Outra vez a violência no front

O descontrole do viés político e sua influência nos ataques a jornalistas durante coberturas

Por Daniele Brandão

Este é um assunto que não sai de vista, cada vez pior. No momento político atual do Brasil, o trabalho da imprensa está sujeito à violência com muito mais força. Quem está nos estúdios e nas redações, emitindo opiniões e apresentando programas, recebe ofensas virtuais; desgastantes e psicologicamente danosas.

Mas e os repórteres, cinegrafistas e fotógrafos, que precisam estar nas ruas? Eles têm servido, na pior das análises, como parachoques da imprensa – na linha de frente, em contato direto. Para eles sobram as ameaças, agressões físicas e verbais, tentativas de impedir a transmissão, expulsões dos locais de cobertura.

Na última semana, passaram por esses transtornos funcionários do SBT, da TV Globo, da rádio CBN, da Bandeirantes, da Rede TV!, da Reuters, do Estadão e do Correio Braziliense durante manifestações em defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorridas em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasília e João Pessoa. Xingamentos, ovos jogados contra equipes e carros depredados são exemplos dos ataques sofridos.

Esses acontecimentos geraram críticas da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), que em suas notas de repúdio reforçaram um ponto comum: o respeito à liberdade de expressão e ao trabalho da imprensa como função essencial para a democracia.

Por outro lado, o posicionamento do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, apesar de também repudiar os ataques, trouxe ainda mais confusão. Segue trecho:

(…) “Essa situação lamentável é resultado também da política das grandes empresas de comunicação, que apoiam o golpe, e que adotam uma linha editorial de hostilidade contra as organizações populares. (…)

Para impedir que casos de agressão e tentativas de censura se repitam é preciso que se retome a democracia, o que só será possível com Lula livre e com a garantia de o povo brasileiro poder votar legitimamente nas eleições de 2018.”

A violência contra jornalistas não é exclusividade de nenhuma vertente político-partidária, e acontece em vários contextos. Entretanto, o nível de passionalidade que envolve esses eventos atuais é um reflexo da onda de mobilizações nacionais de 2013, que traziam exigências populares como a diminuição de tarifas no transporte e melhorias imediatas no serviço público; na época a abordagem de parte da imprensa foi considerada tendenciosa, foram apontadas tentativas de criminalizar os movimentos sociais nas matérias e equipes de TV foram expulsas das manifestações.

Grande parte dos profissionais agredidos em protestos trabalha em veículos da chamada mídia tradicional, muitos envolvidos em controvérsias notórias como o apoio à ditadura civil-militar (1964-1985) e acusados com frequência de manipulação das notícias divulgadas.

Do outro lado está a mídia independente, que consegue cobrir as manifestações com relativa tranquilidade. É surreal ver que um lado pode trabalhar e o outro não, se a intenção é mostrar enquadramentos diferentes do mesmo fato.

As ideias dos grupos e entidades que defendem a descentralização midiática no Brasil, como o Intervozes e o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, são perfeitamente claras e compreensíveis. Sua luta é pautada na existência de uma mídia livre e que não esteja restrita aos grandes grupos. No entanto, é incoerente que esses movimentos não se posicionem quando profissionais sofrem violência enquanto estão trabalhando. Não é possível que façam vista grossa por causa de vieses políticos, em especial se considerarmos a posição lamentável que o Brasil ocupa como um dos países mais perigosos para a imprensa no mundo.

Em um olhar específico, é triste perceber que as mulheres atuantes no jornalismo não escapam desta contagem, e causa certa estranheza o silêncio das alas feministas dos movimentos que promovem as manifestações. Contextualizando com o momento em que a campanha Deixa Ela Trabalhar toma força nas fileiras que cobrem o esporte, é bastante contraditório.

Então, cabem os seguintes questionamentos: por que parece que ninguém se importa ao ver as mulheres jornalistas sendo agredidas no exercício da profissão, como nos casos das repórteres Joana Treptow e Sonia Blota, da TV Bandeirantes – a primeira, obrigada a sair do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo; a segunda, atingida por ovos durante uma gravação no mesmo local – ? Os meios onde elas trabalham as tornam menos dignas de respeito, menos humanas, menos mulheres? E a tão exaltada sororidade existe nessas horas, ou tem tanto fundamento quanto uma conversa de pescador?

Sonia postou o seguinte no Twitter no último dia 5:

Tenho orgulho da minha militância política na época da faculdade e, já na profissão, sempre zelei pela informação sem tendências. Infelizmente tomei uma ovada de militantes do PT que gritavam “mídia golpista”.Que pena! Logo com uma profissional que sempre lutou contra a censura.

Por sua vez, Joana relatou na mesma rede na noite do dia 7:

Saí do sindicato. Fui obrigada a tal. Tentamos e conseguimos trabalhamos apesar dos pesares. Ficaríamos mais se não estivéssemos expostos e em perigo. Grupos de baderneiros. Grupos isolados, digo de novo. Perigosos, também. Vergonhoso.

Nos comentários deste tweet, o lixo ideológico da internet se manifesta: pessoas sendo favoráveis aos ataques, umas dizendo que “estão colhendo o que plantaram por defender a esquerda”, outras alegando que “é o que essa mídia golpista merece”. Ou seja, grupos antagonistas comemorando juntos o inaceitável.

Ampliando a discussão, por que o ódio à imprensa dita tradicional é tão instigado? Por razões ideológicas puras e simples, desejo de transformar o outro em inimigo, por parecer a tática mais adequada, ou por motivos aleatórios que não estão claros o suficiente? A liberdade para o trabalho jornalístico in loco foi substituída por algo que parece uma caça às bruxas coletiva, sem aspas justamente para reforçar o ponto absurdo. E voltando um pouco ao comunicado do Sindicato dos Jornalistas paulista, surge outra incoerência: a defesa séria dos comunicadores está unida a preferências partidárias quase evidentes – coisas que não deveriam se misturar da forma como estão.

“Sanha” seria talvez a palavra mais apropriada para definir esse estímulo. “Acesso irrefreável de fúria que toma e cega um indivíduo”, como define o dicionário Caldas Aulete.

É provável que todos queiram um momento diferente deste que vemos agora, mas, enquanto a incompreensão e o desrespeito voluntários se mantiverem, a hostilidade também vai continuar. E todos os lados sairão como perdedores numa “guerra” que não faz o menor sentido.

Na tarde de hoje, 13 de abril, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo divulgou um novo texto confrontando o que considera um ataque dos veículos de comunicação à entidade por causa da nota citada acima. 

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