Prevenção em tempos de tratamento

Em uma sociedade em que o HIV ainda é tratado como tabu, a necessidade de uma cultura de profilaxia se torna urgente.

Por Carlos Girão

Discutir sobre a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), desde os primórdios de seu descobrimento, é quase sempre estar em uma dicotomia absurda perante a sociedade. De tempos em tempos, indo de um “não podemos falar sobre isto (HIV/AIDS)” para um “temos que falar sobre isto (HIV/AIDS)”, a mídia e a sociedade estabelecem uma relação conturbada com a pauta do HIV e da AIDS.

A síndrome é considerada por muitos seu maior pesadelo. Para outros, ela é uma realidade diária, não passando de apenas um fato do cotidiano. Pessoas que carregam o vírus HIV têm que lidar com ele de forma relativamente simples, uma vez ao dia, no momento de tomarem o medicamento antirretroviral. Para aqueles que não carregam o vírus, o uso do PrEP, pilula utilizada diariamente por não portadores do vírus para prevenção da AIDS ,é um momento de conforto e prevenção. Mas nem sempre o HIV e a AIDS foram tratados com tanta tranquilidade, a luta é antiga, e a guerra não está nem na metade.

Qual a diferença entre HIV e AIDS ?

Muitos confundem ou não sabem distinguir o significado de cada uma destas siglas. O HIV é o vírus causador da AIDS. O indivíduo pode ser portador(a) do vírus HIV, contudo não manifestar a doença. A AIDS causa a redução da imunidade de seu portador. Assim, diversas outras doenças, anteriormente não agressivas, podem se tornar letais para aqueles que possuem AIDS. Quanto tratada, principalmente em estado precoce, com os medicamentos antirretrovirais, a carga viral é reduzida e desaparece dos exames, assim não há sintomas, e muito menos transmissão do vírus. 

O que é PrEP e PEP?

A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é um medicamento utilizado para evitar que uma pessoa que não tem HIV adquira a infecção em caso de exposição ao vírus. Ele deve ser tomado diariamente, e sua eficácia de proteção se aproxima de 100%. O remédio é a combinação de dois antirretrovirais (Tenofovir e Emtricitabina) em um único comprimido, o Truvada. A PrEP não protege de outras DSTs, então o uso da camisinha não deve ser abandonado. Atualmente, ela se encontra disponível pelo SUS em alguns estados brasileiros, e até o fim de 2018 todos os estados serão contemplados com a profilaxia.

A PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é uma medida preventiva de infecção pelo HIV que ocorre após o contato com vírus ou uma situação de risco. Trata-se do uso do medicamento de, no mínimo, duas horas e, máximo, 72 horas após qualquer situação de risco e contato com vírus HIV. Ele é composto pelos mesmos medicamentos utilizados no coquetel de tratamento da AIDS (Zidovudina + Lamivudina). O tratamento dura 28 dias e o acompanhamento pela equipe de saúde é de 90 dias. Alguns efeitos indesejados podem ocorrer, como dor de cabeça, enjoos e diarreia, contudo o uso do medicamento não pode ser interrompido. A PEP é uma medida preventiva de emergência e, por isso, não serve como substituição da camisinha. Também é oferecida gratuitamente pelo SUS.

Inicialmente, a doença ganhou nomes populares como “A Doença dos 5Hs: Homossexuais, Hemofílicos, Haitianos, Heroinômanos e Hookers (profissionais do sexo em inglês)”, e era evitada sua discussão, por afetar principalmente pessoas de grupos de minorias sociais. No período de descoberta da doença, sua retratação na mídia era uma imagem tenebrosa. Os filmes Philadelphia (1993), do diretor Jonathan Demme, e The Normal Heart (2014), do diretor Ryan Murphy, exemplificam a imagem inicial de terror retratada pelos meios de comunicação.

No Brasil, o filme Cazuza – O Tempo Não Para, dos diretores Walter Carvalho e Sandra Werneck, retrata a vida do cantor que marcou uma geração com suas músicas e ideologia. Cazuza adquiriu HIV  e faleceu após complicações imunológicas causadas pela AIDS. Antes de sua morte, declarou publicamente ser portador do vírus e, devido à sua fama, ajudou a criar consciência popular em relação a AIDS e seus efeitos.

Além de retratarem esses contextos, os filmes mostram também como o governo e a sociedade não ligavam para o que estava acontecendo. Em The Normal Hearth (2014), do diretor Ryan Murphy, o personagem Ned Weeks (Mark Ruffalo) luta constantemente ao lado da médica Emma Brokner (Julia Roberts) para que o governo americano e a comunidade científica parassem de mascarar a realidade da AIDS e começassem a ajudar na busca por um tratamento ou cura. As autoridades permaneciam constantemente sem nenhuma reação às diversas movimentações. A luta dos portadores do vírus e de seus companheiros e familiares, com a finalidade de se quebrar os preconceitos associados a pessoas portadoras do HIV foi constante, até que houvesse uma resposta.

Após muitas batalhas, foi reconhecida a necessidade da luta contra a AIDS e em 1 de Dezembro de 1988 ocorre o primeiro Dia Mundial Contra a AIDS. O laço vermelho torna-se o símbolo da consciencialização sobre a AIDS, com a cor vermelha sendo escolhida por causa de sua ligação ao sangue e à ideia de paixão. A meta da ONU em relação ao combate a AIDS é ambiciosa. Em 2015, a entidade estabeleceu como meta 90-90-90, que diz que até 2020 o objetivo é:

  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas e cientes disso;
  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas, cientes disso e recebendo tratamento antirretroviral ininterrupto;
  • 90% de todas as pessoas que têm HIV diagnosticadas, cientes disso, recebendo tratamento antirretroviral ininterrupto e com carga viral indetectável.

Faltando menos de dois anos para o prazo estabelecido pela UNAIDS, programa da ONU de combate à AIDS, os números não se encontram da forma que as autoridades queriam, conforme mostrado abaixo.

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Fonte: AtivoSaúde, novembro de 2017.

Contudo, hoje é perfeitamente possível viver portando o vírus HIV, com o sistema imunológico funcionando em plenas condições e com a carga viral indetectável.Essa é uma informação importante de ser visibilizada.

Mesmo com esse grande mar de mobilização e luta contra a AIDS, a falta de informação ou a transmissão desta, distorcida e embasada, são problemas que acontecem com frequência. Isso de certa forma anula grande parte da luta que acontece diariamente por muitos.

A revista ÉPOCA, no dia 02/04/2018, publicou uma matéria a respeito do comprimido Truvada, medicamento utilizado na prevenção do HIV, com a seguinte chamada: A outra pílula azul, o novo medicamento que está fazendo os gays abandonar a segurança da camisinha. Devido à matéria, a revista recebeu diversas críticas, até mesmo de um dos seus próprios entrevistados, e também uma nota de repúdio do Ministério da Saúde.

O entrevistado Ricardo Vasconcelos, publicou em um comentário na rede social Facebook dizendo que o texto está “repleto de equívocos que reforçam estigmas sobre temas que já estão soterrados de preconceitos, como por exemplo o fato analisado com julgamento moral de que gays são promíscuos, ou que somente os gays precisam se preocupar com HIV. Informa de maneira errada sobre o que é PrEP e PEP, troca nomes de entrevistados e joga no lixo tudo o que conversamos em horas de explicação.”

A principal crítica do Ministério da Saúde foi o tema central do texto, o abandono da camisinha devido ao PrEP (Truvada). Essa premissa não encontra nenhum suporte científico, segundo o Ministério, e estigmas que foram superados com muito trabalho, como o enfoque dado aos homossexuais masculinos, são reforçados de forma danosa. Diversas instituições de apoio às causas LGBT e aos soropositivos, e também leitores, enviaram comentários com críticas semelhantes às do Ministério.

A revista publicou uma nota em sua página online dizendo ter reproduzido com fidelidade as declarações de Vasconcelos, que foram checadas por escrito pelo autor da reportagem, Danilo Thomaz. Discordou também dos julgamentos feitos pelo médicos, e reconheceu erros pontuais no texto, mas disse que estes não alteram a essência do trabalho realizado.

HIV/AIDS e sociedade

Mesmo reproduzindo falas e comentários inapropriados, a revista trouxe uma discussão que estava sendo deixada de lado: o brasileiro prefere tratar a doença do que preveni-la. Hoje, o Brasil chega a oferecer tratamento para mais de 500 mil pessoas,  número que vem aumentando.  A redução dos óbitos por AIDS no país é constante. Mas, em questão de prevenção, o país falha. A iniciativa de distribuir o PrEP pelo SUS é uma forma de reconhecimento da falha e tentativa de mudança, contudo não basta somente entregar a medicação a uma população que encontra em suas raízes uma cultura de tratamento e não de prevenção.

A mídia, em pleno século XXI, não cumpre suas funções primordiais de educar e informar a população. Muitos não sabem onde, e nem como, realizar o teste rápido de HIV. Abordar a temática AIDS somente de forma pejorativa e tenebrosa, como exemplificada na capa da revista VEJA sobre Cazuza, não ajuda a quebrar antigos preconceitos que ainda vivem na sociedade. Falar sobre HIV somente em momentos de crescimento da contaminação e em datas comemorativas, como o especial do Fantástico (Rede Globo) de 30 anos de descoberta da doença, é continuar mascarando uma realidade diária que bate na porta de todos.

Corrigir a imagem de promiscuidade e terror associada a AIDS é papel da mídia. Há a necessidade de promover uma cultura de profilaxia, não somente da AIDS, mas principalmente dela. Campanhas de conscientização são extremamente relevantes, o acesso a informação é um passo que está ocorrendo de forma lenta e precisa de suporte. Um exemplo e a campanha do I=I (Indetectável é igual a Intransmissível), que divulga o fato de que, pessoas com carga viral indetectável não transmitem HIV, muitos não sabem dessa informação e muito menos da existência de uma campanha para sua disseminação.

Portadores do vírus HIV sofrem em diversos âmbitos, e um deles é o dos relacionamentos. Se relacionar com uma pessoa portadora de HIV e não adquirir o vírus é totalmente possível. Casais sorodiscordantes (em que um parceiro é portador do HIV e outro não) são uma realidade, e todos precisam ver além do vírus, enxergar o ser humano. É preciso desvelar mazelas que a muito tempo estão arraigadas a composição do povo brasileiro. Esclarecer a população sobre esses fatos, é dever da mídia. É necessário que ela cumpra suas atividades primárias de educação e informação a população. Todos podemos adquirir HIV, não existem grupos de risco, existem comportamentos de risco, e todos podemos praticá-los.

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