Mulheres negras na mídia

Como estereótipos adotados pelos meios de comunicação contribuem para racismo velado no Brasil. 

por Beatriz Castro

É raro ter uma obra audiovisual em que a mulher negra não seja retratada como objeto sexual, empregada doméstica ou como “barraqueira”. Pouco se discute sobre a complexidade delas, a violência sofrida todos os dias ou sua invisibilidade. Essa representação vazia e estereotipada (ou falta de representação) é um dos elementos  que mantém vigente a ideia de inferioridade negra no Brasil, apesar dos números mostrarem o contrário. Se 54% da população é negra, por que nas produções televisivas esse número fica restrito a duas, três personagens secundárias?

A representação midiática é a peça-chave na formação da personalidade de um ser humano. É a partir da análise de personagens que os caracterizam que os espectadores consolidam os aspectos de sua personalidade. Nesse cenário, as meninas negras crescem ser ter em quem se inspirar e, como fator agravante, vendo-se como inferiores, pois é assim que são apresentadas.

Por meio dos enredos,  do elenco e de tudo aquilo que possui visibilidade, a mídia cria um padrão estético e comportamental a ser adotado pela sociedade. Esse modelo abrange, majoritariamente, pessoas brancas, com visuais e conflitos incomuns a negros. Assim, eles são forçados a adaptar-se para se encaixar em um padrão, que naturalmente não os contempla, e a omitir os seus próprios conflitos, pois não estão em pauta, e, consequentemente, não merecem espaço para discussão.

É a partir disso que meninas negras passam a renegar a própria imagem, alisar os cabelos e tentar, a todo o custo, moldar-se ao que lhes é dito como certo. Esse esforço, no entanto, não é reconhecido pelo resto da sociedade. Apesar do empenho, essas jovens continuam sendo vistas apenas como negras: aquelas que não estão nos padrões e que são secundárias na sociedade, assim como os papéis que teoricamente as representam.

Essa concepção não está completamente equivocada. Ainda há muitas mulheres negras em papéis secundários no Brasil, mas a representação positiva de suas figuras poderia contribuir para reverter a situação. Se elas se vissem caracterizadas como pessoas de influência, talvez passariam a acreditar na sua capacidade de se tornar uma dessas figuras de poder. Uma vez que seus dilemas e suas trajetórias são discutidos e valorizados, a repressão de seus traços de identidade passa a ser substituído por orgulho. Não se pode mais ignorar a influência que a mídia possui na manutenção dessas questões tão delicadas ao país.

A invisibilidade negra nos meios de comunicação  é traduzida como invisibilidade negra na sociedade. A inferiorização da beleza negra passa da programação da TV para o imaginário dos que a acompanham. Crescer vendo seu retrato como inferior, faz com que as mulheres negras se portem como menores em qualquer situação, sendo que essa inferioridade é uma ideia fantasma. A capacidade  de encarar toda a opressão, que as é atribuída diariamente, é só mais uma prova de sua imensa capacidade mediante um mundo que as testa por prazer. Nas palavras de Viola Davis, primeira mulher negra a vencer o Oscar, em sua 89ª edição,  “Às mulheres negras não falta talento, falta oportunidade”.

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Um comentário sobre “Mulheres negras na mídia

  1. Eliana Xavier disse:

    “Bia” seu texto é de uma profunda análise verdadeira da situação negra no país e no mundo. Falta oportunidade e, principalmente, lutar. Estamos conformados com a situação, deixamos a mídia ditar regras e o governo que faz com o nosso dinheiro o que quer deixando a população em determinadas posições dentro da sociedade. Basta! Reaja povo negro brasileiro…
    Parabéns “Bia”. Eliana (Guará 2)

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