Mecanismo da Discórdia

 Papel Da Mídia Na Polarização Política

Por Eline Sandes

Embora mal tenha completado uma semana desde a estreia, a série O Mecanismo tem polarizado os debates ideológicos nas mídias sociais e na imprensa. Criada pelo cineasta José Padilha, com o propósito de explanar e dramatizar, por meio de uma narrativa aos moldes hollywoodianos, a gênese da Operação Lava Jato, o seriado é acusado por muitos de difamação e de manipulação dos fatos.

Entre as muitas polêmicas geradas, a mais destacada gira em torno de uma fala do personagem João Higino (inspirado no ex-presidente Lula), no quinto episódio: “a gente precisa estancar essa sangria”. Na realidade, a expressão foi dita pelo senador Romero Jucá (MDB), e não pelo ex-presidente. Essa e outras “distorções dos fatos”, como a cronologia do escândalo do Banestado – o qual constou em desvio de dinheiro público para contas bancárias no exterior, na década de 1990 – culminaram em uma campanha online, intitulada “CancelaNetflix”, em prol de um boicote à plataforma de streaming, e até mesmo em uma nota de esclarecimento da ex-presidente Dilma Rousseff, no domingo (25). “O cineasta faz ficção ao tratar da história do país, mas sem avisar a opinião pública. Declara basear-se em fatos reais e com isso tenta dissimular o que está fazendo, ao inventar passagens e distorcer os fatos reais da história para emoldurar a realidade à sua maneira e ao seu bel prazer”, afirmou Dilma.

Padilha, que conquistou a fama com os dos dois filmes Tropa de Elite e com a série Narcos, também da Netflix, remete-se à discussão como “boboca” e comentou, em entrevista ao G1, que a corrupção não tem ideologia. Entretanto, a mídia persiste em suscitar os ânimos dos brasileiros e dar continuidade à troca de farpas. Nem mesmo o juiz Sérgio Moro se desvencilhou do debate. Durante sua entrevista no programa Roda Viva, na última segunda-feira (26), ele ressaltou que tanto O Mecanismo quanto o filme Polícia Federal: A Lei é Para Todos, lançado em 2017, pelo diretor Marcelo Antunez, retratam a realidade exatamente como aconteceu. “É importante para informar (…) Se servirem para chamar a atenção das pessoas para esses problemas, eu acho que elas já fazem um grande papel.”

Às vésperas da decisão que concederá ou não o habeas corpus ao ex-presidente Lula, é fundamental ressaltar a influência da série – positiva ou negativamente, na opinião pública. Se, por um lado, o seriado é uma ferramenta de informação acerca de termos e de processos jurídicos envolvidos na Operação, por outro, efervesce o descontentamento de uma parcela da população com as figuras políticas retratadas.

O real problema não é a polêmica que O Mecanismo traz à tona; isso já era esperado por todos, antes mesmo do Netflix disponibilizar a série ao público. O infortúnio encontra-se exatamente na lacuna, ignorada pela mídia, entre o direito à liberdade de expressão e a possibilidade de estímulo ao discurso de ódio contra os envolvidos na trama, no cenário real. Os disparos que atingiram dois ônibus da caravana de Lula durante o deslocamento no interior do Paraná, na terça-feira (27), assim como as ameaças contra a família do relator Edson Fachin, não são peças soltas neste jogo de conflitos ideológicos. Elas estão correlacionadas pelo discurso de ódio, reforçado ainda mais com o posicionamento desleixado dos veículos midiáticos. Esse descuido se dá por meio da persistência em representar a Operação Lava Jato e os seus personagens de maneira caricata, em vez de proporcionar ao público uma visão clara dos fatos e das funções de cada peça envolvida neles. Essa representação, visível também em cenas de O Mecanismo, é, segundo o professor Luis Felipe Miguel, do Instituto de Ciência Política da UnB (IPOL/UnB), uma interpretação maniqueísta da mencionada Operação.

Na realidade, não há uma delimitação precisa a respeito de quem é “mocinho” e de quem é “bandido”. As falcatruas não são exclusividades nem da direita nem da esquerda. Elas extrapolam os estereótipos mostrados na série de Padilha, uma vez que estão presentes em todo o cenário político e social do Brasil, portanto, não há uma necessidade de espetacularizar e aplaudir o Poder Judiciário quando ele cumpre o seu dever. Não se pode chamar de herói quem simplesmente está realizando o seu trabalho.

Em uma matéria publicada ontem (1º), na Folha de S. Paulo, a série é apresentada como ilustradora de uma tese acerca do tal mecanismo. Ao longo do texto, a pergunta “o que aconteceria em um país onde o mecanismo operasse de fato?” é feita e respondida com três condições: corrupção sistêmica, legislações que impedem a punição dos políticos envolvidos e um incidente para “levar à cabo” a investigação da corrupção. “O Brasil satisfaz essas condições?”, questiona o autor. “Sabemos que sim.”

Desse modo, a mídia falha ao acentuar a discórdia ideológica, abstendo-se da sua função informativa, e ao salientar os rótulos dos envolvidos nesta operação sem precedentes. Cabe lembrar que O Mecanismo é, acima de tudo, uma adaptação televisiva de um assunto escrupuloso e ainda inconcluso, o qual possui infindáveis ramificações e, consequentemente, pontos de vista.

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