Mídia e adultização infantil

Por Pollyana Fonseca

O significado de infância foi modificado com o passar dos tempos. Na Idade Média, não havia forte separação entre estágios de vida. Apenas no século XVII, com as ideias de cuidado e dependência, o conceito foi introduzido na sociedade. Porém, mesmo que a concepção da palavra tenha sido alterada, crianças ainda são tratadas como mini-adultos e a mídia tem responsabilidade nisso.

É muito comum que canais de televisão (como, por exemplo, o SBT), contratem crianças para apresentar programas infantis. Elas cantam, dançam e são sucesso entre o público. Desde cedo, são expostas e cobradas a ter uma imagem — geralmente mais infantil — antes mesmo de formarem uma visão sobre si mesmo. Quando crescem, a mesma cobrança acontece, mas por uma imagem mais adulta, e isso começa não pelo comportamento, sim pelo estilo.

Um caso recente chama atenção na internet. A atriz da série Stranger Things (Bagulhos Sinistros, em português), da Netflix, Millie Bobby Brown, de 13 anos, apareceu na première da 2ª temporada com estilo bem diferente: cabelos compridos e lisos, maquiagem forte e vestido de couro com salto alto. As mídias sociais foram à loucura, principalmente depois da publicação de capa da revista W Magazine, elegendo-a como um dos motivos  do porque a TV está mais sexy do que nunca, mesmo que, no interior da revista, Millie não é sexualizada, apenas foi citada na chamada para a matéria.

Por que isso acontece? Para um(a) artista crescer na indústria hollywoodiana ou na TV americana, é preciso estar em evidência. Quando assessores e estilistas produzem as meninas dessa forma, querem projetar uma imagem mais madura que, provavelmente, atrairá os olhares de um público mais velho e masculino. Esse fenômeno acontece com muita frequência: Britney Spears, Miley Cyrus e Lindsay Lohan são outros exemplos.

O fenômeno de adultização não é um caso exclusivamente internacional. A atriz e cantora Larissa Manoela, 16, era manchete aos 12 anos por conta de seus relacionamentos amorosos. Além disso, suas roupas não condiziam com a idade, muitas vezes, transformando-a em mulher no corpo de adolescente, abusando de saltos altos e maquiagem forte.

Qual o perigo? Transformar meninas em adultas interrompe a descoberta da infância e tira delas a inocência. O momento que seria usado para brincar, por exemplo, é substituído por responsabilidades de alguém maduro. A imagem de Lolita, famoso livro que mostra o “relacionamento” de uma pré-adolescente e um homem mais velho, criada nessas garotas reforça fetiches e impulsiona violência, o que dá espaço, inclusive, para pedofilia. De acordo com dados do Ministério da Saúde, abuso sexual é o 2º tipo de violência mais comum contra crianças com até nove anos de idade, ficando atrás de negligência e abandono.

Segundo a psicóloga Adria Santos, em entrevista ao Bom Dia Santarém, com adultização aparecem várias consequências, incluindo amadurecimento psíquico. Ademais, a criança pode desenvolver psicopatologias e, também, se isolar por se sentir fora do meio infantil. Ela diz, ainda, que essa é uma situação que traz muitas consequências negativas e que esses resultados estão sendo aceitos pelos pais.

A responsabilidade desse amadurecimento precoce não é apenas da imprensa, mas de toda a sociedade que permite e o aceita como normal. Dos pais, cabe a obrigação de observar a que os filhos são expostos, orientá-los e lutar pela integridade daqueles que estão aos olhos do público. Da mídia, compete evitar que essas mini artistas sejam expostas a tais situações e não usá-las em pautas indevidas. Tratar crianças como tal é uma forma de proteger sua saúde física e psicológica, evitando danos que, no futuro, possam ser irreversíveis.

2 comentários sobre “Mídia e adultização infantil

  1. Jess disse:

    Muito bom o texto. Hoje em dia é tão comum encontrar nas redes sociais mais populares crianças usando roupas, maquiagem, acessórios de adultos. Realmente cabe aos pais fazerem com que suas crianças aproveitem a infância de forma correta sem pular estágios para que futuramente se tornem jovens e adultos psicologicamente saudáveis.

    Curtido por 1 pessoa

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