A lenda da imparcialidade

O preceito de neutralidade no jornalismo traz consequências nocivas para a sociedade

Por Beatris de Deus

A teoria do espelho começou a ser elaborada em 1850. Na atualidade ela não é mais aceita entre estudiosos e críticos dos meios de comunicação. Porém, ainda vê-se com uma certa frequência uma predisposição de alguns jornalistas em seguir a neutralidade e imparcialidade que essa teoria propôs.

Ela atesta que o jornalismo reproduz os fatos de forma fiel a realidade. O jornalista, nesse caso, viria a ser neutro e imparcial. Dessa maneira a profissão passou a ser estruturada nos moldes típicos das ciências exatas. Mais de cem anos depois, ainda impera em grandes veículos jornalísticos do Brasil essa máxima.

Veículos de comunicação colocam na primeira página de seus periódicos manchetes e fotos de acontecimentos que mostram apenas um lado do fato, e esse lado é quase sempre o que condiz com os interesses da elite, que é dona dos meios de comunicação e que lucra com a desinformação dos brasileiros.

Essa teoria desconsidera que o jornalismo é feito por pessoas, que para produzirem seus textos, vídeos, áudios informativos precisam lidar com outros seres humanos.

Parcialidade

Todos possuímos uma bagagem de vida, que, querendo ou não, irá afetar o nosso modo de observar o que nos rodeia. Porém, alguns profissionais desconsideram esse fator e se escondem por trás do conceito que está desgastado de imparcialidade e neutralidade. Esses produzem seus trabalhos jornalísticos da forma que lhes convém, se apegando a comodidade de fazer o “mais do mesmo”.

 “Acredito que a imparcialidade é algo muito dito dentro do ambiente jornalístico, mas muito difícil de se obter. Por que o que é ser imparcial? Devemos ouvir os dois lados (ou mais lados quando houver), mas dentro do texto o modo como construímos a narrativa já deixa de ser imparcial”, disse o jornalista Pedro Grigori, 22, que trabalha atualmente no Correio Braziliense.  

“Quando escolhemos colocar um lado antes do outro, já estamos fazendo uma escolha que pode interferir no modo como o leitor vai interpretar o texto. Quando escolhemos ouvir um especialista invés de outro, já estamos fazendo escolhas que trarão um viés e uma visão diferente para o nosso texto”, completou  Grigori.

O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em seu capítulo II, Artigo 4°, ressalta “O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e correta divulgação”.

Buscar a verdade, nesse caso, seria tentar chegar o mais próximo do que de fato aconteceu. Mas, sem a presunção por parte do profissional de se achar onipotente e capaz de narrar com precisão e imparcialidade o ocorrido.

Consequências

Para Grigori, as consequências dessa visão positivista de que a imprensa é imparcial e neutra variam e dependem do quão parcial o jornalista é. “Tem uma propaganda da Folha de S. Paulo que diz que é possível construir uma mentira apenas usando verdades. Para exemplificar isso, eles fazem um perfil positivo de Hitler, apenas utilizando informações positivas sobre isso. E isso ocorre muito”.

Grigori ressalta ainda que os meios de comunicação possuem seus próprios interesses que, em muitos casos, interferem em como uma notícia é transmitida. “Na cobertura das reformas trabalhistas, por exemplo, uma boa parte dos veículos cobriu como se fosse algo positivo e necessário para o país, negligenciando (ou diminuindo a importância) das perdas que a aprovação traria. As consequências disso são notícias incompletas ou tendenciosas, que deixam a população má informada”, exemplificou.

Inquestionabilidade

A grande mídia ainda possui significativa influência sobre o público. Talvez essa relação de confiança ocorra por conta da cultura que nos foi inculcada de que o que os veículos de comunicação reproduzem é sempre verdade. Alguns jornalistas continuam a reproduzir esse pensamento. Mas é importante enfatizar que eles não são os “vilões” da história, nas instituições que cursaram o ensino superior foram ensinados a encarar o jornalismo dessa forma.

A não reflexão do profissional ao executar uma tarefa que pode ser simples ou complexa, resulta nessa equivocação extremamente nociva para a sociedade e para o próprio jornalismo.  Todavia, vale ressaltar que o público não recebe toda informação distorcida passivamente. Atualmente com a internet há também a possibilidade de buscar conteúdos jornalísticos através de meios alternativos.

Inconsciência

A falta de cuidado para com a fonte também é um problema que deriva dessa “arrogância”, dessa vontade do profissional de ser o dono da verdade, mesmo que ele não seja onipotente e não saiba de tudo o que acontece no mundo.

De acordo com o código de ética da profissão, em seu Art. 6°, inciso II, é dever do jornalista “respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão” sem se esquecer de apurar bem os fatos e de procurar ao máximo dar espaço para todos os lados da história.

Aspirações

Gregori afirma que quando a imparcialidade vem da própria empresa de comunicação, o profissional acaba por não ter o que fazer a respeito, pois naquele ambiente o jornalista é apenas um funcionário. Para ele, o cenário ideal seria que a divulgação de notícias não fosse feita por empresas que visam o benefício próprio com o modo que uma notícia é pregada e/ ou distribuída.

“Quando a interferência não vem de chefes, acredito que para se tornar imparcial é necessário irmos para as pautas com a cabeça aberta. As vezes uma dedução que a gente tem antes de começar uma apuração não é a certa. Não podemos ir para uma pauta com o objetivo fechado”, expôs Pedro Gregori.

“No cenário ideal, devemos estar desligados dos nossos preceitos e convicções, para ter a capacidade de ouvir o máximo (ou todos, se possível) de lados possíveis da história e contá-la sem condenar ou julgar ninguém. Esse não é o nosso papel, somos transmissores de notícias, não juízes para dizer se alguém está errado ou não, se uma situação é certa ou não”, complementou o jornalista.

Devemos mais do que nunca nos desvencilhar desse modo positivista de fazer jornalismo. Faz-se necessário que o profissional de área de comunicação enxergue o outro com respeito, como um ser humano e não apenas como o meio para um fim.

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