Memes no Jornalismo

É papel dos jornais divulgar os melhores memes de um acontecimento?

Por João Miguel Bastos

Com o advento da internet, jornais tradicionais migraram para o digital. Por se tratar de um suporte diferente, tiveram que se adaptar: não apenas nas reportagens e na linguagem, como no conteúdo de maneira geral. Visando a aproximação do público da internet – composto majoritariamente por jovens, conforme a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad C)¹, divulgada em fevereiro pelo IBGE – alguns periódicos, hoje em dia, costumam publicar os memes de determinado acontecimento.

Não foi diferente no caso da prisão do Lula, que rendeu diversas imagens virais na internet. E, como de costume, o Estadão compilou os “melhores memes” após noticiar o acontecimento. O jornal não apenas publicou uma matéria com os melhores memes do aprisionamento, como a tuitou. E isso merece atenção: são centenas de textos produzidos diariamente, e nem todas eles vão para o Twitter do veículo.

estadão memes

Tuíte publicado pelo Estadão um dia após a prisão do ex-presidente Lula²

Essa rede social permite, já que é um ambiente no qual memes se proliferam rápido? O meme tem sua importância, mas será que são mais relevantes do que outras matérias que não foram tuitadas? O questionamento que deve ser feito é se esse realmente é o papel do jornalismo, ou melhor, de jornais tradicionais que possuem certa credibilidade.

Publicações reunindo memes são feitas diariamente, por exemplo, pelo BuzzFeed. A empresa foi criada em 2006 justamente para testar, rastrear e criar o conteúdo viral – os memes – na Internet. Anos depois da fundação, em 2011, que o Buzzfeed buscou expandir o site ao “jornalismo sério”, ainda que a maior parte do conteúdo continue voltada para o entretenimento. Nos jornais tradicionais, parece acontecer o contrário. E isso pode acarretar em uma perda de notoriedade dos periódicos.

Jornal também é entretenimento

Não é, todavia, que os jornais não possam conter conteúdo voltado para o entretenimento. Charges, crônicas e tirinhas são publicadas nos tradicionais periódicos há muitas décadas, mas é um caso diferente. Muitas delas, além de haver crítica social, eram encomendadas pelo jornal e eram um produto exclusivo dele. Claro, os autores não deixam de ser os artistas, mas a divulgação se dava apenas pelo periódico.

É diferente de juntar os melhores memes de um acontecimento, a maioria usados sem ter sequer a autorização dos autores, e publicá-los dando certo destaque. De certo que essas publicações devem receber muitos cliques, mas não é o mesmo caso que publicar charges, crônicas e tirinhas exclusivas. É interessante que o jornal tenha um espaço para entretenimento não apenas noticioso, mas é ainda mais proveitoso que esses conteúdos sejam originais.

A concorrência está cada vez mais brutal e é compreensível, de certa forma, que tradicionais jornais façam matérias do tipo para brigar pelo espaço que o Buzzfeed domina. Porém são propostas diferentes, e isso deve ser explícito. A migração do impresso para o digital também requer adaptação, mas o jornal deve sempre buscar manter a credibilidade e confiabilidade. De qualquer maneira, ainda que divulguem os “melhores memes” de um acontecimento, que deixem o espaço de destaque para conteúdos mais relevantes.

  1. https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/brasil-tem-116-milhoes-de-pessoas-conectadas-a-internet-diz-ibge.ghtml
  2. https://twitter.com/Estadao/status/983017375552294913
  3. http://www.portalintercom.org.br/anais/nordeste2016/resumos/R52-1897-2.pdf
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