

O senso comum diz que não é bom partilhar percursos com estranhos, mas a culpa, ainda assim, não é dela por querer dividir o preço da gasolina com alguém para ver o namorado com mais frequência. 

A culpa nunca é de quem sofre a violência, e títulos nem matérias deveriam reforçar esse pensamento. Não importa se a vítima andava sozinha e foi estuprada; se mexia no celular na rua e alguém, além de assaltar, a matou; se deu carona a um estranho e foi morta por ele.

Enquanto matérias e títulos sensacionalistas não responsabilizarem e chamarem a atenção apenas para o assassino, outras Kellys continuarão a levar toda ou parte da culpa por suas mortes.

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