Coisa de criança

Como os desenhos animados influenciam de forma positiva a opinião da nova geração

por Bruna Yamaguti

Nas manhãs e tardes de diversos canais da TV aberta e fechada, os desenhos animados preenchem a programação e entretém crianças de todas as idades. Eles compõem uma parte importante das influências comportamentais e cognitivas que a criança recebe, ainda que inconscientemente, enquanto satisfaz sua necessidade de lazer. Apesar de alguns desenhos se distanciarem de um viés positivo e educativo, outros pautam discussões importantes que muitas vezes ainda não são trabalhadas com naturalidade pela família.

Temas considerados polêmicos como relacionamentos LGBT, heteronormatividade, feminismo e política são representados em algumas animações aqui discutidas. As críticas, apresentadas na maioria das vezes de forma sutil, são ponto de partida para mostrar às crianças e pré-adolescentes um novo contexto baseado na normalização de debates de gênero e diversidade, por exemplo. Assuntos que não são vistos como “coisa para criança”, na verdade, são, sim, temas que dizem respeito às crianças. Qualquer criança.

A sociedade vive um momento de transição. O cenário atual é de grupos marginalizados ganhando voz, conquista da liberdade de quem antes era reprimido e minorias  políticas reivindicando seus direitos. Muitas mulheres não aceitam mais as ordens do patriarcado e lutam diariamente por direitos iguais. A comunidade LGBT luta por igualdade e o fim do discurso de ódio. Os negros lutam pela extinção da desigualdade racial. Hoje, o casamento gay já é legalizado em 23 países. No Brasil, o  crime de racismo é inafiançável e imprescritível. O feminicídio é considerado crime hediondo.   

Assim, a discussão de dilemas culturais e sociais se faz necessária com aqueles que são o futuro da sociedade do país. O preconceito pode ser combatido se, desde a infância, forem ensinados valores como respeito e tolerância.

Alguns desenhos animados, junto a situações cotidianas e aventuras dos personagens, fazem críticas a diversos temas e abrem espaço para o aparecimento de questões que não costumam fazer parte do imaginário infantil, mas que são de extrema importância para a formação de opinião e caráter das crianças. Alguns exemplos são Irmão do Jorel, Steven Universo e Meninas Superpoderosas. Todos voltados para o mesmo público alvo.

Irmão do Jorel

Irmão do Jorel, desenho brasileiro transmitido pelo Cartoon Network, conta a história de um menino de 9 anos que vive à sombra de seu irmão mais velho, Jorel, a estrela da família. Além de situações divertidas e cotidianas vividas pelo garotinho, a animação faz críticas inteligentes e bem-humoradas, usando elementos tipicamente brasileiros.

A alusão à ditadura militar vivida pelo Brasil entre 1964 e 1985 vem em forma de metáfora, quando a força opressora no desenho é representada por palhaços com trajes militares, que recrutam jovens e impõem uma forma de humor burocrática e infeliz. O pai do irmão do Jorel, seu Edson, é um jornalista e ex-militante revolucionário que lutava contra a ditadura dos palhaços. No episódio 2 da primeira temporada, “Gangorras da Revolução”, o menino se inspira em seu pai e usa a resistência pacífica para lutar contra a diretora de sua escola, que usa a obediência como forma de reprimir os alunos.

Questionamentos sobre heteronormatividade são apresentados no desenho de forma clara no episódio 25 da primeira temporada, “Fúria e Poder Sobre Rodas”. Lara, a melhor amiga de irmão do Jorel, dá uma lição de empoderamento feminino quando diz para o amigo: “Você chama alguém de mulherzinha quando a pessoa é muito incrível”. Logo após, ela o deixa sem argumentos ao afirmar que não existe “coisa de menina” ou “coisa de menino”.

No mesmo episódio, irmão do Jorel deseja participar do time de um esporte que só meninas podem praticar. Então, ele se veste de menina e recebe o encorajamento da família, que o ensina algumas lições. “Mulheres são tão fortes quanto homens”, afirma sua mãe. No final do episódio, o time do garoto vence a competição, mas todos descobrem que ele é um menino. Enquanto escuta as críticas da plateia por estar usando saia, irmão do Jorel ergue seu troféu com orgulho e um homem grita: “não importa! É isso aí cara!”. Todos o aplaudem.

Steven Universo

Exibido também pelo Cartoon Network em diversos horários, Steven Universo é uma animação inteligente e extremamente sensível. Steven, protagonista da série, é um garotinho fruto do amor entre um humano e uma Gem. As Crystal Gems são uma raça alienígena que utiliza seus poderes através de pedras preciosas e defendem o planeta Terra contra a ameaça de outros seres extraterrestres. O desenho aborda questões importantes de representatividade, diversidade e empatia, sempre de forma amável — a começar por Steven, um menino simpático, que foge dos padrões de guerreiros e heróis da maioria dos desenhos voltados para o público infantil.

Steven não gosta de usar a violência, sempre demonstra muita sensibilidade e empatia, até mesmo com seus oponentes. Apesar das Gems não possuírem gênero definido, apresentam forma feminina, passando uma forte ideia de empoderamento, uma vez que são guerreiras determinadas e independentes.

Durante os episódios, questões LGBT são mostradas de maneira extremamente natural. Uma das personagens, Garnet, é resultado da fusão (união harmônica dos atributos físicos e psicológicos de duas outras Gems) e da relação de amor e cumplicidade das Gems Rubi e Safira. Uma fusão só ocorre de maneira efetiva com o consentimento de ambas as partes, em que se pode fazer um paralelo com relacionamentos interpessoais. Além disso, muitas referências a diferentes tipos de amor são mostradas na série, além de diversos tipos de corpos e biotipos, personalidades e famílias. A obra se preocupa em mostrar a diversidade.

A criadora do desenho, Rebecca Sugar, fez uma importante declaração em palestra para a Sociedade de Ilustradores da School of Visual Arts: “Tem essa ideia de que essas coisas só podem ser discutidas com adultos. Isso está completamente errado. Os padrões heteronormativos são passados para as crianças com a mesma naturalidade do ar com que se respira todos os dias. É incrível que isso não aconteça com outros padrões. Se esperarmos pra dizer para a moçada queer que nos importamos com o que eles sentem, vai ser tarde demais”.

Queer é uma palavra proveniente do inglês usada para designar pessoas que não seguem o modelo de heterossexualidade ou do binarismo de gênero. Rebecca Sugar é bissexual e a primeira mulher a criar uma série para o Cartoon Network. 

As meninas superpoderosas

Sucesso no final dos anos 1990, As meninas superpoderosas quebraram padrões impostos pela sociedade logo na sua estréia. Três meninas (em nenhum momento sexualizadas) combatem o crime na pacata cidade de Townsville. Elas são criadas e educadas pelo professor Utônio, tratado naturalmente como um pai solteiro que realiza as tarefas domésticas, sem nenhuma vergonha do papel que desempenha. Os papéis de gênero são discutidos na série de forma lúdica e a desconstrução dos mesmos também é uma proposta dos episódios, uma vez que são sempre as garotinhas a salvar um homem pedindo por ajuda, seja para abrir o pote de picles, ou para salvar a cidade de qualquer ameaça.

Um personagem interessante na animação é conhecido como “Ele”. Apesar de ser caracterizado como um ser de voz masculina e com barba, usa maquiagem e suas roupas são uma saia rosa e uma bota de salto alto. Pode ser a primeira vez que um personagem voltado ao público infantil  traz uma caracterização andrógina.

Com a repaginação do desenho para os dias atuais, não só graficamente, mas  também nos temas abordados, As meninas superpoderosas continuam trazendo lições valiosas para sua audiência da nova geração. Uma personagem inédita entra em cena, Estrelinha, a irmã mais velha das meninas, com a pele escura e os cabelos coloridos. Ela possui as características de suas três irmãs juntas: inteligência, doçura e força.

Outro novo personagem, o Man Boy, é um homem no corpo de menino com uma visão bastante misógina sobre o mundo. “As meninas tratam de forma didática e fácil a questão feminista como várias outras que se passam na história. O próprio vilão novo representa muito o machismo e o patriarcado. Ele será algo que elas enfrentarão”, afirma Bob Boyle, um dos produtores do desenho, em entrevista para o Correio Braziliense.

Em todos os desenhos mencionados acima, percebe-se uma preocupação não apenas com o entretenimento das crianças, mas com sua formação.

O papel educador da mídia vai muito além do que se imagina. Os desenhos animados e suas temáticas inovadoras são porta de entrada para um mundo muito mais amplo, no qual as crianças aprendem desde pequenas que o respeito é imprescindível e que a igualdade é um direito de todos. A criança tem o direito de se sentir representada, e tem o direito de saber que faz parte da construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Publicidade

2 comentários sobre “Coisa de criança

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s