Mais do que “a noiva de Harry”

O casamento real entre Meghan e Harry agitou jornais do mundo inteiro. O que essa reunião representa para o Reino Unido?

Por Thiago Melo

Meghan e Harry serão um casal com poder. Juntos, podem mudar mais coisas”. A frase é do biógrafo especialista em família real britânica, Andrew Morton. Se depender do espaço dado pelos jornais ao casal, Andrew tem razão. Mas claro, Henrique Carlos e Meghan Markle não são qualquer casal. Eles merecem a atenção da mídia.

Tudo começa após uma entrevista à BBC de Londres. Até então, o Harry que todos conheciam ainda era aquele meio irresponsável, lembrado pelas polêmicas reais, e que nos últimos anos tentou se redimir. A Meghan que todos conheciam era aquela que atuou nas séries Suits e Fringe, que dedicava parte do seu tempo a causas humanitárias e era considerada pelos amigos como uma mulher independente e de forte personalidade.

Em novembro de 2017 (mesmo mês em que anunciaram o noivado), Harry e Meghan afirmaram que se conheceram através de uma amiga em comum. Ambos não sabiam muito um sobre o outro. O namoro não oficial começou a tomar espaços pequenos nos tabloides e jornais ingleses em 2016. Mas foi em setembro do mesmo ano que toda a mídia saberia de forma transparente que a realeza britânica receberia uma nova integrante, a mais improvável, pelo menos para os padrões reais até então conhecidos.

Com direito ao filme Harry e Meghan: Um Amor Real e a páginas inteiras nos principais jornais do mundo, a cerimônia de Meghan e Harry, que acontece neste sábado, 19 de maio, já é considerado a atração principal nas ruas da capital inglesa. E tornou-se também a principal atração do ano. 

O que torna o casamento de Meghan e Harry tão especial e importante para a mídia não é uma simples agenda da imprensa e tampouco se resume ao fato de ser uma união da realeza real, de ter mais de 2600 convidados ou de ter a apresentação das Spice Girls após a cerimônia. O que deixa essa união mais interessante é o contraste criado pelo casal, os limites ultrapassados por uma mulher afro-descendente, atriz, divorciada e fora de todos os padrões ingleses reais.

A atenção dada pela mídia à Duquesa Kate Middleton centrou-se no fato de ela ter sido uma plebeia. As atenções da mídia voltam-se agora para Meghan. Os motivos? Muitos, e ser plebeia é apenas um deles.

Como disse o jornal O Globo em dezembro do ano passado, o povo britânico vive “O efeito Meghan: sangue plebeu que injeta modernidade nas realezas” Chamada de Kate Middleton Espanhola, Meghan já demonstrou que ela não é simplesmente a noiva de Harry.

Antes do tão esperado casamento, a mídia aproveitou bastante para “revelar” ao mundo quem é esta americana. Os títulos são claros: “Quem é Meghan Markle”, “Conheça sete fatos sobre Meghan Markle, futura integrante da realeza britânica. Os textos, nem tanto.

Mas o objetivo aqui é chamar a atenção para outro lado da história: o fato de a mídia ver a união de Meghan e Harry como uma inspiração para outras mulheres. “Aumenta a inclusão e a inserção de negros na sociedade britânica”, disse uma inglesa ao ser perguntada sobre o que achava do casamento. Será um grande exemplo para a Inglaterra e uma representação fiel da sociedade britânica“, afirmou outra. 

O Globo também foi incisivo ao publicar o artigo “Porque o noivado de Meghan e Harry pode melhorar a autoestima de meninas negras”.  O texto seria ideal para mostrar Meghan como uma mulher forte e independente, que representa muito mais que a “nova esposa do herdeiro britânico real”. Mas, infelizmente, o texto leva a crer que chegar à família real é algo que dificilmente uma mulher negra conseguiria e que, por essa razão, Meghan representa o modelo perfeito para  as mulheres que idealizam e sonham com o casamento real.

Uma das publicações da BBC traz um questionamento: “Como o casamento do príncipe Harry e Meghan Markle pode mudar as relações raciais no Reino Unido?”. Após a relação do casal vir à público, Meghan sofreu inúmeros ataques racistas. Os comentários chegaram a certo nível de gravidade, fazendo Harry emitir um comunicado no qual afirmou repudiar “insinuações racistas” e condenar “o racismo escancarado na internet” contra Meghan.

O portal G1 vai além e questiona “Prestes a se casar com Harry, Meghan tem força para mudar a monarquia britânica?”. A pergunta mostra que, além de ter que lidar com a ideia do “prêmio real”, Meghan precisa garantir que terá condições de se responsabilizar pelo debate que ela própria construiu ao apaixonar-se por Harry. Será que ela consegue?

O tradicionalismo por trás da família real reforça a ideia de que um casal interracial muda por completo a forma como os ingleses encaram as questões de raça no Reino Unido. O racismo na Inglaterra, por mais disfarçado que seja, existe. Meghan bagunçou um pouco as pré-regras britânicas.

O jornal El Pais, na reportagem “Negra, estrangeira e livre, Meghan Markle é o que a realeza britânica precisava para 2017, destaca as mudanças causadas pela chegada de Meghan à família real. Apesar de tecer inúmeras razões positivas diante da união entre o casal, a publicação peca ao considerar mais importante “o posto” conquistado por Meghan, o tão sonhado prêmio inglês: o coração de Harry.

O fato é que o casamento entre os dois representa uma mudança social que atinge toda a Inglaterra e, ao considerar a questão racial como parte do debate, é necessário refletir também que esta união não pode ser tratada como um prêmio para a família britânica ou para Harry, ou pior, um prêmio para Meghan.

Estamos falando de pessoas, e mesmo que a família real esteja em todos os holofotes, o novo casal inicia algo que a mídia pode atingir, mas não por completo. O que importa é esquecer a ideia de que a posição de Meghan representa um troféu, uma inspiração para as mulheres “comuns”. Ou então, quantos casamentos com príncipes ou herdeiros reais seriam necessários para revelar mulheres “reais”?

Meghan não precisou de Harry para construir a carreira, tampouco para que as pessoas se lembrassem do seu nome. É possível perceber certo sensacionalismo em relação à forma como a mídia enxerga o casamento entre Harry e Meghan, e mais que isso, percebe-se certa espetacularização diante do novo, a improvável união. O fato grave está sim na forma como as reportagens descrevem a chegada de Meghan à família real, como se sua vida pessoal e profissional pré-casamento real não fosse tão relevante assim.

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