Infância viral

O perigo que o holofote da mídia representa no desenvolvimento de uma criança que se tornou um meme.

Por Victor Cesar

Vitória de Deus tem nove anos, prega e canta nas ruas desde os cinco. Além dessas informações, pouco se sabe sobre a garota, que tem vídeos muito populares nas mídias sociais, nos quais ela discursa sobre assuntos delicados como política, principalmente em apoio ao deputado carioca Jair Bolsonaro, Partido Social Liberal, e criticando a comunidade LGBT. Por essa falta de informação, surge questionamento acerca da qualidade de vida da criança, direitos de imagem e consequências, a longo prazo, de tanta exposição.

Existem dezenas de vídeos da chamada “mini pastora” que, juntos, somam cerca de quatro milhões de visualizações apenas no YouTube, mas em nenhum deles ou nas matérias feitas sobre Vitória, o rosto ou o nome dos responsáveis é divulgado. No entanto, fica claro em vários deles, principalmente o que primeiro viralizou, no qual critica o casamento igualitário, e no que responde ao deboche que, segundo ela, sofria por uma dupla de crianças que também viralizaram por aparecerem em um de seus vídeos, que ela é encorajada a se comportar daquela maneira específica, tanto para aumentar a venda de seus CDs, quanto para ter maior engajamento com o público, sejam fiéis ou não.

Em seus vídeos e apresentações, Vitória emula um comportamento característico de pregadores e missionários pentecostais adultos. Desde a entonação até os discursos que pronuncia, é visível que a criança é, de alguma forma, orientada a reproduzir opiniões que, claramente, não são dela, já que uma criança comum não teria conhecimento o bastante para formar pensamentos próprios sobre assuntos tão polêmicos.

Se é difícil para um adulto pesquisar e entender a fundo assuntos como política, orientação sexual e identidade de gênero a ponto de ter opinião concreta e com credibilidade, é difícil acreditar que uma menina de nove anos consiga fazer isso facilmente. “Estou muito indignada com o Brasil que nós vivemos, porque é homem casando com homem e mulher casando com mulher. Não era para ser diferente?”, diz Vitória, raivosamente. 

Mas ela não é uma criança comum. Ela viaja o país se apresentando como exemplo religioso e moral e carrega o estigma de líder espiritual com pouca idade. Vitória, aparentemente, não vai à escola com a frequência que deveria, em uma reportagem do jornal Metrópoles, ao ser perguntada se estudava, a garota respondeu “a bíblia”, e em um dos seus vídeos tenta justificar suas faltas.

O fato de não frequentar colégio atrapalha não só seu desenvolvimento escolar, mas também o social, ao ser impedida de conviver com pessoas de sua idade e de realidades diferentes da que ela vive. Porém, esse é apenas um dos fatores que prejudica a formação da menina.

A exposição a que está sujeita trará consequências imprevisíveis, mas provavelmente negativas, como as sofridas por atores mirins que, por não poderem viver suas infâncias, desenvolvem vícios e transtornos psicológicos. “Muitas vezes, a fama dura apenas um período, logo eles deixam de ser interessantes e se veem, de repente, sem ninguém, ‘abandonadas'”, afirma o psiquiatra Mario Louzã, doutor em Medicina pela Universidade de Würzburg, na Alemanha em entrevista à Vix.

Os espectadores dos vídeos de Vitória podem ser classificados em dois grupos: o de fiéis, que assistem e apoiam o comportamento da menina, pois acreditam nos posicionamentos que ela prega e a aplaudem por isso; e os espectadores que veem os vídeos de forma irônica para debochar da criança e usar a forma como fala e o vocabulário como memes. Existem, também, aqueles que criticam Vitória pelo conservadorismo das opiniões, frequentemente, esquecendo-se da idade e ingenuidade de uma criança tão nova.

No fim, todos, de alguma forma, até os críticos, fomentam a continuidade das ações de Vitória. E seus pais, principalmente, são responsáveis, conscientes ou não, pelos danos que Vitória possa sofrer pela forma com que é retratada na mídia, uma vez que o roubo da infância se faz pelos que a aplaudem e a apedrejam.

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