Facebook versus Jornalismo: Existe apenas um culpado na era das Fake News?

Por Renata Gomes

O ano de 2017 foi marcado como aquele em que as notícias falsas, popularmente conhecidas como fake news, ganharam mais espaço no conhecimento público. As eleições nos Estados Unidos em 2016 foram influenciadas pela larga presença de desinformação. Uma das plataformas que mais ajudou na proliferação das fake news foi o Facebook.  Mas por que isso afetou tanto as decisões participativas do eleitorado? A chave da questão é que seis em cada dez americanos leem notícias na plataforma, segundo pesquisa do PewResearch Center.

Para lidar com a situação, o fundador da rede social, Mark Zuckerberg, declarou que sua missão em 2018 seria reconquistar a confiança dos usuários e tornar o Facebook um espaço para a disseminação de informações úteis e que tenham alguma relação direta com a vida das pessoas. Na postagem em que anunciou as mudanças que seriam aplicadas ao algoritmo – aquela programação específica que analisa o que você curte e compartilha – do Facebook, no dia 11 de janeiro, Zuckerberg escreveu: “Recentemente, temos recebido um feedback de nossa comunidade de que o conteúdo público – posts de empresas, marcas e da imprensa – tem tirado o espaço de momentos pessoais significativos, que possibilitam maior conexão um com o outro”.

Uma semana depois, no dia 19 de janeiro, Zuckerberg lançou a segunda bomba que amedrontou grande parte dos jornalistas da nova era digital: passariam a receber prioridade no feed de notícias veículos confiáveis, informativos e locais. “Há muito sensacionalismo, desinformação e polarização no mundo hoje”, disse o fundador. “Decidimos que pedir que a comunidade decida quais fontes são amplamente confiáveis seria o jeito mais objetivo”. O Facebook criou então uma enquete que perguntaria aos usuários se eles conhecem veículos de sua região. O repórter Alex Kantrowitz, do BuzzFeed News, teve acesso à pesquisa, composta por duas perguntas: “Você reconhece este website?” e “O quanto você confia em cada um destes sites?”, de maneira bastante objetiva.

Diante disso, no dia 8 de fevereiro deste ano, a Folha de S. Paulo anunciou que pararia de atualizar sua página no Facebook. Na época, era o jornal brasileiro com maior número de seguidores na plataforma (5,95 milhões). No texto, mencionou que a decisão foi um “reflexo de discussões internas sobre os melhores caminhos para fazer com que o conteúdo do jornal chegue aos leitores”. Este foi um dos resultados do novo Projeto Editorial, divulgado em maio de 2017. Uma das partes que mais se destaca do projeto estabelecido, que, inclusive, refere-se ao público como “Sua Excelência, o consumidor de notícias”, é:

“As rede sociais, que poderiam ser um ambiente, sobretudo de convívio e intercâmbio, são programadas de tal modo que estimulam a reiteração estéril de hábitos e opiniões pré-existentes. Os algoritmos que garantem índices elevados de audiência para as multinacionais do oligopólio são os mesmos que alimentam o sectarismo e a propagação de inverdades”.

O editor-executivo da Folha, Sérgio Dávila, em entrevista à Deutsche Welle Brasil, disse que a alteração aplicada pela plataforma “embora tenha sido vendida de uma forma muito ‘eufemística’, acaba, de fato, banindo o jornalismo profissional” de suas páginas. A chefe de parcerias jornalísticas do Facebook, Campbell Brown, também comentou a decisão da Folha pouco depois. Quando questionada, em evento, no dia 13 de fevereiro sobre o assunto, respondeu que o veículo não era “muito participativo no Facebook há um bom tempo”. Disse também que seu trabalho “não é deixar os publishers felizes”, mas sim “garantir que haja notícias de qualidade no Facebook e que os editores que desejam estar no Facebook tenham um modelo de negócios que funciona. Se alguém sentir que essa não é a plataforma certa para eles, eles não deveriam estar no Facebook”.

O que se analisa, então, a partir deste caso é de que os veículos de comunicação acreditam que as mídias sociais são propagadoras de fake news. As mídias sociais, em contraponto, se dizem meras plataformas que distribuem informação, e não produtoras, em si, de conteúdo. As inverdades viriam do jornalismo sensacionalista, que não preza pela verdade, mas sim pela audiência. Para se posicionar diante desta mudança e das incertezas quanto à veracidade do que é exposto, é preciso estar atento e buscar sempre consumir mais de um veículo ou plataforma midiática.

De acordo com pesquisa da companhia de monitoramento de mídias sociais, NewsWhip, que analisou o engajamento de publicações no perfil do Facebook de jornais, o algoritmo não mudou tanto o engajamento online. Dentre algumas das principais descobertas, segundo o observatório NiemanLab, de Harvard, está que mais da metade das notícias que mais tiveram engajamento no Facebook nos últimos dois meses era de notícias de última hora. Além disso, 53 das cem maiores notícias vieram de publishers – quem escolhe o que será publicado nos veículos – grandes e não especializados em um só assunto. Outro ponto interessante da pesquisa: apesar desta tentativa inicial de Zuckerberg de combater as fake news e criar um engajamento mais significativo na plataforma, elas ainda atingem quase um milhão de pessoas.

Agora, diante de tudo isso, o questionamento é: será que o futuro do jornalismo está longe de plataformas como o Facebook? É uma pergunta a qual ainda não se pode responder. Mas, acima de tudo, é imprescindível que o público consumidor de notícias saiba se posicionar criticamente, independente de qual posicionamento tenha. Thomas Jefferson disse que “cidadãos bem informados são a melhor defesa contra a tirania”. É preciso se informar para que os eleitores do futuro próximo não elejam uma “tirania da mentira”.

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