Deturpar para bombar

Quando as declarações dos entrevistados são alteradas em nome do sensacionalismo

Por Marcos Braz

Nas últimas semanas, alguns casos de divergências entre as declarações de entrevistados e afirmações feitas pelos veículos de comunicação têm gerado uma grande polêmica nas redes sociais: até onde a mídia distorce  entrevistas em busca de números? Segundo exemplos de revistas como Veja e Época, a mídia vai muito longe em busca de repercussão. Nesse processo desesperado por  números, põem em cheque sua propria credibilidade.

No último sábado, a cantora e atriz Gretchen se manifestou em seu Instagram  sobre a deturpação de uma entrevista concedida à repórter Daniela Pessoa em nome da revista Veja Rio. Na capa, a chamada da matéria sobre a cantora leva o título “O bumbum caiu, mas o cachê subiu“. A chamada não só é desrespeitosa à imagem da entrevistada como mulher, mas também como profissional, levando em conta que o texto resume a carreira de Gretchen ao seu corpo.

No ano passado, a cantora brasileira participou de um clipe da superstar Katy Perry, que trouxe de volta a valorização comercial da sua imagem. As cantoras se conheceram pelas redes sociais, em que as cenas icônicas da brasileira em aparições na TV se tornaram memes famosos. Sua volta à mídia atraiu a atenção de diversos veículos de comunicação. O canal de TV fechado Multishow produziu um programa sobre a rotina da cantora e sua família. Para promover a nova atração da grade, o canal  patrocinou a ida da repórter da Veja, Daniela Pessoa, até Mônaco, onde vive com a família.

A tarefa de Daniela era escrever sobre a reviravolta que essa nova explosão midiática tinha causado na vida de Gretchen e como isso mudara sua rotina. Porém, o resultado do trabalho da repórter não agradou a cantora, que se sentiu extremamente desrespeitada. No texto divulgado por ela em seu perfil na rede social, Gretchen chama a repórter de Judas — fazendo referência ao apostolo traidor; diz que Daniela foi machista e que, em um momento de empoderamento feminino, é triste ver uma mulher atacando outra por “dinheiro ou 5 minutos de fama”.

Chamadas sensacionalistas, que geram um interpretação polêmica sobre o texto são usadas como recursos para obter a atenção dos leitores, uma manobra para gerar publicidade e impulsionar vendas. Porém, esse tipo de conduta vai na contramão do respeito ao entrevistado, que disponibiliza seu tempo para expor conhecimento e opinião. Ao se deparar com um texto que imprime seu nome mas não se alinha à suas idéias, o colaborador se sente enganado, exposto e até traído, como no caso de Gretchen .

Em uma chamada da revista Marie Claire, voltada ao público feminino, ocorreu uma discordância por parte da revista e Anitta, entrevistada em uma edição. A cantora não se sentiu representada pelo título “Anitta contra-ataca”, já que o sentido da entrevista dada ao veículo era de união entre as pessoas pela superação dos preconceitos contra as mulheres. No texto escrito pela artista em seu instagram, ela ressalta ainda que o trabalho fotográfico foi de muito bom gosto, porém os textos vinculados à sua imagem não a representavam.

Outro caso semelhante foi o da revista Época, que entrevistou um especialista sobre um novo medicamento contra a AIDS. O PrEP (Profilaxia Pré Exposição) é um remédio que deve ser tomado diariamente para prevenir a infecção pelo vírus HIV. O remédio por si só previne a AIDS, mas não outras DSTs. Segundo o pesquisador Rico Vasconcelos — o entrevistado — a revista o ouviu durante horas enquanto ele se fazia disponível para sanar qualquer dúvida sobre o novo medicamento. O que ele viu na capa da edição, assim como em sua matéria, não condizia com as declarações dadas por ele à publicação. O texto se baseava não em fatos e informações sólidas, mas em sensacionalismo, trazendo nas páginas estigmas preconceituosos sobre gays, reforçando estereótipos de promiscuidade, e ligando a doença à esse grupo. Estampada na capa, a seguinte frase “A outra pílula azul: O medicamento que está fazendo os gays abandonar a segurança da camisinha”. Não bastando o erro gramatical, o título preconceituoso contradiz as declarações do pesquisador.

Os casos de desrespeito se repetem frequentemente, o que gera uma insegurança em quem pode vir a colaborar com os veículos de comunicação. Essa busca desesperada por visibilidade e vendas prejudica não só os entrevistados, como também os leitores que consomem conteúdo inveridico, jornalistas, que tem seu trabalho dificultado por más condutas de colegas de profissão. Distorção de declarações fere o código de ética dos Jornalistas  no artigo 6º  que diz “É dever do jornalista: VI – não colocar em risco a integridade das fontes e dos profissionais com quem trabalha“. Cabe aos envolvidos buscar medidas para reverter os danos de uma matéria dúbia, seja em meios de acordos de retratamento ou meios judiciais, buscando reaver a veracidade dos fatos, valor essencial para a prática de um bom jornalismo.

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