A realidade como forma de entretenimento

O que torna a vida de pessoas comuns tão atraente ao público?

Por Victor Cesar Borges 

No início de 2001, estreou na rede Globo a versão brasileira do reality show americano Big Brother, inspirado no romance 1984, de George Orwell. Na última quinta-feira, 19, foi a final da 18ª edição do programa que transformou mais um brasileiro comum em um milionário.

A última final  foi a mais assistida desde 2011, com  uma média de 33 pontos. Esse recorde mostra a importância que brasileiros dão ao reality, mesmo depois de mais de uma década no ar, e traz à tona o questionamento sobre qual motivo faz os brasileiros se identificarem tanto com o reality.

Nas primeiras temporadas, a maioria dos participantes tinham o mesmo perfil: jovens atraentes de classe média, vivendo brigas e romances igualmente intensos, dando ao programa um aspecto quase novelístico. Porém, ao longo das edições,  esse perfil foi se desgastando e a audiência, consequentemente, caindo. Como medida para melhorar o ibope da atração, em 2008 os produtores decidiram criar uma identificação dos espectadores com os participantes, ao introduzir dois idosos no elenco da edição.

Desde então, pessoas de diferentes idades, orientações sexuais e biotipos entraram no reality e aproximaram o público dos integrantes do elenco. Em 2015, o marketing promoveu uma mudança para a edição, que ficou conhecida como “a mais brasileira de todas”. Porém, o ápice dessa aproximação com o público foi, talvez, a final da última temporada, formada por uma família com dificuldades financeiras, um refugiado sírio e uma mulher negra e pobre.

No momento de defenderem suas estadias na casa, diversos competidores se colocaram não apenas como indivíduos, mas sim como representantes de suas comunidades. Participantes negros, LGBTs, nortistas e nordestinos e se apoiaram na diversidade para ganhar a empatia do público. A eficácia do discurso variou para cada morador da residência do Big Brother, mas funcionou para os finalistas.

Cada um deles, conscientemente ou não, criou uma narrativa baseada na representatividade, ainda que de forma sutil. No entanto, o participante que mais usou essa narrativa para continuar no jogo foi o refugiado Kaysar Dadour. O sírio obteve rapidamente o apoio do público por meio da sua alegria efusiva, apesar das dificuldades que enfrentou em sua terra natal, mas sem deixar de lembrar frequentemente para o público tudo o que sofreu.

Já a acreana Gleice Damasceno se recusava a usar sua origem humilde para ganhar a simpatia do público e falou poucas vezes sobre sua rotina difícil fora da casa. Mas em matérias que mostravam sua dura realidade, os espectadores puderam ver como era a vida de Gleice. É possível traçar um paralelo entre a trajetória desses participantes até o final do programa. Apesar de ambos receberem grande apoio do público durante toda a edição, esse apoio se deu de forma e meios diferentes.

No início, o sírio era o mais querido pelo público devido à sua ingenuidade e animação aparentemente infinita. Porém, na segunda metade do reality, internautas começaram a divulgar fatos sobre a vida de Kaysar que contradiziam o que ele havia dito no programa. Aparentemente, sua família brasileira era rica e seus pais, na Síria, não estavam em perigo eminente como ele tinha dito. A maioria das acusações não era concreta, mas foram o bastante para diminuir o apoio que ele recebia, principalmente na internet.

Por outro lado, o fato de Gleice não falar de sua vida com os participantes foi encarado como sinal de força. Em nenhum momento ela falou sobre ser a única de dois irmãos e 50 primos a terminar o Ensino Médio e ingressar em um curso superior ou sobre como ela era a única de sua casa que possuía uma fonte de renda. Esse comportamento causou uma espécie de embate entre as torcidas de cada participante, mas, sobretudo, mostrou a principal dinâmica do reality.

O Big Brother Brasil sempre explorou as emoções e as realidades de seus participantes para engajar o público, tanto é que era frequentemente chamada de “novela da vida real” por seu antigo apresentador. As histórias dos participantes não eram apenas deles, eram as histórias de milhares de brasileiros, o reflexo do cotidiano de seus espectadores. Porém, no cenário atual, através da internet, principalmente, a narrativa principal do programa ocorre fora dele.

É nas redes sociais que o futuro dos jogadores é decidido, às vezes antes mesmo do início do programa, O jogador Caruso, por exemplo, entrou na casa com chances quase nulas de ganhar o prêmio, pois ele começou a ser odiado pouco tempo depois da divulgação do elenco. Logo após a divulgação, as redes sociais de todos os participantes haviam sido reviradas e poucos dias depois os mocinhos e vilões da temporada já haviam sido escolhidos

Por fim, é possível exemplificar o sucesso do reality com outro produto da mídia, o filme O Show de Truman, onde a vida do protagonista é explorada para criar uma narrativa ficcional e cativante.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s