Self-journalism: o jornalismo que grita

Murilo Fagundes, especial para o SOS Imprensa 

Começar o texto com primeira pessoa talvez seja um erro crasso na escrita jornalística. Até pretendia fazê-lo, mas pensei que a editora pudesse cortar o meu “eu”. Aliás, este é o medo no jornalismo (dito) tradicional: mostrar a cara. Chamar o “eu” do repórter que fica guardado. Deixar de seguir a doutrina das hard news, as notícias duras. Mas aí aparece um tal de self-journalism, que nem sabe se quer ser chamado assim, e reconstrói a tradição. Essa nova vertente altera a produção noticiosa, a qual, convenhamos, já conquista novos e distantes mares. Traduzindo os termos self-journalism, confessional journalism, personal journalism, respectivamente, autojornalismo, jornalismo confessional e jornalismo pessoal são segundas ou até terceiras vias para o jornalismo, o qual ocupa as grandes emissoras de televisão, os expressivos veículos impressos e os acessados portais de notícias.

Depois de conhecer o livro Em nome dos pais, do jornalista investigativo do G1 Matheus Leitão, resolvi pesquisar mais sobre o jornalismo pessoal, denominação a qual escolhi para me referir a esse estilo jornalístico. O autor é jornalista, brasiliense, nascido em 1977, com especialização em jornalismo investigativo pela Berkeley Journalism, na Califórnia, e escreveu a obra, que poderia facilmente ser só mais uma tentativa de desvendar as cenas obscuras da época da ditadura militar. Mas foi muito mais. Ele quis investigar histórias em que seus pais estiveram presentes como vítimas. Os também jornalistas Miriam Leitão e Marcello Amorim Netto, ainda jovens e ela grávida, foram torturados e presos pelos militares. O filho, mais de 40 anos depois, foi atrás do delator dos dois, Foedes dos Santos. E essa mistura de vivências, as quais Matheus conta muito bem na obra, fazem dela um forte nome do jornalismo pessoal no Brasil.

Matheus talvez não tenha seguido o jornalismo confessional na produção de Em nome dos pais, já que esse tipo de jornalista representa ninguém além de si próprio, segue uma linha mais intimista e pouco coletiva. Leitão representou os filhos dos torturados, deu voz a uma geração, a qual, mesmo não sendo a dele, pôde se posicionar. Além disso, trouxe à tona casos esquecidos e pouco elucidados. A história consegue ir “além da dimensão pessoal porque a mesma pessoa (Foedes dos Santos) entregou para a repressão mais de 20 outros estudantes e até um dirigente do PCdoB, que morreu sob tortura”, de acordo com a apresentação no blog do jornalista do G1. Enfim, Matheus construiu uma narrativa pessoal, emocionada, transparente, mas, dando a cara à tapa, investigou como jornalista profissional, de forma astuciosa, sem deixar de se envolver como filho.

“Mesmo assim, eu sentia que não havia detalhes, retratos jornalísticos profundos, mas apenas histórias dos pais contadas para um filho curioso e perguntador. Um filho jornalista.” Fragmento de “A Espera”, versão online da história de Matheus na plataforma Brio, quando ele fala da vontade de investigar o passado dos pais como jornalista.

O eu no outro

A ideia de simplesmente informar vai se tornando obsoleta e quem acessa os portais de notícias pretende saber mais do que uma informação, muitas vezes, já difundida nas mídias sociais. Os comentários das publicações são rapidamente preenchidos e os internautas começam a interagir, infelizmente de forma violenta em diversos casos, já que os conflitos de ideias trazem irritação em tempos de bipolarização política. O jornalismo pessoal, nesse cenário, vem com a missão de tentar tocar as pessoas, às vezes sem esse dever predefinido.

A internet cumpre o papel de divulgar instantaneamente as notícias. Desse modo, informações básicas componentes do lide — o quê, quem, quando, onde, como, por quê, presentes no primeiro parágrafo de uma matéria — não bastam para o leitor. Quem acessa uma produção jornalística quer ver a voz individual de quem escreve, e não mais um fato qualquer. Essa vocação é comprovada pela linha de produção dos grandes veículos internacionais, os quais, há alguns anos, criaram novas plataformas de reportagens mais opinativas. Essas permitiram intromissão da opinião pessoal de quem escreve e com a plataforma Vice.com, a qual altera as perspectivas da reportagem.

Quadro: o jornalismo pessoal e confessional nos grandes veículos internacionais

CNN: projeto “Primeira Pessoa”, uma “série de ensaios pessoais explorando identidade e pontos de vista pessoais que moldam quem somos”, segundo o veículo;

The New York Times: uma série chamada “Sofá” que explora as complexidades da terapia através de ensaios escritos por psicoterapeutas e pacientes;

The Washington Post: “PostEverything” se destacou pela tendência, promovendo textos em primeira pessoa;

Vice.com: tendência crescente de ensaios pessoais no jornalismo.


Nesse sentido, surge uma dúvida: como diferenciar o jornalismo pessoal do intrometido, imparcial? A resposta está na ética, aquela da velha guarda, que nunca deve ser esquecida. O primeiro continua valorizando verdade, fatos, justiça e produção jornalística íntegra. O que muda é a forma de escrever. Os “jornalistas pessoais” fazem mais do que simplesmente relatar a história. Os escritores simpatizantes dele abrem a porta para o leitor. Ele pode, dessa maneira, saber quem é o escritor, no que ele acredita e o que acha interessante.

Fuga do deadline

No ponto de vista do jornalista, que sente na pele as dificuldades da profissão, o jornalismo pessoal pode estar se destacando por ser uma válvula de escape para orçamentos enxutos dos jornais, rotina maçante das hard news e, principalmente, para oprazos ultra-apertados da produção de notícias tradicional. Com o self-journalism, é dada ao profissional a possibilidade de entrega não somente da emoção, mas da técnica. É a chance de o repórter retirar da manga a carta que pode mudar os rumos dos dias de trabalho, muitas vezes, fatigantes e exaustivos.

A proximidade com o relato confessional do jornalista é, além de uma saída interessante para o profissional, uma das inclinações de um público novo que se forma, o qual acaba confiando mais na história de alguém que passou por ela. O repórter do Correio Braziliense Pedro Grigori, por exemplo, resolveu conhecer quem estava por trás das famosas placas de “trago seu amor de volta”, espalhadas pelas ruas da capital. Mas resolveu fazer isso pessoalmente. Ele visitou uma conselheira espiritual para saber como funcionava a consulta e, depois disso, publicou na íntegra um texto em primeira pessoa narrando a experiência.

“Durante a consulta, ela falou de diversas pessoas da minha vida, todas realmente existem. Adivinhou problemas que estou vivendo, previu mudanças positivas. Até a pessoa que ela dizia ser o ‘meu destino’ tinha características semelhantes às de alguém que realmente existe. Mesmo assim, não saí de lá convencido dos poderes que ela dizia ter”, conta Pedro na reportagem publicada no jornal em agosto do ano passado.

Sentimento compartilhado

Nas listas de publicações de portais de notícia, matérias sobre tragédias, acidentes, mortes e relatos de vítimas costumam estar entre as mais clicadas. Tal comportamento também reflete o crescimento do jornalismo pessoal, o qual trabalha com sentimentos, reflexões e relatos detalhados sem muitas barreiras entre quem escreve e quem lê, assiste ou ouve. É interessante pontuar aqui essas histórias emocionantes, que não necessariamente expõem uma relação direta com o self-journalism, mas com o sentimento compartilhado com o leitor, o que acaba sendo catalisador do jornalismo pessoal.

Ao definir valores-notícias de construção, ou seja, ao analisar o que é levado em consideração na montagem da notícia, o teórico da comunicação Nelson Traquina reforça a ideia de que o lado emocional é realmente realçado e priorizado em algumas peças jornalísticas. Para ele, o valor-notícia da “dramatização” é um dos quais devem ser valorizados na hora de produzir uma peça jornalística.

Nesse cenário, ouvir as pessoas no coração da notícia é essencial para se obter uma variedade nos relatos. A experiência pessoal acaba abrindo uma visão completa de como as pessoas se comportam; Por isso, hoje, nas redações de jornais, a construção de personagens é tão solicitada para quem vai às ruas cobrir uma tragédia.

A confiança do leitor, a partir daí, é buscada por meio da aproximação dele com a história da vítima, assim como ocorre em novelas e séries. Porém, a diferença é que, no jornalismo, em vez de ficção, a narrativa é real.

Por exemplo, quando há queda de avião ou acidente de carro, algumas das tarefas do repórter são: encontrar a família dos mortos ou até os passageiros que sobreviveram, saber o que faziam, o que comiam, onde moravam, aonde iam, com quem falaram, quais eram os amores, as angústias. Enfim, o jornalista precisa construir enredo e personagem, mesmo sem perceber. Todo esse conjunto dramático capta envolvimento e, muitas vezes, emoção de quem interage.

Em nome dos pais, de Matheus Leitão, também decide contar a história a partir da intuição do próprio autor, o qual, quando encontra informações do delator dos pais, decide fechar a “pauta”, termo usado para definir um roteiro que contém os assuntos mais importantes a serem incluídos em uma obra jornalística. A diferença fica no propósito da obra do brasiliense, a qual não necessariamente busca criar personagens, mas entendê-los. A mistura de emoções que toma conta da mente racional do jornalista investigativo é tão evidente que ele chega a hesitar e conta:

“Mandei um e-mail para os meus pais com o título: ‘Encontrei ele’.

[…]

Começava assim a ideia da minha pauta: ‘Foedes dos Santos foi o traidor que tornou possível a desarticulação do PCdoB e o isolamento da guerrilha do Araguaia, em 1972. Enquanto o partido se dividia no combate à ditadura entre o campo e a cidade, as Forças Armadas usaram Foedes, um integrante do comitê central, como seu principal informante, para prender, torturar e matar outros importantes dirigentes do PCdoB no Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Dois deles, Lincoln Cordeiro Oest e Carlos Nicolau Danielli, sucumbiram após a delação. Meus pais foram presos pelas informações passadas por ele. Sabemos onde Foedes está, em Cariacica, Grande Vitória, e podemos contar sua história’.

Todavia, hesitei. Era a busca de um passado que não era meu, de uma geração que não era a minha. Era a busca do passado dos meus pais.”

Fragmento de “A Espera”, versão online da história de Matheus na plataforma Brio, quando encontra o delator dos pais, Foedes dos Santos.

Foedes e matheus 1

Aperto de mãos entre o jornalista Matheus Leitão e o torturador Foedes dos Santos. (Foto: Eduardo Gomes)

Num cenário platônico, o jornalismo pessoal atua como saída em uma caverna de mesmices. Para jornalistas que pretendem descobrir grandes mistérios ou investigar problemáticas ligadas a eles, as reportagens pessoais, quando exercidas de forma austera e profissional, podem sem interpor como caso de sucesso, o que é concretizado com o livro Em Nome dos Pais. Matheus Leitão não somente conta uma história motivada por indignação, mas essa necessidade imbuída de emoção é essencial para, a partir de uma investigação de extrema expertise, coadunar diversas reviravoltas que prendem o leitor na apuração de uma narrativa com base jornalística.

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