Mídia e Construção de Identidade

O papel de influência exercido pelos meios de comunicação na formação de crianças e adolescentes

Por Raquel Ribeiro

Desde cedo, os indivíduos, expostos aos diversos conteúdos disseminados pelas programações televisivas, redes sociais, internet e publicidade, começam a definir padrões de comportamento e personalidade determinantes para os seus desenvolvimentos. Essa exposição é de extrema importância para a construção da identidade de cada um (palavra derivada do latim identitas que corresponde ao conjunto das características e dos traços próprios de um indivíduo ou de uma comunidade). Ela está relacionada a uma realidade interior e particular, um sentido que guia como e quem se quer ser e que é buscado e consolidado ao longo de toda a vida por meio de fatores tanto externos, quanto internos. A mídia é parte do universo exterior que influencia direta e indiretamente nesse processo.

Na infância:  Imitação, erotização e perigos

O interesse das crianças pelos exemplos e produtos transmitidos por veículos midiáticos já fica evidente desde bem pequenos, por volta dos três ou quatro anos de idade. É nesse momento que os meninos desenvolvem fascínio por super-heróis como Batman, Super-Homem, Homem-Aranha, X-Men ou qualquer outro “herói/personagem da vez” que os profissionais do marketing da Marvel ou Pixar tenham escolhido. Isso promove um incentivo aos sonhos da maioria deles de crescerem para se tornarem fortes e poderosos, fator responsável por fazer figuras com poderes sobrenaturais e atletas “tipos ideais”.

Para as meninas, tende-se a idealizar personalidades graciosas, femininas e bonitas, símbolos de beleza e perfeição, o que já contribui para o estabelecimento de um padrão estereotipado e estandardizado que toda “menina/mulher” deve seguir para ser aceita na sociedade. Dessa forma, princesas, com seus modos impecáveis , a boneca Barbie, loira, magra e de olho azul, e as personagens bonitas e populares da Disney, como Hannah Montana e Selena Gomez, servem como modelos para se espelhar e copiar.

Para a psicopedagoga, Cristiane Bertucci, em matéria publicada pelo portal online Diário da Região (2011), a imitação faz parte do crescimento. “Todas as crianças passam pela fase da imitação, seja do pai, mãe, professor, ator ou qualquer pessoa que lhe mostre algo positivo. Isso pode ser ruim quando a criança não faz nada do seu gosto e fica apenas na imitação. Tudo o que vira exagero se torna ruim.”

Outra questão é a erotização precoce, que instiga as crianças, especialmente as meninas, a executarem determinados padrões de comportamento e atitude típicos de “gente grande”. A televisão e os programas, como novelas e seriados, influenciam bastante nesse aspecto, ao exporem cenas de beijo, violência ou sexo explícito. Por isso, é tão importante que haja uma consciência dos pais quanto à necessidade de se obedecer às classificações indicativas dos produtos da mídia, de modo que não sejam transmitidos a elas conteúdos inapropriados.

Com relação à internet, especialmente nas redes sociais, encontram-se inúmeros perigos, como o assédio. Esse foi o caso da menina Cecília, de 10 anos, que, ao fazer uma conta no Facebook por “pressão dos amiguinhos”, começou a receber mensagens de estranhos, de acordo com matéria divulgada pela revista Época em 2015. O grande problema é quando as crianças se tornam usuárias de redes sociais sem respeitar a idade mínima permitida. No Brasil, segundo o estudo da Officina Sophia, empresa de conhecimento aplicado à negócios, pelo menos 62% das crianças entre 7 e 12 anos, usuárias de internet, acessam uma rede social. Além de ficarem vulneráveis a situações como essa, elas adentram em cenário repleto de imagens e informações perigosas que podem prejudicar seu desenvolvimento pleno.

Na adolescência: Descobertas, ídolos, digital influencers

A adolescência é um período de dúvidas e descobertas. É a fase em que o indivíduo passa por inúmeras mudanças, conflitos, se questiona a cerca de si próprio e do mundo, desenvolve habilidades e experiencia novas possibilidades. E justamente por estarem mais abertos às oportunidades que os permeiam, torna-se mais fácil a captação da atenção deles para a mídia e os produtos por ela difundidos.

É muito comum, durante esse período, o desenvolvimento de uma admiração, ou em certos casos, obsessão por ídolos e celebridades. Adolescentes, em consequência da necessidade de se conhecerem e se autoafirmarem, buscam, nesses modelos referenciais, construir a própria identidade e essas figuras revelam muito sobre a personalidade e os gostos dos jovens.

Na atualidade, outra fonte de inspiração em voga são os digital influencers. Eles são, em sua maioria, pessoas comuns que produzem conteúdos para canais da internet com o intuito de  influenciar comportamentos, dar conselhos, expressar opiniões e divulgar experiências. Os assuntos podem variar desde dicas de maquiagem até assuntos mais sérios, como bullying.  E justamente por retratarem assuntos de tanto interesse aos jovens, com os quais eles se identificam, esses canais se tornam extremamente populares. A youtuber Kéfera se tornou famosa ao falar de assuntos comuns aos adolescentes em tom jocoso e original. Luba viu nos canais uma possibilidade de falar sobre temas polêmicos, como a homofobia. Japa sempre teve problemas de se relacionar com as pessoas e utilizou do espaço virtual para mostrar quem realmente é.

O que leva esses youtubers a serem tão influentes é a vocação de conseguir conversar com a audiência e falar de temas que o público quer consumir e não encontra em outros lugares. Segundo o diretor de parcerias de conteúdo do YouTube no Brasil, Eduardo Brandini, em entrevista à Revista ISTOÉ (2016): “São temas essencialmente ligados à realidade dos jovens e sem os pudores que a televisão impõe. A liberdade de ter seu próprio canal permite que esses novos ídolos juvenis falem a mesma e exata linguagem de quem os assiste”.

É evidente o quanto a mídia é influente na formação e no desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Cabe aos seus consumidores a reflexão quanto ao real alcance dessa onda de influência e até onde ela pode chegar sem gerar prejuízos à construção de suas identidades. Um caso relacionado a isso foi a matéria publicada em abril deste ano, 2018, no portal E+Estadão, baseada em um post da jornalista Mariana Kotscho, que contava que havia “dado um basta em casa”, proibindo os três filhos de assistir aos vídeos do youtuber Felipe Neto. Isso se deveu ao fato dele se comportar de maneira extremamente negligente, reforçando atitudes como bullying, xingamentos, palavrões e preconceitos, o que influencia de maneira direta na formação e educação dos jovens que o assistem.  Para pais e comunidades que pregam uma educação que difere desses assuntos propagados por ele, verem seus filhos consumindo esse tipo de temática é totalmente prejudicial.

Para que os efeitos desses conteúdos danosos sejam mitigados, é necessário que não só se invista em mais mídias educativas, como a TV Cultura, o canal Futura e a revista Guia do Estudante, como também, que se promova um incentivo ao consumo desses veículos, incentivo esse fornecido principalmente pelos pais, que devem estar atentos aos benefícios por eles proporcionados e procurar despertar o interesse de seus filhos. Além disso, deve-se procurar educar as crianças e os adolescentes a respeito das realidades presentes nos produtos que eles consomem, de forma a criar uma consciência crítica que possibilite a eles próprios um exercício de auto-reflexão a cerca do que ouvem e assistem. Cuidados também devem ser tomados com relação ao que deve ou não ser exposto a eles, no sentido de que os pais se atentem à classificação indicativa dos conteúdos midiáticos e dessa forma, garantam uma formação plena e saudável.

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2 comentários sobre “Mídia e Construção de Identidade

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