Bílis, ódio e mau sentimento: suprema indigestão entre Gilmar e Barroso

Por Luiz Neto

Na última quarta-feira (21), os ministros Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso entraram em um show pirotécnico de insultos numa sessão do Supremo Tribunal Federal (STF). Era sobre uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) acerca do fim das doações ocultas em campanha eleitoral, ou seja, quem doa não precisa se identificar, o que facilita fraude e lavagem de dinheiro. Dentre as muitas farpas trocadas, estavam acusações veladas de corrupção e transtorno psiquiátrico.

Barroso assumiu o cargo de ministro do STF indicado pela então Presidente Dilma Rousseff. Fez mestrado na Universidade de Yale e ficou conhecido por ser a favor da legalização da maconha. Certa vez, por exemplo, afirmou, em sessão do STF, que, assim como não é ilegal beber ou fumar cigarros, não deve ser para “baseado“.

Já Gilmar Mendes é bacharel e mestre em Direito pela Universidade de Brasília (UnB). O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) se declarou como “seletivamente mercurial” no programa Roberto D’Avila, da Globo News, em 25 de janeiro de 2017. A natureza instável do mercúrio, elemento que expande e encolhe por pequenas variações de temperatura, explica bem o comportamento do ministro.

Na sessão de quarta-feira, a temperatura do ambiente deveria estar altíssima enquanto Gilmar bradava: “Lula com aviãozinho lá em Bagé […], quem financia isso?”. Também alertava contra o que chamou de “direito do eu acho”: “Ache na Constituição!”. A função do STF, órgão máximo do Poder Judiciário, é, afinal, a proteção dela.

“A vida para Vossa Excelência é ofender as pessoas”, respondeu Barroso. Aparentemente, o ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ofendeu mais cedo não somente a presidente do STF, Cármen Lúcia, mas também o ministro Luiz Fux e o próprio Barroso. “É muito penoso para todos nós termos que conviver com Vossa Excelência aqui”, disse, referindo-se a Gilmar.

Em agosto de 2017, no programa Conversa Com Bial, da Rede Globo, Barroso afirmou ter o hábito de não comentar a situação de colegas ou criticá-los publicamente. No entanto, as críticas que poupou a Gilmar na mídia foram guardadas para o dia 21. “Deixe-me de fora deste seu mau sentimento. Você é uma pessoa horrível. Uma mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia”, disse ele.

Esse ranço não é novo ou secreto. No ano anterior, também no STF, o ministro disse a Mendes: “Vossa Excelência normalmente não trabalha com a verdade”. Pode-se imaginar que o ambiente de trabalho ali seja tão amigável quanto uma rinha de galos. Gilmar respondeu com acusação velada de corrupção. “Feche seu escritório de advocacia”, mandou. Barroso respondeu, em carta para Cármen Lúcia, que já o havia fechado em 2013.

Mas o que justifica toda essa exposição midiática? Comparada a outras democracias, dificilmente se vê tamanha exposição de um tribunal constitucional como aqui. No Brasil, juristas como Ricardo Lewandowski e Joaquim Barbosa se tornaram celebridades. O trabalho enaltecedor feito pela imprensa sobre o último foi tão grande que ele pode se tornar o candidato à Presidência da República pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). A imprensa os tornou vulneráveis ao escrutínio público e, depois de sair da corte, ainda buscam uma dose dessa droga cara chamada fama.

O STF, depois da Operação Lava-Jato, se tornou um grande espetáculo de entretenimento público alimentado por meios de comunicação estatais e cobertura extensiva da mídia tradicional. A transmissão ao vivo do julgamento do ex-Presidente Lula, por exemplo, foi inédita na curta história do Superior Tribunal de Justiça (STJ).  “Sugere-se trocar a toga por camisas de força”, brincou Boechat, na rádio Band News, ao comentar a discussão. Foi algo tão fora do comum que até um samba foi feito com as falas de Barroso. A camisa com a agora famosa citação está à venda por R$59,90 na internet.

Nas mídias sociais, a repercussão foi grande e temporária. Não demorará muito para que isso se torne apenas mais uma referência distante nas threads (sequência de tuítes sobre um assunto), mas certamente deixou sua marca nas referências. A Mídia Ninja publicou no Twitter a versão da fala de barroso no formato de poesia modernista.

O maior motivador disso tudo parece ser algo aparentemente inédito ao grande público: um jurista flagrado sendo sincero. Chamar o Gilmar Mendes de “pessoa horrível” não é um desejo pouco popular, perdendo, talvez, apenas para a conquista do hexacampeonato da Copa do Mundo e da paz mundial. A grande pergunta que fica é a seguinte: o que vai sair disso? Gilmar Mendes já deu a resposta em entrevista no programa Roberto D’Avila, em 2017: “A vida no colegiado é assim mesmo, nós trocamos palavras mais ásperas em dado momento, no momento seguinte somos aliados”.

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