Silêncio na mídia: onde está a crise do SUS e das universidades nos jornais?

Melissa Duarte, especial para o SOS Imprensa

Cobertura da imprensa é pontual quando se trata de hospitais públicos e de instituições de ensino

Hospitais com mais pacientes do que médicos conseguem atender; choro da mãe desesperada com filho doente sem atendimento; idosa que não consegue marcar cirurgia; bebê prematuro que não dispõe de UTI neonatal. Escolas públicas em que crianças não conseguem alimentar o cérebro por causa do estômago vazio; falta estrutura e o que sobra é pouco — quando sobra. Universidades públicas em crise orçamentária, com possibilidade de greve e, talvez, até de fechar as portas, uma vez que não possuem verba suficiente para mantê-las.

Vale lembrar que saúde — através do Sistema Único de Saúde (SUS), com auxílio de planos de saúde — e educação são direitos básicos e universais garantidos pela Constituição Federal de 1988. No entanto, não é o que acontece: há grande diferença entre o papel e a realidade. Com a aprovação da PEC 55 em 2016, que congela os gastos públicos, a crise de ambas se aprofunda. Gastos com essas áreas diminuíram 3,1% em 2017, fora inflação. Segundo a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), eles totalizaram R$191,3 bilhões, comparados aos R$100 milhões a menos em 2016.

Ademais, de acordo com a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Brasil gasta pouco por estudante de ensino primário e fundamental em relação a países europeus. Quanto às universidades, o Ministério da Educação (MEC) afirma que o orçamento de 2017 diminuiu em 15% para funcionamento e em 40% para obras, num comparativo com o ano anterior. Falta dinheiro para investir e expandir, mas, sobretudo, para funcionar. No entanto, quanto disso é veiculado pela mídia? As notícias fazem jus à realidade?

O texto da Folha de S. Paulo traz panorama geral sobre o SUS da atualidade, com elogios e críticas válidas, como atendimento universal e gratuito e longas filas de espera. Enquanto isso, o da revista Época já começa a chamar atenção pela manchete: “SUS para pobre (e bolsa saúde para quem pode)”.

Isso acontece porque, além de chamativa, ela traz entendimento diferente da que a leitura proporciona: parece contra a ideia do SUS universal, mas a reportagem o defende. Apesar do caráter acadêmico do autor e do opinativo da coluna, apresenta análise lúcida e critica a criação de planos de saúde populares, os quais afetariam os brasileiros, já que o sistema único seria só para a população de baixa renda.

Telejornal mais importante e visto no País, o Jornal Nacional quase não falou sobre o assunto durante a última semana. Durante esses seis dias, foram transmitidas três horas, 39 minutos e 25 segundos e apresentadas 115 matérias. Todavia, somente nove minutos e 56 segundos, divididos entre cinco matérias, foram destinados à saúde. No total, ela representa apenas 4,34% do conteúdo e 4,52% do tempo de exibição.

As matérias sobre saúde mostravam a questão numa escala micro, não macro. Noutras palavras, retratavam casos pontuais vacinação contra gripe, plano de saúde com franquia, uso do vírus da zika contra tumores, falta de assistência médica no Amazonas e cura de garota com leucemia —, não a realidade como um todo.

Tal fato se deve ao jornalismo factual, também conhecido como hard news, em que se mostram notícias sobre os fatos mais recentes, poucas vezes aprofundando sobre o que os antecedem. Além disso, o telejornal não comentou sobre a crise do SUS. Desse modo, vale questionar se essa é a melhor forma de os telespectadores se manterem informados.

É importante lembrar que, nesse mesmo período, nenhuma matéria do JN falou sobre educação: a situação nas escolas e o déficit orçamentário das universidades públicas foram excluídos da narrativa jornalística. Não falta valor-notícia para temas com tamanha relevância social. Veículos de esquerda são os que mais trazem a questão à tona, como no caso do portal Vermelho, denunciando em vez de crise, desmonte e possível privatização das instituições públicas de ensino superior. Então, por que será que a grande mídia aborda tão pouco o assunto?

Aqui, vale um parêntese sobre o caso da Universidade de Brasília (UnB). Desde 2017, a instituição enfrenta déficit orçamentário — são necessários R$90 milhões para terminar o ano, segundo ela —, com cortes de bolsas de assistência estudantil, pesquisa, monitoria, extensão e estágio, além do Restaurante Universitário (RU). Na última semana, o DF2, da TV Globo, transmitiu duas matérias: uma sobre greve de terceirizados e servidores na quarta-feira (25) e outra acerca da negociação para desocupar reitoria na sexta-feira (27).

Ambas visam apresentar um panorama geral, mas pecam ao não mostrar os vários lados da questão. Na primeira, não há voz de alunos que apoiem a greve, só a de uma estudante que critica. Ademais, somente um representante do sindicato foi entrevistado e teve posicionamento favorável. A segunda não contém entrevista.

Segundo a teoria do agendamento, também conhecida como agenda setting, meios de comunicação dizem ao público o que e como pensar através do que é noticiado, sobretudo na imprensa tradicional, enquanto formadora de opinião. Não há manipulação, mas influência. Por isso, o fato de as crises na saúde serem ou não veiculadas — e como — impacta no modo com que a população verá o assunto: de maneira fragmentada, sem todo o contexto e a gravidade da questão. Será que não seria esse o objetivo da grande mídia?

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