O que significa parir segundo a televisão?

Cenas de novelas com sofrimento, desespero e intervenções médicas reduzem a representatividade e reforçam estereótipos sobre o parto

Por Lorranny Castro

A mulher gestante entra em trabalho de parto e, a partir da primeira contração, o pânico se instala no ambiente, as pessoas começam a gritar sem saber muito o que fazer e imediatamente chamam médicos e ambulâncias. Geralmente, essa é a sequência comum em cenas de nascimento na história das novelas brasileiras.

        Ao chegar ao hospital – que é sempre o cenário para parturientes que vêm de ambientes urbanos –, as gestantes muitas vezes são direcionadas a uma cesariana sem qualquer indicação médica ou vão para um parto normal, no qual elas precisam necessariamente ficar ofegantes e com muito sofrimento para parir. Sem liberdade de movimento, elas costumam aparecer deitadas, ou seja, fazendo muita força contra a gravidade para o bebê poder nascer.

    Tudo isso faz parte do que a televisão brasileira tem oferecido, como produto ao público, quando um parto precisa acontecer em novelas. Em 2017, o índice de cesarianas no Brasil atingiu 55,5%. Além disso, uma em cada quatro mulheres afirma já ter sofrido violência obstétrica, segundo a pesquisa Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre o parto e nascimento (2010). Na rede privada, em 2014, o parto cirúrgico chegou a 88%, segundo levantamento realizado pela Fiocruz. Além disso, os relatos de experiência negativa de parto são muitos, os quais contam sobre procedimentos realizados sem o consentimento da gestante, ofensas e vários outros tipos de violência.

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

    Diversos estudos já nos contaram que a televisão é um meio relevante na construção dos nossos imaginários sociais e utiliza  do seu alcance para legitimar algumas práticas e inviabilizar algumas outras, como afirma o jornalista brasileiro, Eugênio Bucci: “o que é invisível para as objetivas da TV não faz parte do espaço público brasileiro. O que não é iluminado pelo jorro multicolorido dos monitores ainda não foi integrado a ele”.

    Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), divulgados pelo IBGE em abril de 2017, a televisão está presente em 97,1% das residências brasileiras. O número é alto e nos dá uma noção maior das proporções que os conteúdos difundidos de modo televisivo podem alcançar, nos lembrando que a mídia também é uma esfera pública e, dessa forma, precisa estar associada aos ideais de justiça, educação e interesse público.

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem lançado diversos documentos a respeito da importância de uma experiência positiva de gestação e nascimento para a gestante e para o bebê, como Recomendações de boas práticas para o parto normal, que é o mais recente — lançado em 2018. Como dito no documento, o principal objetivo de sua publicação é “reduzir intervenções médicas desnecessárias” — preocupação que, por se tratar de saúde pública, não deveria ser responsabilidade exclusiva de equipes de saúde, mas sim de todas as esferas públicas que, de uma forma ou de outra, tratam do assunto com grande alcance social, inclusive no campo do entretenimento.

      Afinal, segundo o pesquisador britânico John Street, que pesquisou políticas e cultura popular; mídia de massa e democracia,  a força do entretenimento se deve a pelo menos dois fatores: de um lado, o alcance da mensagem. De outro, sua articulação com a vida das pessoas na criação de vínculos de identidades e comunidades.

          Ou seja, é bastante provável que uma mulher que recebe, por meio da intimidade que a televisão proporciona, cenas de pré-parto e parto sem pânico, sem intervenções desnecessárias, com informações importantes sobre educação perinatal e condições básicas de saúde, terá, com certeza, mais segurança na hora de lidar com uma gestação própria , com o peso hierárquico de uma equipe médica, com sua autonomia e consentimento na hora de parir. As mudanças sociais acontecem em vários níveis e por diversas formas, e isso só reforça o quanto trabalhos de conscientização/educação também são deveres mediáticos.

Um comentário sobre “O que significa parir segundo a televisão?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s