Ensino Elitista

O perfil de universitários como facilitador na graduação e a importância das políticas públicas para maior acesso e conclusão do nível superior

Por Carla Moura

No último dia 26 de março, a Carta Capital publicou a reportagem “A universidade não inclui preto, periférico e trabalhador” e reabriu espaço para discussões sobre políticas públicas de cotas e assistência estudantil nas universidades federais de todo o país. No texto, o jovem Wellington Lopes, estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS), falou como está sendo estudar longe de casa e as dificuldades que podem impedí-lo de ser o primeiro com graduação na família.

O estudante que  possuiu amigos inseridos nas estatísticas de violência contra negros no país, onde jovens negros têm 23,5% mais chances de serem assassinados do que jovens brancos. Segundo o Atlas da Violência de 2017, os negros entre 12 e 29 anos estavam mais vulneráveis ao homicídio do que brancos na mesma faixa etária.

Wellington conta que a escolha do curso foi intuitiva, sendo que qualquer graduação seria uma mudança de realidade tanto para ele, como para a família. Sair de seu estado acarretou procurar uma forma de se sustentar e auxiliar a mãe na criação dos irmãos. O auxílio da bolsa permanência estudantil, por meio do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), estágio remunerado oferecido pelo Governo Federal, é de R$400, que não cobririam seus gastos estimados em R$1200 mensais, mas garantiriam sua graduação.

O Globo trouxe, em 2016, dados que explicitam o crescimento do número de estudantes pretos ou pardos e de baixa renda, obtidos em pesquisa feita pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

O espaço do Ensino Superior é majoritariamente elitizado, em que estudantes vindos de instituições privadas, com disponibilidade de estudar sem precisar ajudar na renda e possibilidade de estudarem em tempo integral, possuem as características que possibilitam facilidades durante a  graduação.

Na reportagem “Percentual de negros em universidades dobra, mas é inferior ao de brancos”, de dezembro de 2016, a EBC aponta uma pesquisa do IBGE  que mostra que o percentual de estudantes negros no Ensino Superior, mesmo dobrando de tamanho, é inferior ao de brancos que se encaixam na descrição anterior. Desde a implementação das ações afirmativas e as políticas de cotas, 12,8%  de estudantes negros, entre 18 e 24 anos, chegaram ao nível superior.

Na matéria de O Globo, a então presidente da Andifes, Ângela Paiva Cruz, indica  o crescimento da pesquisa como descaracterizador da elitização das universidades, se contrapondo a este argumento quando classifica como “vexatória” as dificuldades financeiras que comprometem o desempenho dos universitários.

Nos últimos meses foram veiculadas notícias sobre a crise da universidades federais do Brasil — essas notícias não abordam as perspectivas dos diretamente afetados — e os dados dos déficits não estão disponíveis para os leitores, o que traz a sensação de deturpação da atual situação das universidades públicas.

Dentre as consequências da crise estão os cortes de auxílios para que estudantes permaneçam no ambiente acadêmico. Estima-se que 70,6 mil destes, fiquem sem o pagamento das bolsas do PIBID, segundo o relatório final de 2017 do Ministério da Educação.

A crise nas instituições agrava ainda mais padronização do perfil dos universitários. A educação superior é vista como principal meio de mudanças de perspectiva na vida para jovens em situação de vulnerabilidade. É de extrema importância a revalidação das políticas públicas no âmbito acadêmico, a disponibilidade acessível da atual situação e medidas tomadas para contorná-las.

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s