Longe de Momo

O lugar da leitura crítica da mídia no SOS Imprensa

Por Rafiza Varão
Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília
Coordenadora do projeto SOS Imprensa

Faltando menos de dez dias para 2018, cabe a reflexão sobre a retomada da prática da crítica da mídia realizada pelo SOS Imprensa em 2017. Permitam-me, por um instante, esquecer os fartos acontecimentos que nos circundam nessa virada e direcionar nossa última publicação deste ano para o projeto e aquilo que ele cumpriu. Os números são expressivos. No segundo semestre de 2017, foram 32 textos publicados entre setembro e dezembro, uma média de oito por mês. Desses, apenas um foi escrito por um profissional formado em Comunicação/Jornalismo. Todo o restante nasceu das mentes, corações e mãos ágeis de estudantes, extensionistas do SOS. Isso significa, ainda que essa seja um aspecto pouco percebido pelos nossos leitores, que o SOS cumpre uma função formativa que não é menos relevante que a publicação e circulação dos escritos que produzimos.

Na verdade, a dimensão oculta dessa produção se revela elemento chave para o propósito da crítica da mídia no SOS Imprensa. Qual seria esse desígnio? Qual é o lugar da leitura crítica da mídia no SOS? O que esse movimento pode agregar à formação de jornalistas e comunicadores?

De inspiração sobretudo americana, a ação de autoanalisar a mídia no Brasil tem origens mais perceptíveis a partir do final da década de 1980, quando a persona do ombudsman foi instituída em alguns importantes veículos no país, como a F. de São Paulo. Antes disso, o Jornal dos Jornais (1975-1977), coluna de Alberto Dines também na F. de São Paulo, já havia ensaiado a possibilidade de se criticar os meios jornalísticos a partir da própria imprensa. Apesar da figura do ombudsman ter tido um impacto positivo no cenário jornalístico, sua atuação se limita(va) a uma esfera interna e endógena (ainda que tornada pública), uma vez que se analisa um jornal do qual se faz parte – o que torna sua ação restrita. De fato, a crítica mais abrangente aos media viria das chamadas Journalism Reviews (JRs).

Essas revistas aproximaram o jornalista de mercado do ambiente acadêmico, que já efetuava, de várias formas, a apreciação do conteúdo produzido pelos media em pesquisas no âmbito de seus programas de pós-graduação. Para se ter uma ideia da valorização desse tipo de publicação, entre a década de 1960 e 1970, surgiram mais de 25 JRs nos Estados Unidos. Entre elas, a prestigiadíssima Columbia Journalism Review, da Universidade de Columbia, fundada em 1961.

O ideal das JRs se expandiu de outro modo no Brasil, de forma tímida, entre as universidades e faculdades de Comunicação mais do que em publicações autônomas. A área – que ainda não havia passado pela cisão que transformou Jornalismo em um curso à parte –, passou a incluir em seu currículo disciplinas como Observatório da Mídia ou Crítica da Mídia, além de outras variedades cujo objetivo era/é fornecer ao aluno insumos para avaliar a mídia de maneira mais consistente. Muitas publicações e pesquisas científicas passaram a ter a crítica da mídia em seu escopo.

Contudo, tanto as JRs quanto os materiais produzidos exclusivamente por acadêmicos, não ficaram, eles mesmos, incólumes à crítica. Foram continuamente acusados de baixa qualidade, reles maledicência, ou sendo chamados de, como afirmou Jean-Claude Bertrand no livro O arsenal da democracia: sistemas de responsabilização da mídia (EDUSC, 2002), “medíocres ninharias, veículos de vaidade pessoal, folhas de recriminação, atentados dissimulados contra a livre iniciativa ou mesmo incentivos à intervenção governamental”.

Em muitos casos, trata-se de uma generalização que toma partes como um todo, pois a crítica da mídia, seja mais acadêmica ou mais jornalística, pode carregar grandes traços de subjetividade – o que o imaginário que se construiu tanto sobre a ciência quando sobre o jornalismo parece não aceitar como integrante nem de uma atividade nem de outra.

Ora, em se tratando de jornalismo, o lugar da crítica é o da opinião e não o do método científico que busca expurgar qualquer elemento subjetivo de suas análises, oferecendo um objetivismo imaculado, anulando o autor dos discursos, como se este fosse apenas um vidro transparente, por onde as imagens do mundo seriam percebidas tal e qual elas são. Como se, entre o autor e o mundo, não houvesse a mediação da cultura.

Por outro lado, nesse mesmo jornalismo, a formação para a opinião não pode se dar de maneira leviana, validando todo e qualquer posicionamento, num reinado absoluto do subjetivismo. No campo profissional, as técnicas ensinam que para realizá-la de forma competente é necessário mais que mero palpite, intuição ou crença. É preciso conhecimento de causa, dados aferíveis, análise contextual, responsabilidade social; é inescusável o atendimento de preceitos éticos e deontológicos. Esses ingredientes, apesar de não colocarem a produção jornalística no mesmo patamar de uma reflexão científica, a afastam da expressão trivial e inconsequente de um julgamento frívolo. O mesmo se dá em relação à crítica da mídia, evitando a opinião pura e simples. É a partir dessas diretrizes que a presença da leitura crítica da mídia se constitui no SOS Imprensa.

Quando ensinada no âmbito do projeto, a crítica da mídia tenta, ao máximo atender a esses princípios, numa perspectiva do ensino e da aprendizagem, não de domínio completo da atividade. Mesmo os tropeços oferecem a ocasião para pensar a mídia a partir daqueles que um dia comporão os seus quadros.

Aí está outra questão relevante para os esforços investidos nesse trabalho: é consenso que não devemos formar apenas para fomentar habilidades técnicas em nossos estudantes. É imprescindível o mais. Devemos formá-los para ponderar e transformar o tão aguardado e temido mercado de trabalho. Ao oferecermos a possibilidade de refletir sobre a mídia criticamente, propiciamos que se deixe de reproduzir seus discursos mecanizados e, por vezes, a destruição de preconceitos tomados como imutáveis. Criamos no aluno o motor da reflexão, não a engrenagem da aceitação passiva de regras implausíveis.

O texto de crítica se mostra, então, como um movimento de construção e desconstrução do modus operandi jornalístico, evidenciando que ele se dá pela ação dos sujeitos que o constituem, não por imposição, mas por movimentos complexos de dupla via. A formação para a crítica da mídia não dá apenas o ferramental, mas oferece a compreensão de que nada nesse setor é mecânico, que o lugar da produção deve ser também o lugar do pensamento. Se espera afastar a crítica da percepção que o senso comum lhe oferece e que parece carregar os traços de Momo, aquele a quem o carnaval brasileiro elegeu rei.

Filha de Nix (a Noite), Momo está entre as muitas divindades gregas que têm fama reduzida diante dos senhores do Olimpo. As poucas histórias que temos a seu respeito contam que a entidade foi escolhida para julgar obras de Zeus, Posêidon e Atenas. Escarnecendo de todas elas (e dos próprios olimpianos), não só perdeu a simpatia dos deuses, mas ficou associada ao deboche, à ironia, ao sarcasmo e ao desprezo – elementos que distribuiu na apreciação de todos (e que vimos, de certa forma, presentes nos comentários às JRs). Não à toa, um dos significados de seu nome corresponde à palavra crítica e, provavelmente pelo comportamento que acabou expulsando-a da mais alta montanha grega, há muito em sua simbologia que define o ato de criticar para o senso comum: falar mal, espalhar a maledicência, reclamar sem motivo justificável. Mas a verdade é que a crítica jornalística profissional e a formação para ela devem se colocar bem longe dessa caricatura, distantes de Momo. É esse, então, o lugar da leitura crítica da mídia no SOS Imprensa: o lugar do exercício para a responsabilidade, fora da esfera de influência e mal-entendidos daquele que comandará nossa mais importante folia em fevereiro. E que venha 2018!

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