Demissões na UnB: como a mídia desumaniza os terceirizados?

Como a universidade tenta lidar com o déficit orçamentário de 2018 e os protestos de funcionários e estudantes contra essas estratégias

Por Gabriela Mestre

A funcionária de limpeza Daysianne Guedes, de 26 anos, trabalha na Universidade de Brasília (UnB) há quatro anos. Mora em Ceilândia – DF, a 35 quilômetros do campus Darcy Ribeiro, é casada e mãe de dois filhos. “Meu emprego, para mim, é importante, porque é através dele que eu posso realizar alguns sonhos meus e programar o futuro dos meus filhos”, conta ela. Contudo, ela corre o risco de ser uma dos 242 terceirizados da UnB a serem demitidos ainda em 2018 em razão de cortes de verbas da Universidade.

A UnB prevê déficit orçamentário de R$92,3 milhões para este ano. Dentre os custeios, R$137 milhões são direcionados ao pagamento de despesas como água, luz e limpeza e R$214,5 milhões, a contratos de prestação de serviços. Diante disso, negociações de aumento da receita e corte de R$39,8 milhões nos gastos são estratégias a serem adotadas.

Para isso, a reitoria propõe  demissão de 55% dos funcionários da empresa RCA Serviços, da qual Daysianne faz parte, migração de contratos de estagiários da administração central para os departamentos e aumento de 160% no valor da refeição do Restaurante Universitário (RU) gerido pela Sanoli, que passaria a custar R$ 6,50 para almoço e jantar. “A faculdade tem tudo para perder”, destaca Daysianne. “A gente é importante, sim. Sem a gente, vocês não têm educação”, completa.

Movimentação universítária: do RU ao MEC

Terceirizados, estudantes e técnicos administrativos persistem em realizar atos na UnB contra as demissões. O último protesto na reitoria ocorreu na segunda-feira (26), com 300 pessoas, seguido de assembleia na quarta-feira (27), na qual Daysianne discorreu em uma palestra. Um abaixo-assinado pela permanência dos terceirizados reuniu 24 mil assinaturas de membros da universidade.

Para o aluno de Engenharia Elétrica João Rabelo, 21, a participação estudantil em atos universitários é crucial. “O terceirizado, dentro da estrutura da Universidade não tem voz”, afirma ele. “É muito importante que os estudantes se mobilizem para defenderem a própria universidade”, finaliza.

Em 10 de abril, um comitê em defesa pela UnB, formado por meio de audiência pública no ano passado, pretende entregar carta ao MEC solicitando restauração no orçamento para a universidade. Até essa data, assembleias serão formadas pelos estudantes, docentes e servidores em prol dessa reivindicação direta ao ministro da educação Mendonça Filho.

Apesar da importância dessas mobilizações, pouco se vê na mídia a representação do posicionamento do corpo estudantil e dos funcionários. Quando noticiadas, as ações vinculadas aos protestos e assembleias da instituição são de forma ilustrativa, sem análises, abafando a essência reivindicadora dos manifestantes. O valor da notícia tem enfoque no acontecimento em vez das contestações.

Também, outros dois pilares são questionados pelos movimentos: aumento de 160% no preço da refeição do RU, ainda que o contrato com a Sanoli tenha sido reduzido em 15% em 2017, e possibilidade de demissão de vigilantes da UnB, afetando a segurança, que já é precária. Entre novembro de 2016 e setembro de 2017, oito assaltos, 115 arrombamentos de veículos, 155 furtos e 26 ameaças e agressões foram registrados na UnB.

PEC 241 e UnB

Não é o primeiro grande movimento na UnB por direitos. Em 2016, graduandos ocuparam a instituição contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 241 ou PEC 55, que congela por 20 anos gastos em saúde, assistência e previdência sociais e educação do país. Para o então ministro da fazenda Henrique Meirelles a proposta visa “recolocar o Brasil no caminho da justiça social com desenvolvimento de verdade”.

Com relação entre a PEC 241 e os cortes na UnB, a coordenadora-geral do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE/UnB) Scarlett Rocha, 26, vê as demissões como processo político. “Minha perspectiva pessoal é que essa atitude de demissão é uma atitude política. Ela não tinha que ser tomada por essa gestão”, relata. Ela considera que saber da redução orçamentária não é o suficiente para dimensionar a problemática da questão.

Para Scarllet, também são necessários esclarecer as contas da universidade para entender o déficit. “A gente precisa que as contas da Universidade sejam publicadas”, diz a coordenadora. “Foram realizadas licitações na gestão anterior para contratação da empresa que presta serviço para o RU. A gente não sabe em quais termos essa licitação foi contratada […], é questionável”, revela.

Brasil afora

A ocupação na UnB em outubro de 2016 integrou uma mobilização do país inteiro e 1154 instituições de ensino também foram ocupadas, sendo 102 universidades. As verbas destinadas à universidades federais sofreram corte de 45%, o que representa cerca de R$ 350 milhões. A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), por exemplo, mesmo sem a PEC 241, esperava em 2016 a redução no seu orçamento de até 48%.

Quando ocupadas as instituições, foi perceptível o enviesamento midiático buscando reforçar o rótulo de que os manifestantes tinham, essencialmente, o objetivo de burlar aulas e, consequentemente, causar desordem. Mais uma vez, impôs-se uma cortina na essência das reivindicações dos protestos, as quais seriam em prol de investimentos acadêmicos dignos.

A coordenadora geral do DCE Nossa Voz da UFMT, Anna Carolyna Costa Marques, informou que passeatas, manifestações, ocupações na reitoria e na Secretaria de Tecnologia da Informação (STI) acontecem lá. Atos são contra aumento do valor do RU e diminuição da quantidade de auxílios para estudantes. “Nós, estudantes, somos os mais afetados”, considera ela.

É costumeiro que a mídia retrate os movimentos das instituições de ensino contemplando meramente números, seja no corte dos milhares à educação, seja na porcentagem de funcionários terceirizados a serem demitidos. No caso desses, no entanto, o grupo clama pela humanização dessas relações. Mais que corte nos gastos, a demissão significa o desemprego frio de um ser humano. A funcionária, mãe e esposa Daysianne Guedes revela que se sente vista “como mão-de-obra e não como pessoa”.

A mídia nacional mostrou-se despreocupada com o corte de verbas da PEC 241 e não deram a devida importância para o caso. Propositalmente, pouco a retrataram, uma vez que tal medida governamental se reporta aos poderes que os concedem privilégios nos meios de comunicação. Um exemplo de benefício são os olhos tapados frente ao artigo 220 da Constituição Federal, que proíbe monopólios e oligopólios das empresas de comunicação

Por sua vez, os veículos midiáticos de Brasília foram convenientes em retratar a crise financeira na UnB, como o Correio Braziliense  e MetrópolesEntretanto, ignoraram em suas matérias o fator humano dessa problemática. As entrevistas levam o nome de líderes dos grupos institucionais da universidade, sem se importar em dar voz aos terceirizados, nem aos estagiários, grupos que diretamente serão afetados com as demissões. Por fim, orientaram a culpa do desgaste monetário à reitoria e empurraram a PEC 241 para debaixo do tapete, pois não a qualificaram como causa da recessão financeira da educação.

É válido ressaltar que houveram matérias buscando dar voz aos estagiários e terceirizados da universidade, principais afetados pelas demissões, como no próprio Correio Braziliense. No entanto mostra-se uma exceção em meio aos outros casos já citados. Não obstante, essas personagens continuam a procura de mais espaços para não apenas se manifestar, mas também revelar a contrariedade às prioridades equivocadas dos cortes orçamentários, como as demissões.

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