E a representatividade, cadê?

A novela Segundo Sol e o retrato de uma Bahia embranquecida

Por Júlia Mano

Nessa semana, estreou na Rede Globo a nova novela das 21h, Segundo sol. Mas antes de sua estreia, após a liberação do teaser, causou muita polêmica nas redes sociais, por não ter aparecido nenhum personagem negro, já que a trama se passa na cidade de Salvador. O Gshow fez um post no dia 9 de março (com atualização no dia 13 de maio) apresentando o elenco e, com apenas, dois atores e uma atriz negra.

O local escolhido para a ambientação foi a Bahia, com, praticamente, todas as cenas sendo passadas em Salvador. Com isso, se vê uma contradição entre o elenco e o local escolhido, visto que o Estado tem uma população de maioria negra e parda (76% dos habitantes, segundo o censo de 2013 do IBGE), e, Salvador é, até mesmo, considerada a cidade mais negra fora da África.

Mas esse problema de representatividade de elenco não restringe apenas a Segundo Sol, vale lembrar da minissérie global O Canto da Sereia, exibida em 2013, também, ambientada em Salvador. O elenco era composto por, apenas, 4 atores baianos – dois eram negros – uma atriz negra (Zezé Motta) e contou com a participação da cantora Margareth Menezes (sendo a única mulher baiana no elenco), vale lembrar que foram escalados 17 atores, e apenas 6 representavam, de fato, a cidade.

Na semana passada, o Ministério Público do Trabalho enviou uma notificação à Rede Globo para realizar adaptações na novela Segundo Sol, com o prazo de 10 dias, se não ocorrer os devidos ajustes, o órgão moverá uma ação contra a emissora. A recomendação é seja feito adaptações de elenco para haver mais representação racial.

A notícia foi veiculada no dia 12 de maio, pelo portal Bahia Notícias, e vale ressaltar o seguinte trecho da nota enviada pelo MPT: “O não espelhamento da sociedade nos programas televisivos gera a perpetuação da exclusão e reafirma estereótipos de limitação de espaços a serem ocupados pela população negra. O Estatuto da Igualdade Racial recomenda ao Poder Público a promoção de ações que assegurem a igualdade de oportunidades no mercado de trabalho para a população negra”.

Em nota enviada ao site UOL, após a divulgação da notificação do MPT, a Globo se manifestou sobre a polêmica envolvendo a novela: “Recebemos na data de hoje [11] a Nota Recomendatória do Ministério Público do Trabalho, mas reafirmamos que a Globo respeita a diversidade e repudia qualquer tipo de preconceito e discriminação, inclusive racial”. Além dessa nota, a emissora ainda respondeu, ao blog de Mauricio Stycer, que não escolhe o elenco por representatividade racial, mas de acordo com os quesitos que o artista apresenta para ser o personagem. Contudo, será mesmo que de todos os atores e atrizes globais que representariam bem a Bahia, nenhum(a) se enquadrou no perfil dos personagens principais?

Apesar de não ter gerado polêmica, também se tem outro problema de representatividade: a atuação de poucos atores baianos – os que, ainda, foram escolhidos atuam em papéis secundários e de figurantes na trama. Vale salientar que o Sindicato dos Artistas e Técnicos da Bahia (Sated-BA) enviou à emissora uma carta solicitando que fosse incluído no elenco atores e atrizes baianos, que saiu no Correio da Bahia.

O Estado da Bahia apresenta uma vasta produção cultural, com maior destaque na música, mas os atores e a produção audiovisual não recebem a mesma ênfase – mesmo sendo de tamanha qualidade quanto a da produção musical, a exemplo, tem-se os atores Lázaro Ramos e Wagner Moura, e o cineasta Glauber Rocha. Vale lembrar do filme – que depois virou série da Rede Globo – Ó pai, ó de produção baiana e com o elenco formado pelo Bando de Teatro Olodum, é, o único exemplo de representatividade baiana vista na emissora de Segundo Sol.

Outro quesito da novela que causou polêmica – mas menor – foi a trilha sonora. Com o intuito de fazer uma homenagem a Axé Music, algumas músicas do gênero foram colocadas na trilha, mas outras ganharam uma nova versão de artistas de estilo distante das versões originais.

Vem meu amor, originalmente do Olodum, foi regravada por Wesley Safadão, Beleza rara, da Banda Eva e na marcante voz de Ivete Sangalo, agora está na voz de Thiaguinho, o mesmo com Beija-flor (Timbalada), é interpretada por Johnny Hooker, mas a nova versão que causou mais críticas e estranhamento foi a de Swing da Cor, de Daniela Mercury, que agora está em inglês e com o título de Swing all the Colors, cantada pelos dj’s I KOKO. Essas regravações só frisam a problemática da trama, a ausência da baianidade de Salvador nela.

Com todas as críticas, a Rede Globo, em tentativa de atrair audiência baiana para Segundo Sol, exibiu na Rebe Bahia (sua filiada) o documentário “Axé: canto de um povo de um lugar” antes da estreia. A investida foi efetiva, segundo a TV Foco em Salvador a cada dez televisores ligados seis estavam sintonizados na novela.

Porém, o alto IBOPE em Salvador não significou boa receptividade, o Jornal A Tarde publicou em seu site: “O que os soteropolitanos acharam da estreia de ‘Segundo Sol’.” e algumas das principais críticas feitas via Twitter foram: o sotaque, a trilha sonora e, principalmente, a “Bahia sem negros”. Com isso, após toda essas polêmicas, é esperado, que na segunda fase da novela sejam feitos os devidos ajustes, para que possamos vers uma real representatividade do Estado da Bahia: das suas cores, cultura, artistas e, principalmente, a sua negritude.

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