Mulheres e seus Nomes

Até quando a mídia tirará a identidade feminina para colocá-la em segundo plano?

Por Jessica Cardoso

Antonia Pellegrino. Roteirista há 14 anos, escreveu três filmes que somam mais de 5 milhões de espectadores (Bruna Surfistinha, Tim Maia e Eden). Colaborou em cinco novelas e sete seriados em emissoras como Globo, HBO e Multishow, tem livro publicado e documentário feito. Foi resumida a “namorada de Freixo” em uma chamada no Twitter da matéria da Veja na qual a opinião dela é o conteúdo principal.

Daiana Garbin. Jornalista. Trabalhou como repórter de rádio e televisão por 12 anos, inclusive na TV Globo. É líder do Movimento EuVejo nas redes sociais, que discute transtornos alimentares, autoimagem e saúde mental. Em novembro de 2017, lançou seu primeiro livro Fazendo as pazes com o corpo no qual conta sua experiência de 22 anos com transtornos alimentares e com dismorfia corporal – uma doença relacionada a insatisfação com o seu próprio corpo. Foi resumida a “mulher de Tiago Leifert” na matéria da Folha de S. Paulo sobre sua entrevista feita no programa Altas Horas.

Katinka Hosszú. Nadadora húngara. Possui diversos recordes, títulos em campeonatos mundiais e em Jogos Olímpicos. Conquistou medalha de ouro nas Olimpíadas de 2016 ao quebrar o recorde histórico dos 400m medley. Sua vitória foi atribuída, por um jornalista norte-americano, a seu marido e treinador Shane Tusup.

Corey Cogdell-Unrein. Ganhou a medalha de bronze nas Olimpíadas do Rio-2016 no tiro. Foi resumida a “mulher de jogador do Bears (time de futebol americano) ”, no título da matéria publicada pelo Chicago Tribune.

Esses são exemplos de variados casos em que chamadas, títulos e até mesmo o conteúdo das matérias acham mais importante destacar a relação da mulher com um homem X, muitas vezes famoso, do que uma mulher em si, mesmo que ela seja o foco principal da notícia e mesmo sendo tão conhecida — às vezes até mais do que o homem ao qual ela foi relacionada.

Não é Antonia Pellegrino, namorada de Freixo ou Daiana Garbin, mulher de Tiago Leifert, mas sim, apenas “namorada de Freixo” e “mulher de Tiago Leifert”. E ainda que o nome da mulher viesse em primeiro lugar na sentença, a perda de identidade e até mesmo de credibilidade ocorreria. De um jeito ou de outro, parece ser preciso – quase como se fosse algo obrigatório, um adjetivo específico e necessário – que o nome da mulher seja relacionado a um nome de um homem para que seu valor possa ser reconhecido. Para que sua opinião seja válida.  

Para a mídia, não parece importar a autoridade que a mulher tem sobre o assunto tratado na matéria ou o grau de formação e conhecimento adquirido dela. Se a mulher é casada com um grande jogador de futebol, namora um premiado ator ou é filha do político tal, parece valer mais que qualquer mérito que ela possa possuir.

Mas por que isso acontece?

Tirando o fato de que ainda se vivencia em uma sociedade patriarcal, acredita-se que ao associar o nome da mulher ao nome do homem conhecido adquire-se mais interesse do público. Note-se, interesse do público e não interesse público, algo que quebra a importância que o fato ou acontecimento tem para ser noticiado, ou seja, o valor-noticia.

Há uma perda de credibilidade por parte dos veículos midiáticos e, por consequência, da função jornalística que possuem, quando procuram saber a opinião dessas mulheres, mas, ao mesmo tempo, invalidam o poder e a influência desse ponto de vista dado. Não parece importar o fato que elas detêm conhecimento para opinar e que essa avaliação foi utilizada como foco principal para a construção da matéria. Esses dois pontos foram deixados de lado quando essas mulheres perderam suas identidades.

A mídia não parece se preocupar com sua responsabilidade de formadora de opinião, com sua posição educacional, com o tamanho de sua importância como possível quarto poder e com a divulgação da informação a partir dos valores jornalísticos, mas apenas em alcançar o maior número de acessos possíveis. Corrobora, então, com a conservação de uma sociedade machista, diminuindo toda luta pela representatividade e credibilidade que as mulheres vêm lutando, e continuarão a lutar, para conseguir.

Fere-se, assim, o artigo 6º do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, que diz em seus incisos XI e XIV que é dever do jornalista defender e garantir os direitos das minorias e combater qualquer tipo de discriminação e opressão.

O outro lado da moeda: os homens e seus nomes

Em matéria do Metrópoles publicada há aproximadamente um ano, é mencionado o fato de o jogador de futebol norte-americano, Tom Brady, ter sido anunciado como “marido de Gisele” pelo portal UOL no anúncio da vitória do New England Patriots – time do qual Tom é a estrela.

A reação dos torcedores foi de indignação no Twitter, mesmo com a justificativa de que Gisele Bündchen é mais famosa no Brasil do que seu marido, e de que por isso o nome dele foi relacionado ao dela. Esse fato traz de volta a prioridade dada em alcançar o maior número de acessos possíveis a matéria.

Outro caso semelhante foi uma resposta ao tweet de Antonia Pellegrino, no qual foi postado um print de uma matéria sobre Túlio Gadêlha, que é identificado, primeiramente, como “namorado de Fátima Bernardes”. Há, com isso, um aparente objetivo de mostrar que acontece com os homens também a perda de identidade. Que não é algo apenas exclusivo a mulheres. Mostra-se, também, como a mídia vem se aproveitando do fato que as pessoas querem e tendem a consumir a vida de celebridades.

Em ambos os casos, houve uma indignação dessa perda de identificação do homem. Uma revolta que pode ser expressa e ganhou uma atenção considerável. A própria matéria publicada pelo Metrópoles, intitulada como Site chama Tom Brady de “marido de Gisele” e gera polêmica, representa essa importância dada as reclamações dos torcedores pela perda de identidade. Enquanto que, não há algo de mesma significância sobre o uso de “mulher de Tiago Leifert” na chamada da Folha de São Paulo.

Em qualquer âmbito, tirar a identificação de uma pessoa é ruim, mas, mesmo assim, por que quando os homens têm suas identidades colocadas em segundo plano há uma revolta explícita, que faz barulho, mas quando isso ocorre com as mulheres é considerado vitimismo e frescura feminista?

 

  

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