Entre a ética e o furo

Quando o Jornalismo prioriza os cliques e esquece princípios profissionais

Por Kellen Barreto

Na última quinta-feira (12/04), estudantes da Universidade de Brasília (UnB) ocuparam a reitoria da instituição. O movimento, aprovado em assembleia estudantil, é uma forma de pressionar para que ocorra reunião entre o Ministério da Educação (MEC), reitoria e estudantes, com o objetivo de discutir sobre o orçamento da Universidade. Enquanto o movimento ocorria, a reitoria ficou lotada não apenas por estudantes e servidores, que já estavam no prédio, mas também por jornalistas.

O orçamento da UnB já estava em pauta, principalmente, depois que a administração realizou audiência pública para mostrar abertamente a situação financeira e explicar o motivo das medidas tomadas. Entre elas estão  a redução em 15% dos contrato s feitos com as empresas terceirizadas, reajuste do valor cobrado pelo Restaurante Universitário (RU), suspensão das bolsas de estágios, além das estratégias para tentar aumentar a receita, como cobrar aluguel dos imóveis da UnB.

Durante o movimento de ocupação, enquanto estudantes ainda pediam a chave do gabinete da reitora, Márcia Abrahão, jornalistas tiraram fotos do rosto dos estudantes, sem permissão. Ao perceber a situação, manifestantes pediram para que não houvesse  fotos e muitos começaram a esconder a face , com receio de serem expostos. Mesmo diante do pedido, jornalistas continuaram com a ação e foi pedida, então, a retirada dos profissionais da imprensa. Alguns resistiram  na permanência e também na feitura de imagens dos presentes.

Após o chefe de gabinete da reitoria, Paulo Cesar Marques, e funcionários da segurança, intercederam pelos estudantes, os jornalistas se retiraram, todavia, com relutância. No momento, estudantes abriram espaço pelos corredores para liberar a passagem dos jornalistas, alguns profissionais da mídia; passaram irritados com os manifestantes, e com gestos obscenos, insistindo em fazer fotografias durante o percurso. Notícias de agressão a jornalista por alunos da UnB não tardaram  a sair.

Após a concretização da ocupação, apenas estudantes tiveram acesso ao prédio. Jornalistas foram mantidos afastados e a conversa era clara: “Sem entrevistas, sem imagens”.  A Comissão de Comunicação da Ocupação relatou ao SOS Imprensa a situação. “ Nós nos sentimos bem desconfortáveis, porque a gente não queria nenhum tipo de confronto com a imprensa. A gente só esperava que fossem respeitados nossos pedidos de não filmar e nem tirar foto”, afirmou.  

Maira Soares, estudante de Ciências Sociais estava presente, e viu a situação. “Eu acho que prezar por uma pauta quente é muito anti-ético se tem a segurança de pessoas envolvidas. Fiquei muito indignada com a repercussão que essa cobertura teve, porque teve informações errada. Afirmar que jornalistas foram agredidos tem grande peso na mídia, tanto aqui do DF,como nacionalmente, e essa é uma forma de dar uma opinião política. Se algum jornalista diz ser agredido de alguma forma nesse movimento, eles estão querendo dar uma posição de olha,é muito agressivo esse movimento, de vários aspectos”, disse Maira.  

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros esclarece, no capítulo II, a conduta profissional do jornalista. Não é dúvida que a atividade exige constante reflexões éticas em diferente pautas. O compromisso fundamental com a verdade no relato dos fatos é uma das missões do jornalismo. O cuidado com apuração de qualidade e correta deve ser sempre um dos principais cuidados do jornalista na construção de uma reportagem. O código de ética assegura, ainda, que é dever do profissional respeitar a intimidade, privacidade do cidadão, respeitar as entidades representativas de cada categoria, conforme os incisos abaixo:

“VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”

“X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito”

O artigo 12, inciso III, afirma também que o jornalista deve “tratar com respeito todas as pessoas mencionadas nas informações que divulgar”.

No momento da ocupação da reitoria da UnB, estudantes sentiram-se lesados com a atuação da mídia. E a imprensa, por sua vez, alegou ser agredida pelos manifestantes. Duas verdades, dois lados de uma mesma moeda. Inserido nesse contexto, existe ainda, o jornalismo para além da função social e democrática, mas o jornalismo como um instrumento para geração de riqueza, um negócio que lucra a partir de cliques, quando diz respeito à internet. No jornalismo digital, as notícias que geram maior número visualização ganham em critérios de noticiabilidade na hora de serem publicadas. Estudantes que agridem jornalistas geram quantos cliques? E o compromisso consubstancial com a verdade?

Kovach e Rosenstiel (2004), no livro Os Elementos do Jornalismo, lembram que a primeira lealdade dos jornalistas é com os cidadãos.  E a ética parece estar caindo no esquecimento dos profissionais. A jornalista Isadora Schmitt afirma que o ”compromisso com a verdade e a apuração precisa dos fatos – dois assuntos tão falados em debates sobre comunicação – apesar de já estarem batidos, infelizmente são esquecidos todos os dias por alguns profissionais. A busca pelo furo e a rapidez da notícia hoje tão exigida pelos meios – apesar de terem sua importância para a informação – acabam muitas vezes prestando um desserviço ao público.”

O compromisso com a verdade e a reflexão e exercício constante da ética são imprescindíveis para a prática de um jornalismo de qualidade. O profissional que tem a ética como guia corre sempre um risco menos de cometer erros jornalísticos que afetam a integridade e a segurança dos indivíduos.

*Ilustração de Ivo Fernandes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s