Infância sob os holofotes

O que acontece com a infância por trás do glamour que a fama e o dinheiro trazem?

Por Fernanda Araújo
A exploração do trabalho infantil se dá de muitas formas e em diferentes realidades. A maioria delas é amplamente condenada pela sociedade como em casos de trabalho em lixões, pedreiras, indústrias e em atividades ilícitas como tráfico e prostituição. Mas e quando este trabalho é no meio artístico?


A Constituição proíbe que jovens trabalhem antes dos dezesseis anos, exceto, apenas, na condição de aprendiz a partir dos quatorze. O trabalho infantil ganha brecha no meio das manifestações artísticas, uma vez que não se caracteriza como trabalho regular. Isto inclui teatro, programas de televisão, filmes e etc. É necessária a autorização da Justiça da Infância e da Juventude que deve considerar vários fatores da vida da criança e das condições de trabalho para que seja possível haver medidas de proteção. Porém nem sempre estas autorizações são analisadas com a atenção necessária.
O glamour trazido pela fama e pelo dinheiro por vezes esconde os desgastes físicos e psicológicos enfrentados por essas crianças. É importante não esquecer que ainda são crianças em plena fase de desenvolvimento que precisam de tempo livre para brincar, exercitar sua criatividade e ficar com amigos e familiares. Porém elas possuem agendas de compromissos como adultos, passam horas em sets de gravação e em aulas para que possam melhorar suas habilidades. Há longas esperas, constrangimentos, excesso de popularidade ou segregação na escola, ansiedade, acidentes e fadiga excessiva. Mesmo que possuam tempo livre, seus horários devem ser bem geridos.
A criança, familiares e amigos podem se encontrar muito expostos. Recentemente, o ator Finn Wolfhard, que interpreta o personagem Mike, de Stranger Things reclamou em seu Twitter sobre o assédio dos fãs. No tweet ele mostra ofendido e defende seus amigos e colegas de trabalho ao pedir que pare o assédio. Em 2009, a atriz, cantora e apresentadora Maisa Silva revelou no Programa do Silvio Santos que paparazzis a fotografaram na escola com colegas. A escola e os pais de seus amigos se mostraram preocupados com a possível exposição. Casos como estes evidenciam que a privacidade dessas crianças tem sido roubada.

É difícil mensurar até que ponto isto é saudável e quais os prejuízos podem acarretar.
Crianças que chegam ao estrelado e sucesso muito cedo podem desenvolver depressões, questões psicológicas e envolvimento com drogas. Se a fama pode ser difícil de lidar para um adulto imagina para uma criança. A história de Hollywood está repleta de atores mirins que em algum momento se perderam na fama e se tornaram adultos problemáticos. Macaulay Culkin se tornou conhecido mundialmente em Esqueceram de Mim, aos 10 anos, em 1990 e são muitas as discussões cerca de seu envolvimento com heroína e outras polêmicas.
Outra questão a ser levada é a exposição da criança em gravações que possuem violência e agressividade. Em 2002, Cidade de Deus, de Fernando Meirelles chegou aos cinemas e retratava a realidade da favela que chegou a ser uma das mais perigosas do Rio de Janeiro. Segundo o site Pop Crunch, o filme possui uma das cenas mais violentas do cinema. O personagem Zé Pequeno força duas crianças a escolherem onde vão levar um tiro, na mão ou no pé. Em seguida, obriga o Filé com Fritas a matar uma das crianças. A criança com o pé perfurado foi interpretada por Felipe Paulino da Silva, aos 7 anos, que realmente chorou nas gravações. Em uma coletiva o diretor do filme disse que apesar do acompanhamento de profissionais no set “o Felipinho confundiu ficção com realidade”. Isto mostra que mesmo com o acompanhamento é muito difícil ter total controle dos riscos à saúde principalmente moral e psicológica das crianças.
Estes jovens muitas vezes se sentem pressionados pelos pais para que sigam na profissão. Os pais podem ser a oportunidade de melhorar a vida da família ou mesmo realizar sonhos frustrados e com a pouca idade, as crianças não tem como dizer não. E se as famílias passam a depender do pagamento da criança, há a possibilidade de aceitarem condições que são contrárias aos seus interesses.
É um direito da criança poder participar de manifestações artísticas, mas há uma diferença entre trabalhar em uma novela de grande audiência e participar de uma apresentação na escola. Se não é possível vetar todo e qualquer trabalho infantil no meio das artes é preciso que o Estado e a família se unam e acompanhem de perto estas crianças a fim de que seu desenvolvimento moral, psicológico e social sofra o menor número possível de mudanças negativas. A vivência de cada indivíduo é única e condicionada por diversos pessoais e sociais, há casos de jovens que conseguiram lidar muito bem com a fama e o dinheiro. Mas é preciso, acima de tudo, respeitar os direitos dessas crianças e salvaguardá-las.

 

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