Maiores que a morte

O que acontece quando alguma mulher resiste à tentativa da mídia de apagá-la após envelhecer 

Por Catarine Cavalcante Torres

Audrey Hepburn, Alicia Silverstone e Brigitte Bardot têm muito mais em comum do que o fato de terem sido grandes divas, de talento e beleza conhecidos no mundo inteiro. Elas, junto a muitas outras, foram mortas antes mesmo de morrer. 

Eterna bonequinha de luxo, Hepburn viveu até os 63 anos. Além das dezenas de filmes que fez e prêmios que ganhou, foi ativista e dedicou boa parte da sua vida para isso. Chegou, inclusive, a ser embaixadora da UNICEF. Ela envelheceu e, talvez, você não tenha visto isso acontecer. É muito provável que você não conheça os muitos projetos que fez na velhice. É comum achar que ela tenha morrido jovem, afinal,  é extremamente difícil associar o ícone cinematográfico a uma senhora idosa, pois essa é uma imagem que nunca foi difundida. Tanto em livros biográficos, quanto em cartazes e revistas sua representação é a mesma, sem nenhuma ruga e com menos de 40 anos.

Alicia Silverstone e Brigitte Bardot, para o espanto da maioria, ainda estão muito vivas. É verdade que Alicia não estrela mais os videoclipes da banda Aerosmith e, Brigitte não detém mais a incrível beleza jovem de tempos atrás, mas elas estão por aí. Aos 83 anos, Bardot é fundadora da Fondation Brigitte-Bardot e segue lutando pela causa dos animais. Alicia, depois de algumas participações em pequenos filmes, está se dedicando mais ao cuidado do filho. O tempo e a idade as impediram de continuar reafirmando a posição de musa e sex symbol, sendo assim, é evidente que ficariam sem trabalhos frequentes e, nos poucos que conseguiram, não obtiveram qualquer destaque. Boa parte da mídia não acha que a mulher possa ter outro papel além ser sexy, jovem e bonita.

Entretanto, nem todas se dão por vencidas. Madonna é o maior exemplo disso. Com quase 60 anos, a cantora, atriz, produtora musical e empresária continua trabalhando, lançando álbum, saindo em turnê, cuidando do corpo e fazendo performances capazes de levar qualquer jovem a exaustão, só de assisti-la. E, como quem resolveu resistir, arca todo dia com as consequências dessa escolha.

Se em 2015 o jornal Estadão publicou uma matéria com título “O mundo da música ainda precisa da Madonna em 2015?” e alegou ser impossível escutar seu (na época) novo single, Bitch, I’m Madonna, sem sentir “o mínimo de vergonha alheia”, em 2018 a situação dela se encontra ainda mais difícil.

Em uma publicação de janeiro deste ano, a cantora aparece em uma foto confusa, com um dos seios à mostra, meio coberto por uma faixa preta e uma bolsa Louis Vuitton. Na legenda, uma brincadeira sobre “babar” por aquele acessório. Em questão de horas, comentários como “Lamento por seus filhos; se fosse minha mãe, eu estaria morto de vergonha” ou “Você está bêbada?” apareceram aos montes. A alguns, a artista revidou, a outros, apagou. O engraçado é que o público que se escandalizou com a imagem, foi o mesmo que viu, em plenos anos 1980, Madonna sair de um bolo, vestindo trajes provocantes, cantando Like a Virgin. E foi, justamente, por romper a ordem social que ela conseguiu revolucionar a questão feminina, encantou o público (o mesmo que hoje critica as suas fotos) e se manteve no topo por tanto tempo. Em uma reportagem sobre a foto, o jornal El País disse:

“Esta mulher de 60 anos da foto que o mundo percebe como uma excêntrica é, possivelmente, Madonna sendo ela mesma. Provavelmente ela sempre foi assim, mas não soubemos ver isso, porque antes ela era jovem.” 

Madonna não foi a primeira a passar por isso e, certamente não será a última. Aquelas que resistem serão sempre duramente criticadas por todos os lados, sendo muitas vezes taxadas de “desesperadas por atenção”, por exemplo. Frases como “ela precisa saber a hora de parar” se tornam absolutamente comuns. A mídia criará a ideia de que a sua carreira está na pior das fases e atribuirá a ela adjetivos como “deprimente”, “frustrante” e “decadente”. E, apesar do esforço feito para tirar essas mulheres dos holofotes, elas vão resistir. Porque, onde quer que estejam, é isso que as mulheres fazem.

4 comentários sobre “Maiores que a morte

  1. Victor Torres disse:

    Um texto altamente cativante, onde consegue conversar com o leitor de maneira simples, com uma pauta muito justa e bem argumentada, onde tanto o título quanto a frase que dá fim ao texto, trazem personalidade ao trabalho realizado.

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