A questão por trás dos estupros da ficção

Quando a personagem feminina se resume à violência que sofreu

Por Giulia Soares

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um estupro é notificado a cada 11 minutos no Brasil. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 70% dos casos, o abusador é um parente, namorado ou amigo próximo. De 2014 até esse ano, nove novelas e minisséries da Globo tinham cenas de estupro em seu enredo. Na mais recente, O Outro Lado do Paraíso, a personagem Clara (Bianca Bin) foi estuprada por seu marido na noite de núpcias e Laura (Bella Piero) sofreu abusos do padrasto durante a infância.

Por mais que seja importante retratar essa realidade em horário nobre, a repetição dessas cenas na TV dá a entender que o estupro é uma estratégia dos roteiristas para complexificar uma personagem feminina. Na maioria das vezes, a violência sofrida norteia a personalidade da mulher como no caso de Laura, que desenvolveu diversos problemas psicológicos por conta do que passou. Em outros casos, o estupro acontece porque a personagem precisa de motivos para se vingar e se mostrar forte – como foi com Clara, ainda em O Outro Lado do Paraíso.

Outro grande problema é quando o estupro é usado para construir personagens masculinos. Com o estupro de Clara, o público pôde ter certeza que seu marido Gael (Sérgio Guizé) era um homem mau. No caso de Laura, só se lembrou que sofreu a violência durante a infância quando seu marido Rafael (Igor Angelkorte) a incentivou a investigar porquê ela tinha tanto medo de contato físico. Rafael, então, se tornou o marido atencioso e compreensivo que ajudou Laura a superar o passado. Esse recurso se assemelha ao “Manic Pixie Dream Girl”, explicado no texto de Beatriz Castro em setembro de 2017, em que as personagens femininas são utilizadas como escada no crescimento do personagem masculino.

Porém, o estupro como estratégia narrativa é observado não apenas em obras da Globo, mas também em ficções hollywoodianas. Na série Game of Thrones são diversas as personagens que sofrem violência sexual. Cersei Lannister (Lena Headey) é estuprada pelo irmão e amante durante o velório do filho dos dois. Nesse caso, o estupro é inserido na narrativa como forma de humanização da vilã, que durante toda a série é retratada como ambiciosa, sem caráter e malvada. Todas as violências que ela sofreu tornam sua personalidade e as coisas absurdas que faz compreensíveis e, inclusive, justificáveis.

Ainda em Game of Thrones, Sansa Stark (Sophie Turner) sofre um estupro no último episódio da quinta temporada – o que levou ainda mais atenção à cena. Neste caso, a violência não contribuía para o amadurecimento da personagem e nem acrescentava nada à história, foi apenas para chocar o público e polemizar. 

“Como toda mídia com grande poder de entrar no imaginário coletivo, o cinema é um veículo forte, que usa a liberdade criativa para disseminar todo tipo de mensagem – o problema é quando elas se tornam padronizadas, como a violência contra a mulher”, explica a cineasta Gabriela Franco, em entrevista para o Portal Vix.

A violência não deve ser o que define a personalidade de uma mulher, visto que diversos eventos na vida são responsáveis pela construção do ser humano. Reduzir a representação feminina na TV e no cinema ao estupro evidencia como a indústria cinematográfica é machista, texto de outubro de 2017. De acordo com pesquisa da New York Film Academy, há cinco homens para cada mulher na indústria cinematográfica. A falta de representatividade feminina no cinema faz com que visões padronizadas desse tipo se perpetuem.

O uso recorrente da violência sexual nos enredos das histórias pode tornar o problema até banal. Quando o estupro é comum nas narrativas ele não vai parar de ser exibido, mas sim será retratado de forma mais chocante para ainda assim chamar atenção. As cenas passam a ser cada vez mais reais, porque senão não sensibiliza o espectador.

Segundo estudo realizado pelo Departamento de Psicologia e Comunicação da Universidade do Texas, ao assistir uma personagem ser violada sexualmente o homem tem reação negativa em relação às mulheres, enquanto elas se sentem particularmente mais ansiosas ao se deparar com uma semelhante em situação de risco. Portanto, o jeito com que a mulher é retratada na mídia influencia nas atitudes dos homens e no emocional das mulheres.

Por outro lado, as personagens femininas fortes provocam reação positiva, tanto nas mulheres quanto em homens. Algumas delas são capazes de contrariar os estereótipos machistas que se perpetuam. Katniss Everdeen, da trilogia de Jogos Vorazes, é um exemplo de personagem bem construída sem apelar ao estupro. Além dela, a princesa Leia, de Star Wars também é forte e construída sem a necessidade do recurso narrativo. Todas as personagens femininas de Orange is the New Black são complexas e diferentes uma das outras, e a maioria delas não precisou sofrer violência sexual para isso.

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