A (des)valorização do futebol no Brasil

Sob a luz do hepta feminino na Copa América, fica claro que o futebol que importa é o masculino

por Fernanda Gonçalves

Na última semana, a seleção feminina brasileira de futebol conquistou o heptacampeonato na Copa América com uma campanha invicta. Sete jogos ganhos, 31 gols marcados e apenas dois sofridos. As meninas ainda garantiram vaga na próxima Copa do Mundo Feminina e nas Olimpíadas de 2020. Só tem um único problema nessa atuação: ninguém viu.

A transmissão dos jogos da seleção masculina envolve disputas entre muitas emissoras. E também muito dinheiro. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) vai receber da Rede Globo mais de R$8 milhões por partida televisionada até 2022. Enquanto isso, não houve difusão da Copa América Feminina por nenhum canal de TV, seja ele aberto ou fechado. Mesmo com o grande êxito por parte das brasileiras no campeonato, os jogos só podiam ser vistos pelas redes sociais da CBF.

A desvalorização do futebol feminino, no entanto, não é apenas na sua divulgação. No Brasil, mulheres com a mesma qualificação profissional ganham salários cerca de 53% menor que os homens, segundo pesquisa realizada pelo site de empregos Catho. Porém, no futebol, esse número é assustador. O salário de Marta, jogadora de futebol mais bem paga do mundo, não chega nem a 5% do salário que o jogador mais bem pago do mundo, Neymar, ganha.

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As heptacampeãs da Copa América.

Fora essa enorme discrepância de dinheiro, o futebol feminino ainda lida com a falta de investimento, o que leva aos times má estrutura física e financeira. Um exemplo disso é que, nos últimos dez anos, a própria Marta já passou por oito clubes em busca de uma liga sólida em que ela possa se estabelecer. Dois dos times foram extintos.

A própria CBF tenta reverter esse quadro e, em 2017, incluiu em seu regulamento de licenciamento de clubes uma regra que obriga o investimento dos grandes times no futebol feminino. A partir de 2019, os clubes que não tiverem uma equipe composta por mulheres disputando competições nacionais estarão proibidos de disputar a Copa Libertadores, a maior competição da América Latina para os times masculinos.

Além disso, no ano de 2017, a seleção brasileira feminina foi comandada pela primeira mulher da sua história, a também jogadora Emily Lima, sendo um passo de extrema importância para a categoria. Isto mostra que, por mais que no esporte as mulheres em posição de liderança sejam poucas, uma atleta pode se qualificar para tal. No entanto, mesmo com um aproveitamento de mais de 50%, Lima foi demitida após alguns meses, levando jogadoras consagradas, como Cristiane e Fran, a usarem sua voz e declararem boicote ao time.

Cristiane atuando pela Seleção Brasileira.

A maior justificativa dos meios de comunicação para a desvalorização do esporte na modalidade feminina é a falta de audiência. “O futebol feminino não gera público. Não tem muito do que se espera no futebol, que não é só gol: é dedo no olho, carrinho por trás, chuteira no peito, do pescoço pra baixo é tudo canela.”, afirmou artigo do site SensoIncomum. O comentarista esportivo Milton Neves ainda reafirmou: “Futebol feminino é igual gordo comendo salada: não tem graça nenhuma”.

Apesar desse senso comum ser extremamente perpetuado pelos jornais e programas especializados, a realidade é outra. O site UOL divulgou que existem números reais que mostram a ascensão do futebol feminino na última década: ele foi o quarto evento de maior audiência das Olimpíadas de 2016. Segundo a CBF, 9 milhões de pessoas assistiram ao Torneio Internacional de Manaus no mesmo ano e, além disso, depois das Olimpíadas, 51% dos entrevistados disseram estar interessados em saber mais sobre a modalidade feminina, contra os 34% que responderam isso antes do evento.

O futebol é o esporte mais popular do mundo e, portanto, o mais visibilizado, porém, como tratado pelo SOS Imprensa, o que rege os esportes femininos ainda é o machismo. Na própria história, as Olimpíadas contemporâneas nascem sem a participação de mulheres; na Inglaterra, elas tiveram que fundar sua própria liga de futebol porque a liga masculina não as aceitou como atletas; no Brasil, em 1941, durante a presidência de Getúlio Vargas, proibiu-se a “prática de esportes incompatíveis com a natureza feminina”. Entre eles estava o futebole esse decreto só foi revogado no fim de 1979.

Em um país como o Brasil, em que disparadamente o futebol é o esporte mais conhecido e idolatrado, há espaço nos veículos de comunicação para o futebol feminino. As mulheres futebolistas se dedicam, jogam, ganham tantas partidas e campeonatos quanto os homens, logo, é tanto entretenimento quanto o futebol masculino. É preciso deixar o preconceito de lado e dar a elas uma chance.

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